Brasil e aquele outro

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Eu creio que podemos ter uma bela ideia de qual foi a contribuição bilionária de todos os erros. O Brasil tem coisa de 190 milhões de pessoas, não é mesmo? Dixit Censo 2010. Não consegui encontrar o número de pessoas com nível superior, mas diz o Guia do Estudante que em 2010 tínhamos 5,8 milhões de pessoas matriculadas na universidade. As universidades particulares proliferam, aumentam seus corpos discentes. E ainda teríamos de ver quantas pessoas completaram o segundo grau, ou ensino médio, ou o que for o nome atual daquilo que nos EUA há bastante tempo se chama high school. Diante dessas brevíssimas considerações, qual o resultado do Kulturkampf de décadas do nosso Ministério? Que o brasileiro nunca jamais se habituou a procurar livros como fontes de entretenimento ou de informação. Se você estiver disposto a ficar deprimido, convido-o a conhecer o mercado editorial brasileiro visitando a lista semanal de mais vendidos da Publishnews, que nem traz números de livros para concursos, religiosos cristãos, e espíritas. É verdade que, na lista mais recente, o primeiríssimo lugar é um livro religioso, do Pe. Marcelo Rossi, mas na verdade é um livro de uma celebridade, cuja fama vai muito além do mercado editorial, e que o volume é vendido fora de livrarias. Veja a diferença para o segundo lugar. Agora vou contar uma coisa: eu já vi uma semana em que o livro mais vendido do Brasil ficou em 853 exemplares. Isso, não faltou nenhum zero não. 853. Medite: 190 milhões de pessoas, 5,8 milhões de universitários, 853 livros.

Agora eu vou recomendar vivamente que você feche a janela e chame alguém para ficar por perto, com um leque, com um copo d’água. Os Estados Unidos têm 309 milhões de pessoas, pouco mais do que um Brasil e meio. Os universitários matriculados eram 14,3 milhões segundo o censo americano de 2009, ou pouco menos do que 2,5 vezes o número de universitários brasileiros. Vamos ver os números do mercado editorial? Tudo bem, eles vão assustar também porque vêm em dados anuais, mas veja só o quanto venderam em 2010 os livros de capa dura, os livros de capa mole, os e-books e os livros infantis. Eu nem vou colocar os dados aqui, porque comentá-los demandaria muito tempo.

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O indivíduo que não lê

Insisto: na pós-modernidade, em que um livro pode ser encontrado a preço irrisório – sim, os contos helênicos, ingleses, alemães, russos, antes adquiridos somente por montantes consideráveis de pecúnia -, chego à conclusão sumária de que o indivíduo que não lê é o retorno à caracterização do homem-animal, de desenvolvimento rudimentar das funções intelectuais e racionais empíricas, rude às artes e à contemplação, incapaz na compreensão do minimalismo filosófico e, não estranho às categorias biológicas, homo ergaster, interessantemente encontráveis facilmente como câncer alastrado; não aqueles que não discernem as letras, leia-se, porém os que se vangloriam na imbecilidade em negar a riqueza dos romances, afirmando-se seres ruminantes e matula de crescimento exponencial.

Responsabilidade inerente à devida interpretação

Ora, pede-se às figuras polêmicas o status de preponderantes relativistas, assim definidos como a mente do Homem Caridoso. Jornalistas, polemistas e colunistas não se dobram a essa façanha argumentativa pelo fato inerente à escrita que confronta os pares ideológicos: ela é generalizadora, amplificativa, talvez, isolacionista e irresponsável.

Eis a mágica das letras: ao generalizar coloca ao leitor a responsabilidade inerente à devida interpretação, que toma forma de acordo com suas fraquezas e convicções, virtudes e certezas premeditadas. Escrever um texto generalizador é obstruir aquela previsibilidade aclamada para que se substitua, portanto, a personalidade do leitor em sua devida colocação à realidade proposta, podendo este tomar formas das mais interessantes, como o bondoso que se reconhece no espelho ou o convicto tirano que esbraveja quem foi “o desgraçado que escreveu este texto”.

A irresponsabilidade das letras generalizadoras é a responsabilidade do leitor incauto. É um teatro gracioso vislumbrá-lo em seu devido lugar: o espetáculo da assumição e o espetáculo da personalidade mascarada.

Sim, sou irresponsável, generalizador e isolacionista. Desse modo leio meus textos e me incluo na perspectiva do leitor interpretante: como poderia relatar fatos deveras desagradáveis tanto a mim quanto aos que procuram neste âmbito palavras de conforto aos desamparados?

Procuram erradamente, porquanto generalizo em minha irresponsabilidade para que você, leitor e eu, se defina em níveis aceitáveis.

É a mágica da leitura.