Caderno rabiscado

Talvez seja verdade que a escrita manual habilite ao escritor novas formas criativas, como se a lentidação da formação das palavras desse a oportunidade de prever e estudar o que vem a seguir. Não obstante a preguiça na escrita cursiva, é certo que a rapidez da digitação corrobora erros sucessivos facilmente corrigidos pela “anulação da palavra”, quando o ideal seria refletir se o erro anterior (por exemplo, um diálogo irrelevante) não foi fruto de uma disposição do narrador em trazer à trama algo a ser contado de forma diversa. Não vejo qualquer saudosismo nos cadernos rabiscados, muito embora reconheça que a análise, pelo escritor, de sua própria obra tenha melhor aproveitamento nos erros que podem ser a qualquer momento consultados, ponderados e reestudados. E reecontrar velhos erros é o passo essencial ao escritor que lê coisas antigas e as repele por serem “de outra época”.

A serenidade de Júlio Justino

Júlio Justino acordou decidido: revidaria tamanha desfeita. Encharcado de suor após o estado febril de uma noite mal dormida, trêmulo das mãos, ofegante e irresignado, com os olhos fundos de um choro reprimido, não esquecera do tal Antônio Sávio, funcionário de crachá amarelado que não inclinado à importância de seu problema o advertira no dia anterior: “volte na segunda-feira e então seu problema será resolvido”. É bem verdade que Justino não esperava qualquer trato mais rude vindo de um funcionário público, muito embora não pudesse prever a desídia que apunhalou seus anseios mais nobres e a honra de um homem que saíra de casa apenas para resolver pendências burocráticas.

Tudo se deu numa chuvosa sexta-feira de final de mês, época em que afloram nos homens mais viris a tendência à autocomiseração. De fato, tomando o ônibus que seguia ao centro, Júlio Justino não evitou os resmungos de quem abandonara os afazeres de maior importância, como limpar o próprio jardim e dar alimento aos animais abandonados. Tratar de assuntos chatos costuma trazer a Júlio Justino o peso do comprometimento; preferiria certamente tomar um café ao lado de um bom livro. A imaginação de qualquer circunstância que lhe trouxesse o esmaecimento de seu amor pela humanidade era algo que o atordoava constantemente. Não poderia deixar apagar, de forma alguma, a chama da figalguia: manter-se nobre era antes de tudo manter-se dentro de casa e longe da ralé.

Naquela fatídica sexta-feira de final de mês, já na recepção Justino notara a presença de Antônio Sávio: homem opulento de trejeitos espalhafatosos, cujos olhos avermelhados e unhas encardidas indicavam outras debilidades.

“Talvez esteja doente de tanto ócio”, pensou Justino ao sentar-se nas cadeiras vazias da repartição ao perceber que o funcionário público, prestes a atendê-lo, retirava das unhas qualquer sujeira.

A imagem de Sávio e, repito, seus trejeitos pouco usuais para seu tamanho era como um peso nos ombros de Justino. Olhava para os lados, mexia na caderneta de notas de minuto em minuto, tentava se desvencilhar da cena atormentadora. Mas ali estava Sávio, Antônio Sávio, prestes a atendê-lo. Sim, não havia outro funcionário. Todos os demais, aos cochichos, na iminência de deixar o recinto, provavelmente ignoravam sua presença. Não obstante seus tiques e gestos, Sávio era o único que ainda se preocupava com o computador. Sim, era ele quem o atenderia, ele e mais ninguém.

Tudo se deu conforme já dito: após a absurda sugestão para que voltasse na segunda-feira, Júlio Justino tomou o rumo para o banheiro, logo ao lado da recepção, e ali permaneceu por quase trinta minutos. De maneira que o prédio já fechava e Justino, mais calmo, seguiu depois em direção ao ponto de ônibus. Passou por dois seguranças e não ousou encará-los. Estava envergonhado.

Ora, rever esse mesmo Antônio Sávio era a pior das sentenças, em verdade a pior das condenações. Teria novamente de sair de sua querida casa, deixando para trás o bom café e as conjecturas do amor aos homens e a emoção das imaginações de um mundo sem miséria. O cheiro dos pedestres do centro não lhe repugnava menos que o cheiro que fantasiava ter Antônio Sávio; aliás, eram as coisas não sentidas que mais lhe embrulhavam o estômago. As pontadas em sua cabeça, costuma dizer Justino ao Dr. Clóvis Barros, “são apenas o esforço do meu corpo em me manter sereno”.

Desceu do ônibus e seguiu à repartidão. Vendo de longe o prédio, bateu-lhe a mesma vertigem de quando resolvera ajudar o vizinho Ivan Inocêncio a rastelar o terreno baldio da esquina: a ansiedade do término de tudo aquilo lhe apertava o peito de tal modo que faltava ar e palavras. Calado, ignorou o “bom dia” do segurança e se debruçou sobre a mesa da recepção. Encarou por um tempo um sujeito que ali não estava na sexta-feira, se bem que o novo funcionário mais parecesse um jovem e mirrado estagiário.

– Gostaria de falar com Antônio Sávio, e mais ninguém -, disse Justino com saliva no canto da boca e o rosto vermelho. Saltavam-lhe as veias da testa. Não ousou sentar e aguardou o retorno do jovem funcionário ali mesmo, debruçado.

– Venha, por favor. Mesa quatro -,e apontou o funcionário a direção.

Sim, ali estava Sávio, Antônio Sávio, esperando-o com o cotovelo sobre a mesa e com uma xícara de cappuccino recém servido, bem ao lado de alguns papeis. Justino não mais suportava: a garganta seca e quase doentia o incomodava. Tinha febre; ao menos era o que sentia, contudo foram as axilas molhadas de Sávio que o fizeram voltar a passos rápidos. O cheiro do cappuccino lhe era insuportável. Entrou no banheiro, jogou água no rosto e bisbilhotou o segurança: nenhum sinal de movimento. “Ninguém parece se importar com o meu sofrimento”. Respirou fundo, limpou os lábios tomados de saliva ressecada e seguiu em direção à guilhotina. Sentou-se lentamente, como que exprimindo gemidos de uma dor inexistente.

– Caro, desculpe-me, não sei se o senhor se recorda de mim, mas estive aqui na sexta-feira. Meu, meu nome é Júlio, Júlio Justino e gostaria que você por gentileza me orientasse sobre esse problema que tenho so… – e foi interrompido por Antônio Sávio.

– É claro que me recordo. Veja, aqui está, está tudo certo. Atualizei os cadastros. Tome, leve isto para casa. São todos os extratos desde 1996, achei-os em meio aos arquivos. Você teve sorte. Grande parte de toda essa documentação já foi descartada. Esse final de semana foi corrido, mas lembrei de sua dúvida e consegui antecipar o trabalho -, e estendeu a mão em ato de despedida, sorrindo.

“Talvez tenha pregado uma peça em mim, esse sujeitinho”, pensou Júlio Justino ao sair do prédio. Estava desconfiado, desconcertado, mas dessa vez não envergonhado. Do contrário, tinha dentro de si um estranho orgulho e uma estranha satisfação. Era certo que seu nervosismo agora não passava de cansaço. Tomou a condução até sua casa e imaginava no caminho como estariam suas orquídeas. Desde o falecimento de sua querida esposa fala às plantas afagos ridículos, ainda que sinceros. O livro permanecia sobre a mesa e o café, frio e pela metade, conservou certo aroma que tomava toda a sala. As árvores seguiam o ritmo do vento e a brisa corria livremente pela varanda. Pusera novo café. Estava feliz, honestamente feliz, pois a responsabilidade não mais o perturbava. Pegou o livro e continuou a ler, não sem antes notar como estavam crescidos e sadios os lindos filhos de Inocêncio que corriam agarrados à árvore de seu jardim.

Leandro Karnal e o teatro

Leandro Karnal é o exemplo mais categórico de como a bela retórica antecipa a intelectualidade. Após dezenas de vídeos de palestras e entrevistas assistidas, toda aquela beleza discursiva e de aparente filosofia se esvai como um sopro no pó de piadas, reflexões, tiradas, sarcasmos e citações repetidas, repetidas e repetidas. No primeiro vídeo, um gênio; no último, um demagogo cansativo. Pego então seu mais recente livro e percebo uma velha verdade: o abismo que separa a retórica falada da retórica escrita, quando então as ideias transmitidas não estão carregadas pela cadência de sua voz, pausas propositais antes de uma ironia proposital, expressões faciais certeiras, exemplos absolutamente desconexos para incutir em seus ouvintes qualquer falácia. Ou seja, um excelente palestrante, mas da boa escrita passa longe. Fala da importância da tolerância efusivamente como se não fosse o assunto de qualquer esquina; condena o consumismo, como se não fosse a reflexão mais básica de qualquer conversa de bar; fala de racismo, como se estivesse contando uma novidade; elogia a democracia, pois imagina que sua multidão a condena; sobre as questões políticas, repete o que diz qualquer professor universitário. Seus estudos sobre Shakespeare salvam-no da autoajuda consumada.  Basta colocá-lo ao lado de Mário Ferreira dos Santos para que se tenha, em pouquíssimo tempo, toda a clareza do que é ser palestrante ou professor, e o que é ser historiador de filosofia ou filósofo; líder de palestras ou mestre discente.

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Existe uma tríade de personagens caricatos, envoltos em temas filosóficos, que seguem o caminho de palestras de autoajuda, muito embora reneguem tal ofício até a morte: Mário Sergio Cortella, Clóvis de Barros Filho e Leandro Karnal. Dizem-se, recorrentemente, filósofos, ainda que nunca se tenha visto um filósofo que não produza filosofia. Perguntados, respondem: “sou um filósofo”. Novamente questionados: “sou um filósofo”, após citar seus caminhos na academia. Depois, passam por meio do discurso a embaralhar conceitos rasos no fito de espantar a plateia, quando então todos acenam com a cabeça: “de fato, um excelente filósofo”.

E todos depois saem satisfeitos com o teatro.

As anotações de Paulo Bezerra

Paulo Bezerra, como bom comunista, investe nas “notas do tradutor” em Os Demônios como quem nada quer, imputando até mesmo um sentimento a Dostoiévski. Tenta ele nos convencer de que quem fala é o autor russo e não seu personagem. Anota os fatos históricos com dicas de que aparentemente Dostoiévski apoiava tais fatos quando, opostamente, os criticava; diz que o russo ironizou (e não o próprio personagem literário) isso ou aquilo ao utilizar determinada expressão. Coloca na boca de Dostoiévski a responsabilidade por todo e qualquer diálogo dos personagens literários, em contradição àquele mesmo cuidado com os diálogos de Os Irmãos Karamazov. Parece-me que Os Demônios incomodou os trabalhos de Bezerra; talvez tenha se imaginado na pele daqueles intelectuais. 

De qualquer modo, a qualidade continua impecável: basta que não se dê ouvidos às baboseiras afirmadas por Paulo Bezerra, certamente uma interferência na leitura que coça os olhos de qualquer leitor que conhece a fama dos tradutores socializados e “amantes da humanidade”.

Ivan Karamazov e o perdão do torturador

Tenho para mim que Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, consegue seu ápice nos poucos parágrafos que antecedem O Grande Inquisidor. É algo como uma preparação emocional da dúvida niilista de Ivan Karamazov, o qual tenta dissuadir Aliocha, seu irmão, daquela visão romântica de um pacifismo que aceitaria a absolvição do mais cruel dos torturadores e o esquecimento das dores da vítima indefesa: o causo da criança torturada e morta em frente à sua mãe. Com isso, temos também um prelúdio da ironia de O Grande Inquisidor, quando Jesus Cristo, em sua segunda vinda em plena época inquisitorial, após fazer milagres junto ao povo, é removido, encarcerado e depois condenado à fogueira.

Nesses parágrafos antecedentes Ivan interpela Aliocha sobre a validade do perdão. Ivan Karamazov diz indiretamente a Aliocha que o que importa não é a categoria de arrependimento ou da redenção materna, mas sim a punição de morte daquele que tortura uma inocente criança.

Com isso, Ivan força Aliocha a reconhecer que o caso do sádico que tortura o filho diante da mãe representaria duas vertentes de perdão ou vingança. No sentido de atribuir a conveniência da pena capital, Ivan conduz seu discurso no rancor da mãe que poderia perdoar o torturador de todo o sofrimento por ela sofrido (ou seja, a perda do próprio filho após a tortura), porém nunca poderia perdoar o sofrimento de seu filho decorrente da tortura. Ao que Aliocha, num rompante de indignação, concorda com a aplicação da pena de morte. É a quebra, mesmo que temporária, do pacifismo aliochano, posteriormente recuperado e finalmente posto à prova quando da defesa da criança que outrora lhe agredira com pedradas.

Em O Grande Inquisidor há a demonstração de que talvez Ivan Karamazov não fosse de todo modo um ateu, mas sim um “revoltado”, palavra usada por Aliocha. É o que se lê em vários estudos sobre a obra, apesar da minha percepção pessoal divergente: acredito que a ironia não passou de uma adequação à fé e crença de Aliocha, trazendo-o perante um sarcasmo insuportável.

Isso que, apesar de acreditar na providência divina e na mensagem cristã, renega a ambos e subverte em seus desejos a vingança, o desprezo pelo pai e a intelectualização do parricídio.

É a partir desse momento que temos o esclarecimento da frigidez moral de Ivan e o capítulo que antecede a fatídica conversa com o criado Smerdiákov. A desgraça pairava sobre a família Karamazov, bastando finalmente que tudo se justificasse na teoria, viabilizando a prática.

Os doentes de Dostoiévski

Muitos não gostam de Dostoiévski em vista de seu aparente desprezo ou supervalorização das doenças psiquiátricas, as quais hoje são consideradas até mesmo um traço da pior personalidade. Há quem se chateie com a utilização recorrente das crises epilépticas como uma forma de dissimulação justificada na doença, o que traz ao enredo a desconfiança inicial do doente como se fosse ele próprio uma mancha a ser removida, um erro, um problema.  Notei isso ao encontrar em fóruns de discussão as justificativas pelas quais o russo não teria espaço em algumas prateleiras; a coisa desandou para fatídicas acusações pessoais, como se Dostoiévski falasse a eles próprios.

É ou não excelente literatura?

Isso evidencia ao menos temporariamente a tendência de seus romances na completa descaracterização da vítima, trazendo-a ao campo da igualdade dissimulada e das maldades que circundam os personagens. Em não sendo mera vítima, o doente é ele próprio um dos agentes possíveis da conturbação do enredo criado, senão a maior conturbação: é o assassino, o louco ou o gênio maldoso que não quer ser incomodado e que desde o início permeia os conflitos por sua atuação velada ou pela omissão manipuladora.

Fíodor Pávlovitch tem traço esquizofrênico, depressivo e invasivo; Raskolnikov, em seu saudosismo, é claramente depressivo; Smérdiakov, um psicopata contaminado pela loucura da mãe, a anã em tese estuprada por Fíodor; Dmitri Karamazov, o orgulhoso e hedonista destemperado, mas de “coração bom”; Ivan Karamazov, o intelectual niilista e moralmente frígido, isolado em suas conjecturas; o narrador-personagem de Memórias do Subsolo, o deprimido autoflagelador que encontra os piores erros nos demais, ainda que reconheça em si mesmo a completa decadência.

Não sem motivo Dostoiévski é indicado como um dos fundadores da psicologia moderna. Leiam, se possível, Netochka Nezvanova: a descrição magistral da pré-adolescente que se vê conturbada pelas escolhas mais íntimas, inclusive dos conflitos familiares e amorosos que irão por fim dar cabo à formação de sua personalidade distorcida. Infelizmente um romance inacabado, mas que tinha forças para ser um verdadeiro tratada da formação do caráter.

 

Das citações em latim – Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski

A postagem anterior tentou esclarecer uma citação em latim que fora inserida no corpo do romance ou por meio da tradução de seu significado literal, ou na tradução das notas da edição original. Em ambos os casos houve alteração do texto, apesar de Paulo Bezerra ter seguido à risca a significação latina utilizada por Dostoiévski, sendo melhor tradução que todas as demais consultadas.

Parece-me que citações em latim são recorrentes em Os Irmãos Karamazov, senão em tantas outras obras. Não prometo uma análise sobre cada situação, porém é evidente que as alterações do texto original foram tão comuns em outras traduções que incorreram em invencionices por meio da criação literária deveras irresponsável. Outros casos ainda em Os Irmãos Karamazov são indicados com notas de rodapé traduzidos no melhor estilo “assim disse o autor”, como se não fosse possível a utilização do latim na criação do enredo de maneira premeditada e com objetivo específico.

É evidente que o latim está presente nas situações mais caóticas da obra, indicando nos diálogos certa erudição premeditada de Fíodor Pávlovitch nas respostas mais dissimuladas, desastradas e grosseiras. O narrador explica claramente que Pávlovitch possui extensa biblioteca, apesar de nunca ter sido visto lendo livro algum. Assim, o personagem – pai dos três irmãos Karamazov – não raramente é descrito no decorrer do enredo em rompantes de lucidez e imbecilidade de grosserias pessoais; não me admiraria vê-lo em meio a citações latinas fruto de uma elevação cultural velada, escondida por seu caráter destrutivo e blasfemo.

A sugestão que fica é manter o termo latim tal qual o original, inserindo-se posteriormente uma nota sobre a tradução indireta da terminologia.