O preguiçoso

“Lembremos que o ateísmo e a negação da pessoa humana, de sua liberdade e de seus direitos encontram-se no centro da concepção marxista. Esta contém de fato erros que ameaçam diretamente as verdades de fé sobre o destino eterno das pessoas.” (Libertatis Nuntius – Cardeal Joseph Ratzinger e Arc. Alberto Bovone).

O malefício dos cristãos liberais é secundário à extinção completa da fé, ainda que não extinto o fogo do Espírito; a centelha que incomoda aquele que um dia se deparou com o evangelho. São parte de um cenário irreversível da cristandade, quando a mente se contamina pelo revolucionismo. Mas o incômodo do Espírito não se desfaz e não cessa; perdura sobre a existência do ateu combativo que outrora se debruçou na misericórdia com justiça. Da misericórdia não se esquece. O ateísmo faz parte do liberalismo levado às últimas consequências niilistas, não sobrando outra saída à coerência do liberal senão afastar-se por completo da religião. Não os culpo pela necessidade de isolamento temporário para a reflexão da vida cristã (isolamento que ocorre geralmente na juventude), mesmo que muitas vezes traga consigo o desejo de questionar a fé em favor de um espiritualismo raso. É do cristianismo e dos grandes mártires um período de esquecimento, alheio a qualquer interferência externa e de distração. Podem muitos considerar que tudo não passou de uma revolta temporária, mas em verdade corroborou a maturidade espiritual. Diferente da mera revolta liberal, o isolamento temporário do cristão – por vez alheio ao contato de qualquer comunidade cristã – permite a atenção de um “interlocutor em terceira pessoa”, cuja observação dos demais serve como pêndulo entre a boa e a má conduta. É atitude de resguardo em que o isolado se distancia da balbúrdia. Difere, portanto, do esfriamento da fé que descamba no desprezo de toda forma religiosa.

O germe agnóstico emana da fraqueza da fé, mas nem por isso deixa de ter sua origem nas expressões religiosas mais evidentes. A estranheza do número elevado de agnósticos que outrora afirmavam determinada fé é apenas aparente, pois sinaliza justamente o elemento central do abandono religioso. São os mornos que serão vomitados. Teorizam sobre a opressão religiosa e discursam sobre a falsidade dos líderes. Bajulam o ceticismo amador e desprezam o conhecimento teológico. E por desprezarem a teologia, desprezam também qualquer formação que emane de instituições religiosas.

A denúncia institucional a que fazem agnósticos e liberais é o início da ponte sobre o abismo da negação completa da fé. Pode ser que sossobre a ponte, mas não caia o andarilho. Porém, e se cair? E se se ver ele “olhando no ponto escuro do olho do abismo” ao ponto de não ter mais forças para retornar à sanidade? A força da irresponsabilidade é muito maior que a força do comprometimento, circunstância que luta qualquer cristão. Não é diferente com o agnóstico, que justifica a inércia pela irresiliência premeditada e baseada numa percepção limitada de assuntos nunca antes estudados. Denunciam os rituais e a “religiosidade”. Em verdade, denunciam o comprometimento. O agnosticismo, na história teológica, é o preguiçoso do monastério. Trazem nos discursos a aparência da revolta, cujo início se deu no cansaço das coisas religiosas. A desculpa, por isso, sempre é mais confortável, porque não externa sua índole incipiente, servindo por fim de trampolim para a acídia. O cristão subversivo não escapa desse entrave, ainda que tenha o amparo da comunhão que ele entende ser um fardo. A subversividade (elogiada e incentivada entre liberais) corrobora o menosprezo das coisas religiosas como aquele que sobre o muro observa o andar da carruagem. O subversivo costuma tomar para si a crítica como elogio e o elogio, uma forma de indução moral pretensiosa. No meio cristão a subversividade é acertadamente uma circunstância de contaminação gradativa dos demais.

A subversividade se traveste em “ideias revolucionárias”, tidas como inovações, mas que em verdade são velhas releituras de movimentos já extintos. Achando-se esperto e confortavelmente na mornidão da crença, lança por sobre a comunidade as velhas novidades como quem tenta iluminar insistentemente o que já se conhece e o que já se declarou um erro. Por fim visto como uma problema a ser rejeitado, nega as Escrituras, abandona a fé e amaldiçoa a Cristo para que pareça ser tudo uma convicção intelectualizada, e não um estado simplório de revolta.

Anúncios

Princípio e fim: René Girard (25 de dezembro de 1923 – 4 de novembro de 2015)

Conheci René Girard há mais de 12 anos, quando discutir a cristandade envolvia os questionamentos da fé. Dissequei Um longo argumento do princípio ao fim: diálogos com João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello, meu primeiro livro do acervo. Seu impacto foi tamanho em minha vida que o levava como livro de cabeceira, nunca esquecendo de conferir a próxima assertiva; maravilha-me sua lucidez na explicação de coisas simples, iluminando fenômenos que antes se via como mera trivialidade, perda de tempo. Girard negava o título de filósofo e conversava sobre sua tese como quem necessita aprender com os ouvintes, como bem faz qualquer mestre cuja maturidade lapidou o orgulho comum nas academias. Era professor e fazia dos leitores seus amigos de estudo.

Era cristão e me fez um cristão.

Foi um dos responsáveis diretos pelo retorno ao Evangelho, quando a frivolidade dos argumentos agnósticos tinha força diante da juventude cristã. Apaziguou com seus esclarecimentos mais simples o afastamento da fé, em verdade a trilha mais curta ao niilismo e à vingança. Disse o motivo pelo qual o ateísmo é uma preocupação cristã. Descreveu-me sem me conhecer e ajudou-me no reencontro da fé. Indicou o caminho da releitura bíblica e explicou a que veio as ovelhas do Pastor. Dou a Girard o crédito necessário. Sua obra é grandiosa, mas também sua pessoa.

A gratidão que fica é a mesma de outras dezenas de entusiastas que acompanhavam sua obra. Chamavam-no com razão um irmão em Cristo, aquele que instrui e que instiga.

Por sua obra e ajuda, agradeço a René Girard. Será sempre lembrado e relembrado.

Girard

___________

“A vitória da cruz é a vitória do amor contra o ciclo de violência do bode expiatório. Ela invalida a idéia de que o ódio é um dever sagrado. Os Evangelhos fazem tudo o que a Bíblia, no Velho Testamento, fez antes, reabilitando um profeta vítima, uma vítima erroneamente acusada. Mas eles também universalizam essa reabilitação. Eles mostram que, desde a fundação do mundo, as vítimas de todos os assassinos ao modo da Paixão foram vítimas do mesmo contágio de multidão, como Jesus. Os Evangelhos tornaram essa revelação completa porque dão à denúncia bíblica da idolatria uma demonstração concreta de como os falsos deuses e seus sistemas culturais violentos são gerados. Essa é a verdade que falta à mitologia, a verdade que subverte o sistema violento deste mundo. Essa revelação de violência coletiva como uma mentira é o marco do judaico-cristianismo. É isso que é único no judaico-cristianismo. E esse caráter único é verdadeiro.” – Em entrevista ao Estado de São Paulo – 15/05/2005.

O que era exceção, tornou-se regra

Há alguns anos (mais precisamente de 2005 a 2011) participei de uma série de discussões em um grupo do Yahoo chamado “Crer é Também Pensar”, nome em homenagem ao livro de John Stott. Peguei-me relendo diversas das discussões, muitas delas acaloradas cujo receio principal dos debatedores era não perder a novidade do discurso vindouro, relembrando que muitos dos questionamentos ali colocados eram, de fato, questionamentos de quem ansiava se distanciar da balbúrdia neopentecostal e da rigidez dos costumes sem fundamento bíblico; um alento daquela sonoridade desvirtuada do louvor moderno e das danças com seus movimentos tipicamente rudes, sem arte, cujo critério de beleza se equiparava às manifestações espontâneas dos cultos afros. O sentimento geral era de que cada integrante estava ali para aprender com uma visão que não se encontrava nas denominações. Cada um de nós estava lá para desfrutar do entendimento decorrente da exceção, do exclusivismo, do menor número ante o público geral que certamente desprezávamos, uma vez que éramos minoria diante das crescentes estratégias de evangelização. No auge do movimento G12, quando não se falava outra coisa senão na manipulação do Espírito Santo e na unção de qualquer coisa, negávamos os pressupostos mais básicos de experiências óbvias a qualquer cristão acomodado à rotina denominacional. Liberais, conservadores e adeptos das teologias liberais permeavam os debates.

A exclusividade de questionar os desmandos mais óbvios e os absurdos das doutrinas decadentes foi dando espaço para as reclamações politizadas com lastro em figuras como Ricardo Gondim e Ed René Kivitz (piada recorrente da época era de que Ricardo Gondim, após tomar seu cappuccino, chorava todas as manhãs pelas crianças famintas da África enquanto lia o jornal matutino), os quais falavam o que falavam por meio de trejeitos característicos à esquerda. O que era teologia, tornou-se discurso de classe; e o que era doutrina, tornou-se uma análise do opressor e oprimido. O andar da carruagem beirava o abismo do relativismo agnóstico e a negação crescente das doutrinas cristãs. Essa negação, primeiramente travestida de descontentamento denominacional, partia de uma crítica litúrgica e de um descaso para com a convicção do cristão tradicional, o que delineava o desprezo posterior a toda forma de fé religiosa. A religião era denunciada. A Bíblia, tida como um instrumento de poder, um relato histórico dispensável, uma “narrativa”, não mais servia como pêndulo de sensatez doutrinária. Reflexo de uma tendência generalizada dos movimentos antidenominacionais, inclusive com o apoio de revistas como a Ultimato, não havia outro assunto entre blogs, revistas teológicas e publicações de líderes de esquerda: a protestantismo “clássico” estava no seu fim e o liberalismo teológico era irreversível. O que era exceção, tornou-se regra. O discurso da “espiritualidade genuína” em contraposição ao “legalismo evangélico” era pauta em púlpitos e aquilo que discutíamos passou a ser assunto comum a qualquer esquina. O que falávamos com ar de novidade, agora poderia ser encontrado em folhetins.

Essa mudança de cenário cansou os ouvidos dos mais apaixonados. Mais grave que o fato denunciado era perceber que todos denunciavam o mesmo fato. A exceção tornada regra desfez a árida estrada do “esclarecimento”, como que trazendo ao ambiente comum todo o esforço que um dia se originou no estudo sincero. O que era mais grave e chateante que notar que todo o esforço da denúncia então se travestiu num discurso massificado, presente em todas as bocas? O esvaziamento do grupo “Crer é Também Pensar” seguiu o mesmo caminho do esvaziamento dos discursos liberais, os quais tornavam-se repetitivos, sem estudo e emocionais. A luta por um evangelho genuíno foi enveredada para uma luta discursiva mesquinha, amparada na ingenuidade daqueles que conheciam o movimento pela primeira vez – como a criança que descobre o brinquedo velho, já  familiar aos demais. Se o alimento do próprio discurso era a propaganda feita pelos novos apaixonados – que não participaram da construção do movimento nos anos 2000 -, era inevitável que a sobriedade de outrora se transformasse na histeria de denúncias de toda sorte, geralmente fundamentadas na “exploração do evangelho”. O ciclo se fechava; a seriedade estava maculada pela máscara das preocupações sem fim ante os “explorados”.

Quisera eu ter evitado discussões que não levaram a nada, mas tão só aos receios que durante certo tempo embotaram o meu estudo. Se podia ter razão em algo, era de que faltava esclarecimento do Espírito Santo e o reconhecimento da misericórdia. Muitos dos colegas da época hoje são agnósticos e ateus, enclausurados nas discussões sem fim sobre como foram eles levados à negação da fé. Utilizam do lastro cristão e da rotulação de ex-cristãos enquanto alicerce para que seus ouvintes sejam conduzidos a uma credibilidade que mesmo à época não se observava. O dissimulado de antes (notável nas mínimas conversas) passou então a dissimular seus motivos à apostasia, responsabilizando o evangelho distorcido e as loucuras de uma década perdida a fim de que não seja cobrado o motivo da fraqueza.

Conservadorismo e prudência

A prudência do conservador se ampara na familiaridade e lealdade às instituições que permeiam seu ambiente cultural, espiritual e político, sendo notório ao mesmo conservador que qualquer tentativa de desfiguração institucional merece repulsa imediata. Qualquer trejeito subjetivo de ruptura é ao conservador um aparato revisionista amador, fundamentado na dúvida meramente casual da instituição ora questionada com a finalidade básica de difundir a discórdia gratuita. Essa é a prudência que antecipa, ao conservador, a desconfiança para com os discursos da juventude, alicerçados nas reivindicações mais baixas e quase sempre apontadas para a exigência histérica. O conservador se baseia na familiaridade institucional para então balançar o pêndulo medidor de hesitação da mudança drástica, eis que sempre destrutiva.

Nesse sentido, o padre que diz contra a Igreja e a Tradição, desdenhando dos santos e falando contra o legado da cristandade, não merece confiança. Nisso é que esse mesmo padre, dizendo coisas caras aos protestantes (ao ponto de não se sentir a diferença entre as pregações), não deve ser visto pelo protestante conservador um aliado em potencial, mas sim um membro cristão que se desvincula lentamente de sua base teológica para então adentrar no campo do relativismo espiritual. Mais nobre ao padre a desvinculação institucional completa, mas o que se vê é o oposto: o padre que ensina doutrinas estranhas e deturpadas, pinceladas de teologia protestante, recusando ponto a ponto seu amparo teológico e mantendo-se protegido pela mesma instituição que ataca.

Protestantes conservadores comumente se regozijam com a inclinação exponencial de padres que abraçam a causa reformista. Incorrem no erro de não perceberem que a trajetória da negação da fé procede de uma reformulação discursiva de aversão de qualquer doutrina, seja ela qual for.

De maneira similar é o protestante reformado que abraça lentamente o discurso da teologia liberal, negando em similaridade espantosa o mesmo fundamento teológico que amparava sua fé cristã originária. Como o padre que anda no campo dos discursos reformados apenas para “refazer o que entende errado”, o protestante abraça o liberalismo na tentativa de refazer a institucionalização denominacional que espera denunciar. Sempre afeito ao sentimentalismo, o cristão liberal denuncia os excessos das comunidades reformadas na medida em que estipula um laço extremamente subjetivo de convicções que jura serem novidades. Conquanto um cristão que se “libertou de antigas amarradas”, busca de imediato mostrar que sua decisão, por si só, foi suficiente ao amadurecimento espiritual.

São dois personagens de uma mesma moeda, ambos desembocando na fragilização doutrinária irreversível. Quando em fim se deparam com a desfiguração completa da fé, denunciam não a instituição, mas o cristão.

O cientificista que não é cientista

O cientificista que não é cientista, geralmente aquele que sempre estudou “ciências humanas”, não escapa à emoção de defender o que não conhece e de divulgar, como um profeta, as benesses de uma ciência que não entende. No máximo, como curioso contumaz,  um jovem imbuído da missão de revelar ao mundo a finalidade da ciência, percorre a estrada sempre duvidosa do amadorismo caracteristicamente juvenil. Essa personificação inapropriada do conhecimento da ciência tem seu motivo primordial na ansiedade do amador em se colocar enquanto responsável pela Verdade, antes um papel eminentemente filosófico. O trajeto à verdade se confunde com o apelo dos questionamentos mais básicos da filosofia, portanto não sendo novidade alguma aos que já se encontram avisados sobre a artimanha do discurso ativista travestido de tese. O cientificista, tornando-se ele próprio a imagem do sujeito compromissado com a causa, eleva os métodos científicos a um patamar raramente encontrado entre os cientistas de facto. Não só um discurso, essa elevação transforma a ciência na representação substitutiva do sentimento religioso, coadunando a máscara racionalista cientificista com o dogma das tradições de fé. Com uma diferença: o alicerce do cientificista existe no ativismo e na retórica politizada da “descoberta da verdade”, por isso sempre mutável ao gosto do tempo. A distância gradual entre o cientista e o cientificista traz ao ativista a artimanha de opor sua ineficiência técnica – ou seja, realmente científica – ante o inimigo imaginário mais distante, o espantalho inerte da plantação: o religioso. Ao que tudo importa, a saga do cientificista que não é cientista, geralmente aquele que sempre estudou “ciências humanas”, termina na negação de uma divindade qualquer para, depois, reafirmar a necessidade do Estado em regular tanto a ciência quanto a religião, porquanto não haveria como trazer ao homem médio a imposição de um discurso ativista senão por meio da coerção estatal. Não que isso seja um espanto: o ativismo não sobrevive sem o Estado moderno, cauteloso em favor das causas menos nobres, e não seria diferente com a ciência. Ao apontar o dedo da mudança, aponta segurando a mão do Grande Irmão. Não é coincidência que esse mesmo amador peça encarecidamente que as escolas religiosas deixem de ser religiosas, e que a reza da instituição católica seja convertida em cantorias cívicas.

Ateísmo, fé e ocidente: algumas perguntas

Segundo René Girard, em “Aquele por quem o escândalo vem”, o ocidente tem a originalidade de revisar suas características fundamentais e imputar os erros sociais a desvios básicos do ocidentalismo, os quais merecem incessante revisão. Assim, a “crítica do ocidente pelo ocidental” é nada além que uma das características do próprio ocidentalismo, ao ponto de fazê-lo um elemento indissociável do mundo moderno ocidental. Estaríamos portanto diante do dilema da verve espiritualista, pretensamente religiosa, cujo revisionismo tem ganhado força a cada dia mediante a desfiguração dos ritos religiosos e da importância das tradições. Por isso explica Girard que o ateísmo enquanto tal é nada além que um dos frutos do cristianismo (senão o fruto mais podre), em verdade uma “invenção cristã”, cuja definição não subsistiria em outras culturas que não experimentaram dos reinados e governos cristãos. Implicitamente temos que o ateísmo é um fenômeno essencialmente moderno, ávido na filosofia pela desconstrução e, na política, pela laicidade que sobrepõe o ideal ateísta sobre a cultura religiosa majoritária. O ateísmo seria a modernidade que descambou nos acontecimentos do Século XX. Não é de se espantar que o ateísmo ganhe então força entre os ex-religiosos, muitos dos quais sob influência direta do cristianismo que gera e sempre irá gerar profeticamente os anticristos, até o fim dos tempos.

Mas se o ateísmo é cria do cristianismo, por qual motivo vemos a crescente espiritualização irresponsável das tradições religiosas pelos cristãos ainda assim declarados? Certamente que pelo mesmo sentimento de eliminação pormenorizada das tradições, as quais consubstanciam os ritos religiosos. Dentre os evangélicos tal sentimento é uníssono ao ponto de termos a substituição do mandamento pela consciência íntima, subjetiva e relativa, que justificaria todo e qualquer discurso pretensamente cristão, com roupagem meramente libertadora das amarras dos ritos (ou, como dizem, “da religião”). Por isso é que o cristão espiritualista toma facilmente o caminho do agnosticismo, sem antes passar pela negação da sistematização teológica e da observação das doutrinas – a doutrina costuma espantar aquele que titubeia na cruz, por afastar a conscientização, não dando espaço aos cacarejos dos intimistas.

Ainda sob a observação inicial de René Girard, conclui-se que a revisão ocidental de seus próprios costumes tem contaminado o cristianismo, porque tenta revisar a validade da “nação sob a vontade de Deus”. Ou, melhor dizendo, seria o cristianismo o causador do revisionismo e da decadência, como alegam os discípulos de Nietzsche? Certo de que a crise da cristandade é muito mais uma crise do próprio ocidente, como unir o cristão a esse fenômeno da desconstrução de tudo que é ocidental, inclusive a fé cristã? Estaríamos mesmo ante o renascimento da nova cristandade, vigorosa na  evangelização, agora no oriente? Creio que René Girard irá me apresentar a resposta, mais à frente.

Novamente o Natal

Pululam entre ateus e agnósticos alegações das mais diversas sobre o significado natalino, sua relação pagã ou sua ineficiência em reafirmar a imagem de Jesus Cristo. Como que um gatilho que dispara o desespero das reafirmações, Jesus Cristo, no Natal, novamente é condecorado mera ficção, personagem de lendas, homem como qualquer outro ou, até mesmo, um homem iluminado. Mas essa recorrência na época natalina tem seu motivo evidente: conquanto o Natal é uma festa eminentemente cristã, submetida aos critérios inevitáveis da família cristã, o não cristão se vê então deslocado ante a celebração que lhe traz também bons momentos de prazer. Sim, porque o incrédulo em Cristo quer estar da festa, sem participar da festa. Quer festejar a data sem o Deus que tem a honra; precisa satisfazer a ansiedade festiva mediante a negação de Cristo, ainda que isso signifique negá-lo pelas vias do conhecimento que outrora se tinha na sinceridade religiosa. Nisso, não há via mais sujeita ao constrangimento que o ex-cristão que deseja perverter o sentimento natalino e tergiversar sobre o sentimento familiar inevitavelmente vinculado à rememoração da pessoa de Jesus Cristo. O incômodo é recorrente. A inquietação é sempre retornada às vésperas da festa que não abre espaço a qualquer subjetivismo filantrópico, justamente porque a rememoração não se pauta na futilidade humanista da caridade que se pretende obrigatória, mas na Fé que é sustento da esperança. A união em Cristo, se familiar ou na solidão, é irresistível até mesmo àquele que um dia provou dessa paz indescritível. O esperneio, portanto, talvez nos indique que a loucura do agnosticismo procede da experiência cristã: daí que o agnóstico tenha a mesma base discursiva do irreligioso que um dia abraçou a espiritualidade concreta.

Pois não nego que o agnóstico, subsidiado no sarcasmo amador dos ateus, tenha um dia conhecido a espiritualidade, podendo depois contradizê-la no fraquejo do espiritualismo humanista, com roupagem meramente cristã, tal qual qualquer traquejo espiritual que parasita o cristianismo. Mas não falo somente da religião, pois que a cristandade sustenta a comunhão familiar, a qual é indissolúvel se Jesus Cristo está no centro. Disso é que o agnosticismo sempre nas datas cristãs tende a justificar a comunhão familiar por meio da descaracterização da data, ou na inversão dos motivos pelos quais a comemoração é realizada.

A perda do sentimento cristão é o princípio que se observa entre os indiferentes. Há tempos não via as famílias cristãs tão unidas não só na festividade, mas ao Cristo festejado, o qual não foi esquecido. É esse o clamor secular: que Jesus Cristo seja esquecido, e que a mera comunhão seja respaldo suficiente à ceia natalina. A união familiar em Cristo é ela mesma o alicerce da memória natalina, da Bíblia recitada, da oração sincera e da paz que renega as declarações de paz. A contradição se matura de Natal em Natal: o cristão não pede a paz corrupta, porque a paz de Cristo não necessita ser condecorada. O cristão não implora pela caridade, porque a caridade cristã não aflora somente nos momentos propensos ao conhecimento do público.

O cristão antes da comemoração familiar já na solidão rememora o Evangelho, já antes da festa reverencia o Deus revelado aos homens. Nas festas de Natal, o cristão participa mediante o motivo que antecede a festividade. Significa dizer: a festa pela comunhão familiar, aquela que incomoda o agnóstico, é tão somente consequência da comunhão da alma, solitária, cujos fundamentos são os joelhos dobrados a Cristo. E nisso o desespero do ex-cristão é ainda maior: como pode ele refrear a sinceridade que se demonstra a si mesmo, sem expectadores e cujas palavras de oração são proferidas a um Deus ignorado? Eis então que a paz, esperança e amor vazios são constantemente proclamados, jogadas ao vento e impelidos pela data que não se festeja. Ou ainda, é muito bem festejada, mas ausente o nome de Jesus Cristo nascido em lugar da truculência que pretende reafirmar uma preocupação basicamente cristã.

Não tenho mensagem de Natal alguma, porque desnecessária. Não tenho como expor o sentido histórico e religioso do nascimento de Jesus Cristo, relembrado nesta data, contudo nunca novidade ao cristão sincero. Nestes tempos em que o Evangelho é ora deturpado pelo carisma fajuto das profecias deterministas, ora mascarado com a suavidade e destreza de palestrantes que só enganam a bobos e ingênuos; nos tempos da antirreligiosidade espiritualista, é certo que a mensagem natalina não deve fugir da razão última da celebração, a alegria da família cristã unida sob o Verbo. Por isso, a advertência de Chesterton é sempre atual:

“A verdade é esta: que neste episódio da natureza humana, que é o Nascimento, há um caráter individual e peculiarissímo, psicologicamente substancial que não se pode interpretar como uma mera lenda ou a simples história da vida de um grande homem. Porque não incluía nossas mentes, sistematicamente, para a grandeza, para essa admiração empolada e exagerada dos reis e dos deuses a que, em todas as idades, encontrou propícia a mente humana, senão que é alguma coisa substancial em nós, que nos surpreende de dentro do nosso próprio ser, como se, explorando a nossa habitação espiritual, déramos, de pronto, com um aposento ignorado, até então, do qual saíra uma clara luminosidade. Alguma coisa que, ainda aos mais endurecidos corações, atraiçoa, com uma irresistível atração para o bem. Alguma coisa que não está feita com o que o mundo chamaria “matéria forte”. Alguma coisa que é tudo o que existe em nós de ternura eterna. Alguma coisa que é a palavra quebrada e a razão perdida, que se concretizam e se fazem positivas. Alguma coisa, finalmente, pela qual os reis exóticos vieram de um país distante, porque os pastores deixaram suas correrias na montanha e a noite e a caverna imperaram sós, recebendo algo que era mais humano que a Humanidade mesma.

[…]

Qualquer agnóstico ou ateu cuja infância conheceu um verdadeiro Natal sempre faz dali por diante, goste ou não, uma associação mental entre duas ideias que a maior parte da humanidade deve considerar como distantes uma da outra: a ideia de um bebê e a ideia de uma força desconhecida que sustenta as estrelas.” (Chesterton, The Everlasting Man)