Jovens impermeáveis

Sidney Silveira, no Contra Impugnantes:

A nova geração de jovens belicosos, impermeáveis a qualquer opinião que não seja a do seu grupo, é efeito colateral do caráter indolente que dominou a nação por tanto tempo — conseqüência da afetividade desbragada na qual o Brasil foi aos poucos sucumbindo. A valentia desses pobres-diabos, maneira camuflada de auto-emulação, é uma forma lastimável de fraqueza ética. Na prática, valentões e covardões são antípodas complementares, pois entre a sinceridade orgulhosa e o comedimento hipócrita existe um liame secreto. Estes dois arquétipos humanos estão irmanados na hiper-sensibilidade psicótica que cresce a olhos vistos entre nós.

Neste ponto, digamos com tristeza: o brasileiro médio nunca se caracterizou pela afeição à racionalidade, mas sim pela emotividade fluida. Por isso sempre oscilou entre a irreligião de matiz agnóstico e o sincretismo religioso, que é uma forma de superstição — e mesmo o catolicismo em Pindorama sempre tangenciou a nossa atávica inclinação à superficialidade e à afetação social de intenções altruístas. Ora, misturar tudo é não tomar partido de nada, uma maneira elegante de ser covarde, e a verdadeira religiosidade implica ir a águas profundas, viver os dilemas humanos com ânimo corajoso, tomar partido, autoconhecer-se, não ter medo de perder amigos por amor à verdade.

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O cientificista que não é cientista

O cientificista que não é cientista, geralmente aquele que sempre estudou “ciências humanas”, não escapa à emoção de defender o que não conhece e de divulgar, como um profeta, as benesses de uma ciência que não entende. No máximo, como curioso contumaz,  um jovem imbuído da missão de revelar ao mundo a finalidade da ciência, percorre a estrada sempre duvidosa do amadorismo caracteristicamente juvenil. Essa personificação inapropriada do conhecimento da ciência tem seu motivo primordial na ansiedade do amador em se colocar enquanto responsável pela Verdade, antes um papel eminentemente filosófico. O trajeto à verdade se confunde com o apelo dos questionamentos mais básicos da filosofia, portanto não sendo novidade alguma aos que já se encontram avisados sobre a artimanha do discurso ativista travestido de tese. O cientificista, tornando-se ele próprio a imagem do sujeito compromissado com a causa, eleva os métodos científicos a um patamar raramente encontrado entre os cientistas de facto. Não só um discurso, essa elevação transforma a ciência na representação substitutiva do sentimento religioso, coadunando a máscara racionalista cientificista com o dogma das tradições de fé. Com uma diferença: o alicerce do cientificista existe no ativismo e na retórica politizada da “descoberta da verdade”, por isso sempre mutável ao gosto do tempo. A distância gradual entre o cientista e o cientificista traz ao ativista a artimanha de opor sua ineficiência técnica – ou seja, realmente científica – ante o inimigo imaginário mais distante, o espantalho inerte da plantação: o religioso. Ao que tudo importa, a saga do cientificista que não é cientista, geralmente aquele que sempre estudou “ciências humanas”, termina na negação de uma divindade qualquer para, depois, reafirmar a necessidade do Estado em regular tanto a ciência quanto a religião, porquanto não haveria como trazer ao homem médio a imposição de um discurso ativista senão por meio da coerção estatal. Não que isso seja um espanto: o ativismo não sobrevive sem o Estado moderno, cauteloso em favor das causas menos nobres, e não seria diferente com a ciência. Ao apontar o dedo da mudança, aponta segurando a mão do Grande Irmão. Não é coincidência que esse mesmo amador peça encarecidamente que as escolas religiosas deixem de ser religiosas, e que a reza da instituição católica seja convertida em cantorias cívicas.

Ateísmo, fé e ocidente: algumas perguntas

Segundo René Girard, em “Aquele por quem o escândalo vem”, o ocidente tem a originalidade de revisar suas características fundamentais e imputar os erros sociais a desvios básicos do ocidentalismo, os quais merecem incessante revisão. Assim, a “crítica do ocidente pelo ocidental” é nada além que uma das características do próprio ocidentalismo, ao ponto de fazê-lo um elemento indissociável do mundo moderno ocidental. Estaríamos portanto diante do dilema da verve espiritualista, pretensamente religiosa, cujo revisionismo tem ganhado força a cada dia mediante a desfiguração dos ritos religiosos e da importância das tradições. Por isso explica Girard que o ateísmo enquanto tal é nada além que um dos frutos do cristianismo (senão o fruto mais podre), em verdade uma “invenção cristã”, cuja definição não subsistiria em outras culturas que não experimentaram dos reinados e governos cristãos. Implicitamente temos que o ateísmo é um fenômeno essencialmente moderno, ávido na filosofia pela desconstrução e, na política, pela laicidade que sobrepõe o ideal ateísta sobre a cultura religiosa majoritária. O ateísmo seria a modernidade que descambou nos acontecimentos do Século XX. Não é de se espantar que o ateísmo ganhe então força entre os ex-religiosos, muitos dos quais sob influência direta do cristianismo que gera e sempre irá gerar profeticamente os anticristos, até o fim dos tempos.

Mas se o ateísmo é cria do cristianismo, por qual motivo vemos a crescente espiritualização irresponsável das tradições religiosas pelos cristãos ainda assim declarados? Certamente que pelo mesmo sentimento de eliminação pormenorizada das tradições, as quais consubstanciam os ritos religiosos. Dentre os evangélicos tal sentimento é uníssono ao ponto de termos a substituição do mandamento pela consciência íntima, subjetiva e relativa, que justificaria todo e qualquer discurso pretensamente cristão, com roupagem meramente libertadora das amarras dos ritos (ou, como dizem, “da religião”). Por isso é que o cristão espiritualista toma facilmente o caminho do agnosticismo, sem antes passar pela negação da sistematização teológica e da observação das doutrinas – a doutrina costuma espantar aquele que titubeia na cruz, por afastar a conscientização, não dando espaço aos cacarejos dos intimistas.

Ainda sob a observação inicial de René Girard, conclui-se que a revisão ocidental de seus próprios costumes tem contaminado o cristianismo, porque tenta revisar a validade da “nação sob a vontade de Deus”. Ou, melhor dizendo, seria o cristianismo o causador do revisionismo e da decadência, como alegam os discípulos de Nietzsche? Certo de que a crise da cristandade é muito mais uma crise do próprio ocidente, como unir o cristão a esse fenômeno da desconstrução de tudo que é ocidental, inclusive a fé cristã? Estaríamos mesmo ante o renascimento da nova cristandade, vigorosa na  evangelização, agora no oriente? Creio que René Girard irá me apresentar a resposta, mais à frente.

Introdução a “Marxismo e Religião”, de Heraldo Barbuy

O estudo da abrangência do marxismo na atualidade é geralmente focado em duas vertentes distintas: primeiro, o pensamento de Karl Marx vinculado às ciências econômicas (ou seja, a tentativa de demonstração da viabilidade econômica das proposições de Marx e Engels); segundo, a ideologia marxista na influência sociológica e política das culturas e estados, mediante a expansão “ad infinitum” do materialismo dialético a todo e qualquer fenômeno social. A terceira, não obstante esclarecida por Heraldo Barbuy, é ignorada como quem esquece a novidade insuportável do “materialismo” que se faz religioso em todas as suas estruturas de pensamento. Em Marxismo e Religião, Barbuy explica de maneira sistêmica e quase didática os motivos pelos quais o marxismo não deve ser observado como teoria comum inserta no mundo, sequer a mera utopia que, se desmentida, seria imediatamente esquecida por sua inviabilidade. Com a apresentação de tópicos explicativos complementares, Religião e Marxismo tem sua profundidade atestada nos fatos, ficando a sensação de que nos deparamos com uma novidade sem precedentes – apesar de já explorada por Hannah Arendt e Leszek Kołakowski.

A relutância do tratamento metafísico e supramaterial do marxismo talvez esteja relacionada à relutância na assunção do intelectual nas afirmações eminentemente religiosas. De fato, se o marxismo corrobora a utopia no retorno indefinido de justificativas, causas, efeitos e culpados, em mesma sorte é que qualquer prostração intelectual utilize das técnicas religiosa e filosófica para a convalidação da tese que, a princípio, não possui qualquer fundamento. Aliás, o fundamento mesmo da tese marxista, reexplorada indefinidamente, adulterada ou reinventada, parte da pressuposição da eternidade material e da imputação sintomática das revoluções aos critérios de classe. Por isso, comum a análise do marxista contemporâneo que abrange da dominação indígena à sociedade de consumo, forma pela qual a tese se adapta a qualquer fenômeno que tenha por azo a diletância da culpa e o conforto da vítima. O “sentimento marxista”, portanto, é termo que utilizo recorrentemente, à luz do que Heraldo Barbuy considera ser uma visão profética dos escritos de Marx. A relutância marxista para com a religião segue por justa causa sua característica religiosa; o antagonismo que se completa porquanto o marxismo se alimenta do sentimento religioso. É, assim, a extensão do existentecialismo kierkegaardiano ao materialismo levado aos últimos patamares.

“Marxismo” e Marx não devem ser confundidos. Na magnífica obra Main Currents of Marxism, especificamente em The Breakdown, Kołakowski nos orienta a observar o marxismo como teoria que se distanciou de seu mestre, ao ponto de toda e qualquer nova teoria marxista ser mera reutilização teórica de uma deturpação já superada. O caráter profético de Marx em seus escritos merece a observação isolada se queremos chegar à trilha teórica do marxismo no Século XX. Não obstante essa contradição entre teoria e autor, é certo que o fenômeno não foi ignorado pelos marxistas. Isso porque uma das justificativas basilares de qualquer deturpação teórica marxista é coadunar a deturpação a um erro teórico, irrelevante ou inexistente na obra de Marx, não obstante popular entre acadêmicos. Barbuy conclui que a contradição teórica marxista é ela mesma um fenômeno direto dos escritos de Marx.

Marxismo e Religião é dividida em três partes complementares, sendo elas “Profecia e Dialética”, “Marxismo e Religião” e “Marxismo e Desespero”. Assimilar certas estratégias discursivas de Marx depende da correlação entre sua obra e a profetismo característico das obras utópicas da época. Já na apresentação temos o escopo máximo de Marxismo e Religião: a obra, dizendo sobre Marx, veio para afugentar ou esclarecer os cristãos tendentes a entabular no marxismo os pressupostos cristãos que, apesar de inconciliáveis, tornaram-se de utilidade máxima a quem sobrevive das alegações humanistas. De maneira que Marxismo e Religião, mais ainda que obra de mero esclarecimento teórico, é também a orientação devida ao cristão que anda no caminho dúbio do secularismo.

A. Crippa, intitulado amigo de Barbuy, diz a que veio a obra:

“Ao apresentar este ensaio do caro amigo H. Barbuy, não poderia deixar de lembrar a sua importância para os cristãos. Infelizmente, muitos são aqueles que procuram no marxismo justificações para a ação temporal do cristianismo, sem perceberem o absurdo inerente  a uma tal tentativa. Primeiro, porque o que procuram no marxismo é o que Marx tirou do cristianismo. Segundo, marxismo falsifica todas as posições a partir do momento em que põe o materialismo como suporte do sistema. Seu humanismo é falso, como falsos seus ideais sociais. A ordem econômica e política que propõe, mesmo contendo afirmações válidas, é globalmente falsa e anti-humana. Examinando-se o marxismo como um todo, como o faz o prof. Barbuy, pode-se perceber não só sua falsidade, mas o logro em que caíram, por ingenuidade ou burrice, muitos cristãos.”

Heraldo Barbuy, “ao leitor”, adverte:

“Estas considerações, que demonstram o caráter religioso do marxismo, foram sugeridas antes de mais nada pela firme atitude anti-religiosa dos marxistas. Julgando-se emancipados de toda religião – que consideram como sobrevivência histórica – os portadores do socialismo “científico” querem uma ordem social que supere todas as alienações, e extinga os últimos resquícios da vida religiosa. Procurarei dizer que o cristão não pode ser marxista sem ser herética; e que, por outro lado, a apresentação do marxismo e do cristianismo como dois pólos opostos, só tem razão de ser quando ambos são considerando como produtos da mesma temática – uma temática essencialmente cristã – e oriundos da mesma fonte histórica. Porque o marxismo se revela, desde o primeiro exame, como heresia típica do cristianismo. É, no seu conjunto, a versão herética mais recente dos dogmas básicos do cristianismo, a partir do dogma cristão da existência da Humanidade e da concepção cristão do Homem. O marxismo é um Humanismo. Mas a concepção marxista do Homem não é outra coisa senão a degenerescência da concepção cristã do Homem”.

A religião secular, a culto ao personagem e ao Estado, segue prioritariamente o transcendência da tese marxista, a contraposição do materialismo e imaterialismo, os critérios de justificativa marxista que acompanham o mesmo discurso de fé. Barbuy tentou unificar sua percepção do fenômeno, e o fez com total competência. Muito se tem de interessante a relação íntima entre o secularismo religioso, marxismo, cientificismo e Iluminismo. Apesar de ser assunto de conhecimento pleno há décadas, é sempre satisfatório analisar o caminho pelo qual percorre aquele que deseja anular a religião, contudo submetido ao “espírito religioso”. Após os comentários sobre A Inquisição, de J. e G. Testas, Marxismo e Religião será melhor explorada.

Ainda a caridade

A renúncia papal nos oferta também a reafirmação evangélica das figuras mais comoventes, aquelas com as quais a igreja cristã evangélica se identifica e que pode ser resumida na pândega dos grandes pastores americanos. Se a ICAR possui em seu rol de hereges figuras como Gesézio Darci e Carlos Christo, cultuados pelas razões mais evidentes e que nos direcionam ao caminho mais fácil – o esoterismo naturalista -, de igual forma a comunidade evangélica sustenta o peso de Rick Warren e de movimentos tais quais o Movimento Evangélico Progressista e Missão Integral, estes que vincularam o socialismo ideológico à mensagem salvífica, obviamente que no ardor pop da caridade e do igualitarismo econômico. Da renúncia observam-se várias frentes evangélicas de condenação a Bento XVI, no que a distorção aos feitos da igreja medieval usufruem de sua popularidade, principalmente nas denominações carismáticas. Disso é possível observar a discrepância da maturidade evangélica das denominações brasileiras em comparação às denominações europeias, as quais minguam ano a ano. Não seria a decadência da comunidade protestante europeia justamente o espírito reformado em evitar a inovação desnecessária e destrutiva, ainda que isso incorra na extinção comedida da denominação? Na atualidade, a denominação que preza pela simplicidade está fadada ao descaso.

É certo que o cristão evangélico, imbuído de um senso crítico perante a atual catástrofe teológica reformada, irá se debruçar no movimento que condena não só a teologia, mas a práxis cristã milenar em uma tentativa de inovação da renovação protestante, descaracterizando-a por completo mediante a inserção de elementos sofismáticos.

Movimentos progressistas, que têm sobre si o discurso genérico da caridade e dos feitos da bondade, clamam pela juventude e a juventude, apta a não se caracterizar enquanto apoiadora da distorção teológica, abraça apaixonadamente a causa que tem por alicerce o mesmo erro da chamada “heresia universalista”, melhor lembrada pelas obras da Teologia da Libertação. Que ao menos tenha ciência o cristão evangélico adepto desses movimentos que sua crítica à heresia de católicos é de um contrassenso inevitável. Se ao menos reconhecessem que trilham o caminho mais comum e ordinário de uma “revolta velada” às instituições, os jovens teriam então apenas uma única preocupação: estudar o que lhes indica ser um caminho aparentemente mais cristão, apesar de possuir integralmente o espírito anticristão de seus teóricos mais influentes.

Por isso a leitura de Nietzsche se difunde nesses meios como uma “renovação intelectual” que teria por intenção principal a reflexão anti-ortodoxa da crise evangélica. Em nome da crise, reconhecendo que os movimentos evangélicos caminham para a pulverização inevitável, utilizam-se de certos personagens históricos da filosofia, política ou teologia substabelecidos no discurso de que o oposto é o verdadeiro, e a aberração é a santidade perdida. Não desprezo Nietzsche, o qual possui reflexões interessantíssimas, principalmente porque as suas ideias não seguiram os critérios lineares da filosofia comum – a uma conclusão, ao invés de tomar por superada a questão suscitada, Nietzsche retornava a ela, desmentindo seu próprio raciocínio. Desconsidero sim o jovem cristão que o toma como o maior dos cristãos (“porquanto o seu anticristianismo reflete a hipocrisia religiosa de sua época”, é o que se diz), no que se atesta a leitura parcial de sua obra ou, melhor dizendo, a inexistência de sua leitura senão por aquilo que se propaga pela boca de liberais. O amor dos cristãos liberais a Nietzsche, adeptos de movimentos de influência marxista, tem seu motivo esclarecido justamente no anticristianismo do autor, ou, na melhor das hipóteses, na “denúncia” nietzscheana da “falsidade do cristão como seguidor de Cristo”.O cristão liberal não sobrevive sem o sentimento anti-institucional.

Obviamente que o “cristão” nietzscheano citado não é ele próprio o cristão revolucionário, mas o cristão antigo, ainda adepto da teologia [reformada ou medieval] e que por isso não se compatibiliza ao status quo do perfil elementar do jovem esperançoso nas coisas que não importam, aquele que visitou comunidades carentes somente após se deparar com a sedução do discurso político mesclado e mascarado de Evangelho. Ou seja, a caracterização mais básica da falsificação secular da caridade cristã, a qual admite por vezes a substituição da Fé pela mera exteriorização das obras.

A conclusão que se tem parte do pressuposto de que essa faceta cristã não perdura sem inobservância do anonimato. É a histeria ela mesma o amparo da teologia dissolvida na política, corroborada pelos discursos sociais e que culmina no pietismo palpável, porém irrelevante, não obstante convincente.

Novamente o Natal

Pululam entre ateus e agnósticos alegações das mais diversas sobre o significado natalino, sua relação pagã ou sua ineficiência em reafirmar a imagem de Jesus Cristo. Como que um gatilho que dispara o desespero das reafirmações, Jesus Cristo, no Natal, novamente é condecorado mera ficção, personagem de lendas, homem como qualquer outro ou, até mesmo, um homem iluminado. Mas essa recorrência na época natalina tem seu motivo evidente: conquanto o Natal é uma festa eminentemente cristã, submetida aos critérios inevitáveis da família cristã, o não cristão se vê então deslocado ante a celebração que lhe traz também bons momentos de prazer. Sim, porque o incrédulo em Cristo quer estar da festa, sem participar da festa. Quer festejar a data sem o Deus que tem a honra; precisa satisfazer a ansiedade festiva mediante a negação de Cristo, ainda que isso signifique negá-lo pelas vias do conhecimento que outrora se tinha na sinceridade religiosa. Nisso, não há via mais sujeita ao constrangimento que o ex-cristão que deseja perverter o sentimento natalino e tergiversar sobre o sentimento familiar inevitavelmente vinculado à rememoração da pessoa de Jesus Cristo. O incômodo é recorrente. A inquietação é sempre retornada às vésperas da festa que não abre espaço a qualquer subjetivismo filantrópico, justamente porque a rememoração não se pauta na futilidade humanista da caridade que se pretende obrigatória, mas na Fé que é sustento da esperança. A união em Cristo, se familiar ou na solidão, é irresistível até mesmo àquele que um dia provou dessa paz indescritível. O esperneio, portanto, talvez nos indique que a loucura do agnosticismo procede da experiência cristã: daí que o agnóstico tenha a mesma base discursiva do irreligioso que um dia abraçou a espiritualidade concreta.

Pois não nego que o agnóstico, subsidiado no sarcasmo amador dos ateus, tenha um dia conhecido a espiritualidade, podendo depois contradizê-la no fraquejo do espiritualismo humanista, com roupagem meramente cristã, tal qual qualquer traquejo espiritual que parasita o cristianismo. Mas não falo somente da religião, pois que a cristandade sustenta a comunhão familiar, a qual é indissolúvel se Jesus Cristo está no centro. Disso é que o agnosticismo sempre nas datas cristãs tende a justificar a comunhão familiar por meio da descaracterização da data, ou na inversão dos motivos pelos quais a comemoração é realizada.

A perda do sentimento cristão é o princípio que se observa entre os indiferentes. Há tempos não via as famílias cristãs tão unidas não só na festividade, mas ao Cristo festejado, o qual não foi esquecido. É esse o clamor secular: que Jesus Cristo seja esquecido, e que a mera comunhão seja respaldo suficiente à ceia natalina. A união familiar em Cristo é ela mesma o alicerce da memória natalina, da Bíblia recitada, da oração sincera e da paz que renega as declarações de paz. A contradição se matura de Natal em Natal: o cristão não pede a paz corrupta, porque a paz de Cristo não necessita ser condecorada. O cristão não implora pela caridade, porque a caridade cristã não aflora somente nos momentos propensos ao conhecimento do público.

O cristão antes da comemoração familiar já na solidão rememora o Evangelho, já antes da festa reverencia o Deus revelado aos homens. Nas festas de Natal, o cristão participa mediante o motivo que antecede a festividade. Significa dizer: a festa pela comunhão familiar, aquela que incomoda o agnóstico, é tão somente consequência da comunhão da alma, solitária, cujos fundamentos são os joelhos dobrados a Cristo. E nisso o desespero do ex-cristão é ainda maior: como pode ele refrear a sinceridade que se demonstra a si mesmo, sem expectadores e cujas palavras de oração são proferidas a um Deus ignorado? Eis então que a paz, esperança e amor vazios são constantemente proclamados, jogadas ao vento e impelidos pela data que não se festeja. Ou ainda, é muito bem festejada, mas ausente o nome de Jesus Cristo nascido em lugar da truculência que pretende reafirmar uma preocupação basicamente cristã.

Não tenho mensagem de Natal alguma, porque desnecessária. Não tenho como expor o sentido histórico e religioso do nascimento de Jesus Cristo, relembrado nesta data, contudo nunca novidade ao cristão sincero. Nestes tempos em que o Evangelho é ora deturpado pelo carisma fajuto das profecias deterministas, ora mascarado com a suavidade e destreza de palestrantes que só enganam a bobos e ingênuos; nos tempos da antirreligiosidade espiritualista, é certo que a mensagem natalina não deve fugir da razão última da celebração, a alegria da família cristã unida sob o Verbo. Por isso, a advertência de Chesterton é sempre atual:

“A verdade é esta: que neste episódio da natureza humana, que é o Nascimento, há um caráter individual e peculiarissímo, psicologicamente substancial que não se pode interpretar como uma mera lenda ou a simples história da vida de um grande homem. Porque não incluía nossas mentes, sistematicamente, para a grandeza, para essa admiração empolada e exagerada dos reis e dos deuses a que, em todas as idades, encontrou propícia a mente humana, senão que é alguma coisa substancial em nós, que nos surpreende de dentro do nosso próprio ser, como se, explorando a nossa habitação espiritual, déramos, de pronto, com um aposento ignorado, até então, do qual saíra uma clara luminosidade. Alguma coisa que, ainda aos mais endurecidos corações, atraiçoa, com uma irresistível atração para o bem. Alguma coisa que não está feita com o que o mundo chamaria “matéria forte”. Alguma coisa que é tudo o que existe em nós de ternura eterna. Alguma coisa que é a palavra quebrada e a razão perdida, que se concretizam e se fazem positivas. Alguma coisa, finalmente, pela qual os reis exóticos vieram de um país distante, porque os pastores deixaram suas correrias na montanha e a noite e a caverna imperaram sós, recebendo algo que era mais humano que a Humanidade mesma.

[…]

Qualquer agnóstico ou ateu cuja infância conheceu um verdadeiro Natal sempre faz dali por diante, goste ou não, uma associação mental entre duas ideias que a maior parte da humanidade deve considerar como distantes uma da outra: a ideia de um bebê e a ideia de uma força desconhecida que sustenta as estrelas.” (Chesterton, The Everlasting Man)

Antidemocracia

Logo após a leitura de O Século do Nada, de Gustavo Corção, peguei-me repensando acerca da excomunhão do [ex-]Padre Beto. O ato nos serve de grande ensino, principalmente se queremos abalizar os limites pelos quais o Estado conseguiria então revisar uma decisão estritamente religiosa, pautada no cânone e, inclusive, elogiada por protestantes. Sim, a comunidade protestante, em observação ao ato de excomunhão de Beto, relegou para si também o desfecho das decisões que tentam refrear a corrupção do pastorado patentemente neopentecostal. Dar-se-ia então o respaldo nos interesses seculares que interferem na sanidade espiritual, porquanto não nos faltam exemplos de como a “nova teologia”, a “revisão espiritual dos intelectuais da fé” tem adestrado instituições inteiras ao silêncio ensurdecedor. De sorte que Beto, o excomungado, tergiversa na sua atribuição espiritual e insiste, mediante declarações em palestras e encontros, que fora injustiçado por uma “decisão antidemocrática”. Ora, a democracia na hierarquia espiritual, ainda que se entenda que o sacerdócio é individual e intransferível, a democracia que permitiria ao néscio a utilizar seu cargo para a difusão de suas loucuras, essa democracia merece ser considerada como um discurso modernista, contrário à vivência cristã e inevitavelmente deletéria à espiritualidade. A democracia suscitada, então sempre utilizada como uma acusação da perversidade do cristianismo, seria aquela que daria azo ao louco em dizer coisas plenamente anticristãs, dentro do âmbito cristão, cuja autoridade cativa os cristãos. O que seria então o ato antidemocrático, argumentado por Beto? A mera reprovação devidamente fundamentada, respaldada no bom-senso e na intransigência do apóstolo Paulo aos falsos profetas sempre presentes, e que sempre brotam dos sentimentos mais pueris e inocentes. Corção denunciou o falso pacifismo, aquele que em nome da paz realizou acordos com o nazismo e que ignorou a militarização antecedente à guerra. Por que haveria os cristãos de ignorarem o purismo insensato dos comunistas que nos púlpitos escarram sobre a autoridade de Cristo, utilizando-o como um ativista político de “mudança em direção ao Reino de Deus na Terra”? Nesse ponto, o cristão sempre deve desconfiar dos discursos sociais, maquiados na fertilidade imaginativa de que cabe ao cristão, além de propagar as Boas Novas, também propagar a redistribuição de renda e a consciência política. O cristão submetido a esse prisma ativista merece acompanhamento permanente e constante para que se registre a possibilidade quase iminente do afloramento das loucuras socialistas. Iminente conquanto o mero interesse do cristão ao discurso social, quando mistura o sangue de Cristo com a groselha assistencialista, já nos indica sua fraqueza de espírito e o andar dúbio de sua visão da mensagem do Evangelho. Utilizam a carta de Tiago e revelam a opressão do dominador, e esquecem que o César de nossos tempos é o Estado que tenta, a todo custo e modo, tributar, impedir e dificultar qualquer manifestação religiosa. Não só querem dar a César o que é de César, mas fazer do cesarismo o provedor máximo da caridade outrora uma deliberação da consciência individual.  Sobre a faceta democrática desses “cristãos sociais” é que recairá também a responsabilidade desse teatro que cresce exponencialmente por todo o Ocidente, porque é deles que emana a petição por mais Estado, ainda que isso signifique o prejuízo à sua fé. A apostasia (essa palavra deveria ser mais utilizada) de Beto veio dos fatos, mas tem seu valor simbólico: a inevitabilidade da confusão espiritual quando o cristão tenta sobrepujar ao Evangelho a sordidez da popularidade assistencial.