A revisão da consciência

A revisão da consciência dos erros do passado, erros vergonhosos ou até mesmo dos erros que decorreram da ingenuidade, não servem para a absolvição filosófica. Recentemente o caso de Gramsci veio à tona: o italiano, conhecido arquiteto do comunismo na tomada gradual dos meios universitários e intelectuais, teria se reconciliado com a fé cristã. Antes da morte, teria se arrependido. A utilização desse fenômeno como uma estratégia de anulação de sua obra é ineficaz, porquanto sem vinculação alguma com a pertinência ativista do gramscismo que vem assolando a América Latina. De igual sorte a pertinência do homem que na vida fora santo, mas que antes da morte tornara-se um cético. Se a alegação decorre do testemunho, sempre haverá fatos consumados que desabonem o mais pueril dos personagens históricos. A consciência dos erros permite sua distinção da objetividade teórica e da subjetividade na análise dos acontecimentos. Uma vez conhecida, e podendo ser utilizada por quem quer que seja, a revisão da objetividade teórica somente se dá no campo pela qual lhe foi dado conhecimento. Teoria se revisa na teoria, seja na explicação posterior, seja na divulgação contraditória em detrimento do erro anteriormente publicado (o que se observa em Nietzsche), caso pelo qual se delega à hermenêutica o estabelecimento dos critérios necessários da dissecação filosófica. O erro, outrora cometido no âmbito pessoal, ou o posterior acerto, agora conhecido pelo público, talvez redundaria na validade da consciência pela honestidade de espírito. Bem como honesto na deflagração do comunismo, honesto também no reconhecimento do erro e na mudança de caráter, vida e discurso. É o caso do ex-esquerdista Olavo de Carvalho, e talvez teria sido a sentença transformadora de Gramsci, se lhe fosse dado o tempo suficiente para tal.

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Cálculo

Ricardo Gondim está para Gramsci, assim como Leonardo Boff está para Deepak Chopra. A diferença é que Boff lança livros e Gondim, auto-ajuda. E também não deixou o cargo que lhe proporciona o pão, apesar de sentir-se constantemente oprimido pelas rédeas do Império. Afinal, ninguém é de ferro.

Explicam-me os piedosos o desapego material

Amantes da rosa vermelha enveredam aos caminhos da imbecilidade a passos largos, lacrimejando revolucionários à retórica das renúncias ao materialismo, como se o material obtivesse a frivolidade espiritual latente em seus conceitos. Explicam-me os imateriais, piedosamente desprovidos da gana ao objeto, que o novo aniquila o velho em escalas inconcebíveis, porquanto o velho deve ser devidamente reconhecido pelos trajetos do consumo.

O velho torna-se velho a todo instante, reclamam.

Ora, aos tempos de Marx e Gramsci a inovação demonstrou seu caráter devastador, impedindo a superação ideológica revolucionária da personalidade inconsistente e insatisfatória do homem; a inovação capitalista adentra as arestas da obviedade, vinculando a conseqüente insatisfação ao consumo e sua relação amistosa com a primazia da utilidade.

O velho, o retrógrado, o ultrapassado é ovacionado pelos marxistas como teoria predisposta a tornar belo o inútil, posta a incapacidade da massificação intelectual à promoção do mérito em sua pura concepção: a eqüidade desvinculada da meritocracia reverencia a esterilidade científica, seja dito, a inovação tão somente capitalista.

O merecimento, concluo com o Manifesto, antes de factualmente científico é o pilar da estruturação econômica que avançada não subsiste por meio do igualitarismo.

O mérito fulmina os ímpetos marxistas.

É necessário, pois, perolar o imprestável para que o materialismo seja mascarado em termos que alicerçados dissimulem os adeptos do retrocesso. Nega-se o materialismo, porque ensejam-no pelas vias ociosas. A novidade sucumbe revoluções.

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