Da dança sincera

Quer me fazer crer o dançarino de púlpito de que seus movimentos animalescos, rudes, destituídos de qualquer estudo, irresponsáveis e baseados na espontaneidade se equiparam ao Ballet Bolshoi. Talvez pela presença de adereços coloridos carnavalescos “de leveza espiritual” ou pela simples imaginação de que presta um serviço efetivo à arte, é esse dançarino fruto de movimentos acumulados de transferência ao Espírito Santo de toda e qualquer manifestação deliberada de coisificação artística, ou de sua modernização simples e irresistível. Quão irresistível é a irresponsabilidade! Feito o ritual de santificação, crê-se ele, o artista de púlpito, uma extensão da beleza artística que sequer foi estudada: “foi concedida por livre dom”, cabendo ao dançarino em seus movimentos desastrados imputar o conceito artístico “segundo a vontade de Deus”. A arte moderna é sem forma por decorrer da ausência de critérios técnicos específicos oriundos do estudo dedicado.

A arte moderna é como o estudante inapto que deseja a posse do diploma desconhecendo por completo o ofício a ser praticado.

Estou certo de que esse tipo de dança é consequência da decadência filosófica e teológica do ensino denominacional, ao ponto de conceder espaço a meia dúzia em detrimento de uma comunidade inteira. Não é apenas coincidência de que essas danças são preenchidas em sua maioria por jovens (ou exclusivamente por eles), cujos olhos cheios de lágrima atestam o carimbo da sinceridade, como se a arte concebida tivesse na sinceridade a escusa da rudeza e animalização dos movimentos corporais. A emoção desenterra o inapto, trazendo-lhe novo fôlego de sobrevivência. Servidos do espaço e alheios à técnica, só resta de fato a justificativa espiritual.

O ballet mais técnico e mais belo se externa nos palcos, por ser expressão máxima da arte que não pode se conter no anonimato. É como o artista exímio que se nega a expor sua obra, retendo para si suas virtudes. Mas para tanto, necessita-se da arte verdadeira.

A apreciação artística deve ser feita por terceiros, mas sobre a dança carismática recai o discurso da autoridade. Por mais decadente que seja, essa dança tem por reflexo a mesma sinceridade que afasta (ainda que lentamente) o aprimoramento natural a qualquer trabalho dedicado. A resposta a anos de dança sem qualquer elevação técnica e sem qualquer expressividade real fora do âmbito carismático se resume à aceitação resignada da dança animalesca pelos pares da comunidade cristã, os quais suportam tal “momento” como quem precisa fazer concessões no fito de evitar outros problemas oriundos da subversividade da juventude.

Se tivesse o ímpeto de declarar sentenças sociológicas, diria que esse tipo de dança é uma forma eficaz de contenção de outros desastres artísticos mais danosos emanados das vozes juvenis. Deixem-se então os olhos levantados e a mão trêmula apontada ao alto, visivelmente adestrados pela emoção, sacudidos pelo palco, contudo que lhes seja claro: não é arte, tampouco doutrina. É outra coisa.

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Conservadorismo e prudência

A prudência do conservador se ampara na familiaridade e lealdade às instituições que permeiam seu ambiente cultural, espiritual e político, sendo notório ao mesmo conservador que qualquer tentativa de desfiguração institucional merece repulsa imediata. Qualquer trejeito subjetivo de ruptura é ao conservador um aparato revisionista amador, fundamentado na dúvida meramente casual da instituição ora questionada com a finalidade básica de difundir a discórdia gratuita. Essa é a prudência que antecipa, ao conservador, a desconfiança para com os discursos da juventude, alicerçados nas reivindicações mais baixas e quase sempre apontadas para a exigência histérica. O conservador se baseia na familiaridade institucional para então balançar o pêndulo medidor de hesitação da mudança drástica, eis que sempre destrutiva.

Nesse sentido, o padre que diz contra a Igreja e a Tradição, desdenhando dos santos e falando contra o legado da cristandade, não merece confiança. Nisso é que esse mesmo padre, dizendo coisas caras aos protestantes (ao ponto de não se sentir a diferença entre as pregações), não deve ser visto pelo protestante conservador um aliado em potencial, mas sim um membro cristão que se desvincula lentamente de sua base teológica para então adentrar no campo do relativismo espiritual. Mais nobre ao padre a desvinculação institucional completa, mas o que se vê é o oposto: o padre que ensina doutrinas estranhas e deturpadas, pinceladas de teologia protestante, recusando ponto a ponto seu amparo teológico e mantendo-se protegido pela mesma instituição que ataca.

Protestantes conservadores comumente se regozijam com a inclinação exponencial de padres que abraçam a causa reformista. Incorrem no erro de não perceberem que a trajetória da negação da fé procede de uma reformulação discursiva de aversão de qualquer doutrina, seja ela qual for.

De maneira similar é o protestante reformado que abraça lentamente o discurso da teologia liberal, negando em similaridade espantosa o mesmo fundamento teológico que amparava sua fé cristã originária. Como o padre que anda no campo dos discursos reformados apenas para “refazer o que entende errado”, o protestante abraça o liberalismo na tentativa de refazer a institucionalização denominacional que espera denunciar. Sempre afeito ao sentimentalismo, o cristão liberal denuncia os excessos das comunidades reformadas na medida em que estipula um laço extremamente subjetivo de convicções que jura serem novidades. Conquanto um cristão que se “libertou de antigas amarradas”, busca de imediato mostrar que sua decisão, por si só, foi suficiente ao amadurecimento espiritual.

São dois personagens de uma mesma moeda, ambos desembocando na fragilização doutrinária irreversível. Quando em fim se deparam com a desfiguração completa da fé, denunciam não a instituição, mas o cristão.

O excomungado quer continuar padre

Eis que de repente, não mais que de repente, o [ex-Padre] Beto, com seu jeito de grande pompa na palestra de besteiras sem fim, em suas frases das mais interessantes e na “doçura” juvenil característica dos padres afeminados então defensores de tudo o que a Tradição repugna, eis que esse personagem caricato da modernização da Igreja foi finalmente excomungado, com direito à registrada e já tão debatida decisão em cautelar que aqui pode ser lida. Trata-se finalmente de uma vitória que abrange também a sanidade de qualquer movimento cristão que pretenda, através do retorno a velhas heresias sempre repetidas, revisitar também o descalabro da ruína lenta, mas constante, da fé em Cristo. Afastá-lo é medida sanitária. De qualquer forma, o artifício do herege perdura sobre a autoridade como um vírus não manifesto, porém ali presente. Já em agosto de 2013, afirmei: “O trato dessa instigação herética costuma acompanhar o sujeito que munido da autoridade também fornece a idealização do “homem sensível aos problemas atuais”. Beto, ainda que considerado padre excomungado, deve ser considerado ex-padre naquilo que lhe apraz em seu orgulho herético, não obstante contaminado pelas ideologias. A censura por ele sofrida merece ser vista pelo ângulo da defesa doutrinária e não somente pela defesa da manutenção da autoridade que acompanha o cargo. O primeiro dos pedidos de todo propagador de doutrinas estranhas é manter antecedente ao nome o cargo que lhe sustentava a palavra de influência. A excomunhão também tem seu caráter pedagógico“.

Dito e feito. Beto, o ex-Padre, tenta hoje trazer à sua ansiedade pela novidade destrutiva o título de “padre” que deveria ele ter vergonha de pronunciar. Se era mesmo um cativo da Igreja e submisso às ordens, não mais o é. Que se anote essa malandragem nos autos que apuram quaisquer outras heresias praticadas pelo ex-padre. Que, aliás, a continuidade do título em suas palestras seja fato repudiado por seus discípulos.

Creio firmemente que ele terá sob a saia um grande número de fieis, ainda que já destituído de qualquer autoridade e ainda que seu caso seja exemplo para qualquer cristão. Esse tipo mais comum de doutrinador cativa pela leveza de seus ensinamentos; tão leves que basta o sopro da autoridade instituída para que lhe seja retirado o benefício da dúvida. Outra dia era ainda um injustiçado pela opressão do conservadorismo caracteristicamente cristão; atualmente, não passa de um palestrante que quer se manter na sombra do resquício do cristianismo.

Se não mais pronunciar o nome de Jesus Cristo, ao menos irá honrar a postura de ex-cristão.

Integralistas

Movimentos de evangelização como a Missão Integral possuem o requinte de santidade por meio da pretensão caridosa, sempre presente, de que o Evangelho não se constrói alheio às ações sociais. De fato, a caridade é tão premente nos evangelhos que houve a construção da chamada “caridade cristã”, aquela que permeou grande parte da história da Igreja. Mas a expressão do sentimento de vingança e das exigências revisionistas permitem uma real identificação do viés político da Missão Integral. Em suma, antiamericanismo, proclamação da esquerda política, condenação à teologia, desistematização da doutrina e orientação social e de classe nos atos de pregação. Não obstante o observável, a ganância pelo mérito da caridade é o que mais me espanta, e é daí que surge o problema essencial dos movimentos de estilo. O anonimato, repito, foi abandonado e em seu lugar reposto o mérito não assumido do ativismo social. Não digo que a Missão Integral esteja mergulhada no discurso socialista. O que se observa é a pretensa ignorância do aspecto político, proposital ou não, mediante a reafirmação da pureza da caridade. Movimentos como esse se debruçam na herança perversa da Teologia da Libertação, apesar de negarem incisivamente. Imputam sobre si as atividades sociais tidas por suficientes e fazem do Evangelho o segundo plano que acompanha o chamado da caridade, este sim o sustento de sua popularidade.

Se a caridade é cristã, e se a cristandade se fortaleceu nas proclamações dos atos gratuitos em benefício do próximo, nunca o fez em detrimento do Evangelho, quando a antecipação das virtudes caritativas estava intimamente ligada à vivência pagã. A caridade como elemento central do Evangelho é sentimento moderno, portanto oriundo do afastamento do homem da Verdade revelada. Tratada enquanto elemento máximo do amor cristão, a caridade foi transformada no alicerce em que se calcula os méritos da atividade missionária. Em tempo, não haverá missão sem caridade e o Evangelho estará encarnado no alimento distribuído.

Não obstante, os missionários integralistas tentam refutar, por exemplo, os centros de recuperação de drogados, geralmente instituídos pelas igrejas tradicionais e outras comandadas pela Santa Sé. Fazem-no por entenderem que a suficiência da recuperação não é medida plausível da caridade que acompanha o discurso político, antiamericano. Inclusive, condenando a medida enquanto de “influência americana”. Meu palpite é de que tal dissabor ressurgiu da reanálise do que seria a ação social “contaminada pela evangelização do norte”, tendo em vista a necessidade de instituição de uma “teologia latina”. Também não nego que o motivo, apesar de perverso, está em total consonância com a idealização média do cristão latino-americano, o qual observa o subdesenvolvimento ou como consequência da exploração alheia, ou como situação que promove as virtudes da pobreza e mendicância.

Ainda a caridade

A renúncia papal nos oferta também a reafirmação evangélica das figuras mais comoventes, aquelas com as quais a igreja cristã evangélica se identifica e que pode ser resumida na pândega dos grandes pastores americanos. Se a ICAR possui em seu rol de hereges figuras como Gesézio Darci e Carlos Christo, cultuados pelas razões mais evidentes e que nos direcionam ao caminho mais fácil – o esoterismo naturalista -, de igual forma a comunidade evangélica sustenta o peso de Rick Warren e de movimentos tais quais o Movimento Evangélico Progressista e Missão Integral, estes que vincularam o socialismo ideológico à mensagem salvífica, obviamente que no ardor pop da caridade e do igualitarismo econômico. Da renúncia observam-se várias frentes evangélicas de condenação a Bento XVI, no que a distorção aos feitos da igreja medieval usufruem de sua popularidade, principalmente nas denominações carismáticas. Disso é possível observar a discrepância da maturidade evangélica das denominações brasileiras em comparação às denominações europeias, as quais minguam ano a ano. Não seria a decadência da comunidade protestante europeia justamente o espírito reformado em evitar a inovação desnecessária e destrutiva, ainda que isso incorra na extinção comedida da denominação? Na atualidade, a denominação que preza pela simplicidade está fadada ao descaso.

É certo que o cristão evangélico, imbuído de um senso crítico perante a atual catástrofe teológica reformada, irá se debruçar no movimento que condena não só a teologia, mas a práxis cristã milenar em uma tentativa de inovação da renovação protestante, descaracterizando-a por completo mediante a inserção de elementos sofismáticos.

Movimentos progressistas, que têm sobre si o discurso genérico da caridade e dos feitos da bondade, clamam pela juventude e a juventude, apta a não se caracterizar enquanto apoiadora da distorção teológica, abraça apaixonadamente a causa que tem por alicerce o mesmo erro da chamada “heresia universalista”, melhor lembrada pelas obras da Teologia da Libertação. Que ao menos tenha ciência o cristão evangélico adepto desses movimentos que sua crítica à heresia de católicos é de um contrassenso inevitável. Se ao menos reconhecessem que trilham o caminho mais comum e ordinário de uma “revolta velada” às instituições, os jovens teriam então apenas uma única preocupação: estudar o que lhes indica ser um caminho aparentemente mais cristão, apesar de possuir integralmente o espírito anticristão de seus teóricos mais influentes.

Por isso a leitura de Nietzsche se difunde nesses meios como uma “renovação intelectual” que teria por intenção principal a reflexão anti-ortodoxa da crise evangélica. Em nome da crise, reconhecendo que os movimentos evangélicos caminham para a pulverização inevitável, utilizam-se de certos personagens históricos da filosofia, política ou teologia substabelecidos no discurso de que o oposto é o verdadeiro, e a aberração é a santidade perdida. Não desprezo Nietzsche, o qual possui reflexões interessantíssimas, principalmente porque as suas ideias não seguiram os critérios lineares da filosofia comum – a uma conclusão, ao invés de tomar por superada a questão suscitada, Nietzsche retornava a ela, desmentindo seu próprio raciocínio. Desconsidero sim o jovem cristão que o toma como o maior dos cristãos (“porquanto o seu anticristianismo reflete a hipocrisia religiosa de sua época”, é o que se diz), no que se atesta a leitura parcial de sua obra ou, melhor dizendo, a inexistência de sua leitura senão por aquilo que se propaga pela boca de liberais. O amor dos cristãos liberais a Nietzsche, adeptos de movimentos de influência marxista, tem seu motivo esclarecido justamente no anticristianismo do autor, ou, na melhor das hipóteses, na “denúncia” nietzscheana da “falsidade do cristão como seguidor de Cristo”.O cristão liberal não sobrevive sem o sentimento anti-institucional.

Obviamente que o “cristão” nietzscheano citado não é ele próprio o cristão revolucionário, mas o cristão antigo, ainda adepto da teologia [reformada ou medieval] e que por isso não se compatibiliza ao status quo do perfil elementar do jovem esperançoso nas coisas que não importam, aquele que visitou comunidades carentes somente após se deparar com a sedução do discurso político mesclado e mascarado de Evangelho. Ou seja, a caracterização mais básica da falsificação secular da caridade cristã, a qual admite por vezes a substituição da Fé pela mera exteriorização das obras.

A conclusão que se tem parte do pressuposto de que essa faceta cristã não perdura sem inobservância do anonimato. É a histeria ela mesma o amparo da teologia dissolvida na política, corroborada pelos discursos sociais e que culmina no pietismo palpável, porém irrelevante, não obstante convincente.

“Inquisição”, também segundo Henry Kamen

A quem exigiu por esses dias, peço encarecidas desculpas pela demora na publicação dos estudos sobre “A Inquisição”, de G. Testas e J. Testas, contudo por um motivo nobre: paralelamente ao estudo dos Testas, iniciei “A Inquisição Espanhola”, de Henry Kamen, livro de peso inevitável a quem procura um melhor esclarecimento histórico sobre o tema. Kamen traz uma análise de fato historicista, sem adentrar na validade doutrinária e teológica das proposições inquisitoriais. É, de fato, um livro de esclarecimento e impossível de ser desvinculado da atual visualização incompleta da Inquisição não somente espanhola, mas sul-europeu. A união dos aspectos histórico e doutrinário me parece fundamental. Kamen, por exemplo, explora também a questão judaica e o fenômeno social dos “conversos”, inclusive sobre como a Igreja tratou do assunto na medida em que a Inquisição, autônoma, envidou esforços para se manter financeiramente quando o apoio papal já não mais bastava. É de se entender: a inquisição na Espanha divergia da inquisição portuguesa, esta por ventura divergente da inquisição francesa, ainda mais branda que a inquisição italiana. Qualquer alegação da unicidade inequívoca das “inquisições” merece o desprezo automático do estudioso. O amadorismo no assunto, seja pela dissimulação, seja pela ignorância, parte justamente da unificação temerária entre fenômenos cristãos distintos. É a advertência de Kamen, a qual sigo com cuidado.

Uma breve história da Reforma

Geoffrey Blainey em “Uma breve história do mundo”:

A Igreja Católica se reexaminou criticamente após Lutero e Calvino terem erguido suas bíblias em sinal de protesto; proibiu os principais abusos, alguns dos quais não foram tão freqüentes quanto Lutero havia argumentado. A venda de indulgências por cobradores profissionais de receitas foi reprimida pelo Concilio de Trento em 1562. Os bispos não podiam mais ficar ausentes de suas dioceses por longos períodos, a música e a liturgia, quase tão diversas quanto as do protestantismo, foram mantidas sob controle. A nova arquitetura barroca, que floresceu principalmente na Espanha e nas Antilhas Espanholas, tornou-se uma nova afirmação de fé dentro de um catolicismo rejuvenescido e disciplinado. Seminários foram abertos para treinar o jovem clero. Novas ordens religiosas trouxeram propósito à Igreja. Os jesuítas e os capuchinhos juntaram-se às antigas ordens católicas, enviando missionários às novas terras.

Após 40 anos, a maré virou contra os protestantes. Na Europa central, a maioria dos governantes, acreditando que todas as pessoas deveriam pertencer a uma religião da escolha deles, começou a perseguir os protestantes: praticar uma fé dissidente era praticar traição. As base dos protestantes estavam agora confinadas ao noroeste da Europa: à Escandinávia, onde sua vitória era total, à Inglaterra e à Escócia, à maioria dos principados do norte da Alemanha, à Holanda e a certas cidades e cantões da Suíça. De todas essas terras, a fé católica foi banida. Da mesma forma em terras católicas, e estas contavam com a maioria da população da Europa, o culto de qualquer outra fé foi banido.

As primeiras décadas da Reforma se assemelharam aos primeiros anos do Islã: os reformadores dependiam ao mesmo tempo da espada e da palavra. A mensagem de Lutero não poderia ter conquistado um grande território em ambas as margens do Báltico sem o apoio de príncipes e de regimentos. Calvino teve sucesso somente porque foi apoiado pelos governantes da república suíça de Genebra. Na França, sua doutrina, fracassando em conquistar o monarca, começou a perder suas bases fortes no sul e no oeste do território. Em Paris, no dia de São Bartolomeu, em 1572, aproximadamente 20 mil protestantes foram massacrados. Enquanto os protestantes tinham a tendência de centralizar o poder na maioria das terras onde tinham sido vitoriosos ou onde os governantes deixaram que fossem vitoriosos, eles também iniciaram uma corrente democrática. O calvinismo criou um sistema de governar a igreja que garantia influência aos membros superiores da congregação. Como o luteranismo, pregava que a Bíblia, e não a Igreja, era o tribunal de apelação de última instância, e todos os cristãos devotos e inteligentes podiam apelar para a Bíblia. No calvinismo, as pessoas comuns tinham mais influência do que em qualquer congregação católica.

No final, os protestantes não fizeram nenhum avanço ao sul dos Alpes ou ao sul dos Pireneus. Seu triunfo estava nas distantes margens do Atlântico. Enquanto a Espanha se recusava a deixar que judeus, muçulmanos e protestantes emigrassem para suas novas colônias, Inglaterra e Holanda permitiam que os dissidentes protestantes partissem para as novas colônias americanas. Em Boston e outras cidades da região da Nova Inglaterra, a Reforma Calvinista alastrava-se em chamas ardentes. O surgimento dos Estados Unidos, sua cultura característica, seu fomento inicial de debates intensos e sua democracia recente provavelmente devem tanto aos reformadores protestantes quanto a qualquer outro fator.

Inicialmente, a Reforma parecia ser um golpe para as mulheres. Provavelmente, as únicas instituições do mundo ocidental nas quais as mulheres tinham poder de próprio direito eram o convento e a monarquia. As mulheres administravam os conventos femininos e, quando o convento tinha propriedades valiosas na cidade, a mulher que estivesse encarregada desse bem tinha um poder ainda maior; assim, em Zurique, a abadessa do convento beneditino ajudava a administrar a cidade. O fechamento dos poderosos conventos na maioria dos Estados que eram agora protestantes indiretamente reduziu o poder das mulheres. Havia só uma compensação: a maioria das igrejas protestantes acreditava que o máximo de pessoas possíveis, homens ou mulheres, deveriam ler a Bíblia, e isso levou à abertura de mais escolas que ensinassem a ler e a escrever.

A taxa de alfabetização das mulheres começou a crescer com firmeza. A Prússia, uma base luterana, tornou a educação compulsória para os meninos e meninas em 1717. Na cidade holandesa de Amsterdã, em 1780, um extraordinário número de 64% das noivas assinaram a certidão quando se casaram, enquanto as outras desajeitadamente marcavam com uma cruz o lugar onde sua assinatura de assentimento era exigida. Na Inglaterra, cerca de 1% das mulheres sabia ler no ano 1500, mas esse número havia aumentado para 40% em 1750. Tardiamente, os países católicos acabaram seguindo essa tendência revolucionária. A Igreja russa, ao contrário, voltou suas costas para a alfabetização. Nenhuma igreja cristã em nenhuma outra nação tinha tantos devotos quanto a Igreja Ortodoxa na Rússia, mas seus sacerdotes tinham pouca educação e muitos eram mais habilidosos em recitar de memória, ou de esquecimento, do que em ler as escrituras. A autoridade do sacerdote foi estabelecida porque poucos em sua congregação podiam ler a Bíblia. A Bíblia completa, com Antigo e Novo Testamento, só se tornou acessível livremente na atual Rússia após 1876.