Voto, república e coletivismo

Escrito 02 de fevereiro de 2011.

A declaração de determinados eleitores como inaptos ao exercício do voto é, em suma, a declaração que evidencia uma reflexão reducionista, mas necessária, da democracia republicana. Se houve no fim do Século XIX e início do Século XX o chamado “movimento social sufragista”, ainda limitado ao universalismo do voto e sua decorrente extensão às mulheres cidadãs, é no pós-Segunda Guerra Mundial que é nos apresentado o voto como única, máxima e irrestrita faceta democrática de transferir ao povo a capacidade cognitiva conscientizadora de suas aptidões políticas, que se estendem à ordem social.

As máximas conscientizadoras através dos votos se fizeram em tamanha escala que inevitavelmente o sistema de proteção eleitoral por meio dos colégios eleitorais e, além, a dissolução parlamentar – ainda que pelo “voto de censura” – seriam métodos despóticos, revisionistas, limitadores da vontade popular antes externada pelo voto como exercício político, acontecimentos extemporâneos que estariam submetidos a interesses mais perversos. O indivíduo, ao externar sua vontade política, estaria vinculando ao Estado sua capacidade de transformação direta dos fins políticos que corroboram suas ansiedades burocráticas, que se corrompidas poderiam gerar toda sorte de desconfiança social. A crise, a difamação e aberrações políticas, que descredibilizam as instituições então submetidas à Democracia, não são justificativas aptas a deflagrar a anulação da vontade popular.

Antes o caos que o desrespeito ao voto republicano, lembrem-se.

Enquanto que o desenvolvimento civilizatório foi marcado pelo distanciamento entre indivíduo e coletivo (e consequente valorização do individualismo em exaltação às virtudes pessoais), dando ao primeiro relativa independência política com relação ao segundo, o desenvolvimento das “vontades populares” em seus contornos burocráticos reaproximou o cidadão das decisões políticas de bando, não somente pela necessidade intrínseca do cidadão na participação do pleito eleitoral, mas sim pelo fato de que, para as repúblicas imaturas que emergiam no cenário mundial, era fundamental estabelecer uma relação de interdependência e cooperação comunitários. Pois aquele que se negasse ao voto estaria negando sua “civis status“, sua condição de cidadão disposto a complementar a ordem política democrática.

Poderia aqui discorrer acerca dezenas de fenômenos republicanos então submergidos na proeminência do coletivo. Poderia também citar dezenas de métodos paralelos ao próprio republicanismo que visam incitar o voto como único mecanismo democrático realmente válido. Ocorre que o poder das escolhas diretas, ainda que irresponsáveis, é cativante não apenas pelo falso “poder que emana do povo”, mas também pelas consequências oriundas da maioria, que sendo caóticas dão ao povo sua merecida sentença. É esse, aliás, o pensamento daqueles que veem na dissolução parlamentar um “atentado à democracia popular”, ou na hereditariedade do rei “a perpetuação de favorecimentos elitistas”, afirmações geralmente escoradas nos ideais da Revolução Francesa, não obstante o alicerce de argumentações que a história mostrou serem de tendências totalitárias.

Ouso afirmar que a mentalidade republicana passou de mera teoria à massificação intelectual, adentrando nas conversas de grandes ignaros políticos. “Somos uma república democrática”, afirmam corriqueiramente iluminados por uma sabedoria transcendente. Contudo, sequer percebem que o republicanismo enquanto democracia estabelecida está em franca decadência, ao ponto em que se torna mais evidente que da república emergem os grandes ditadores.

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Completo em 16 de maio de 2016:

O afunilamento da legitimidade de um governo despótico geralmente se dá pela proeminência irrestrita do voto, assim garantindo a perpetuação assistencialista. O discurso do voto como garantidor da legitimidade governamental costuma antecipar todo e qualquer mecanismo constitucional apto a remover o mau governante, sobre o qual recai o peso da irresponsabilidade com o consolo da maioria votante. Com isso, é imprescindível o exercício monárquico em sempre esclarecer à população que o voto, por si só, é absolutamente irrelevante diante de um instalado e sistematizado caos degradador das instituições. O que não é possível de antemão nas repúblicas, corroboradas no sufrágio enquanto direito que legitima o poder irrestrito, ainda que irrelevante ou destrutivo.

Tomadas pelo sentimento do poder de escolha (fundamentalmente populista), as repúblicas latinas em regra não se reconhecem a dissolução parlamentar ou o sistema de colégios eleitores, em que se afasta propositalmente dos votantes o votado. Veem com estranheza o afastamento do governador inapto, “porque foi ele eleito pela maioria”. A inibição das políticas populistas é o maior triunfo das modernas monarquias e o maior dos erros das repúblicas decadentes, eminentemente latinas, seja na América ou na Europa.

O latinismo político perfaz um sentimento que contamina o caráter; nada mais comum ver o latino que, ao abraçar uma cultura antipopulista, envida esforços para tentar implementar políticas decadentes de contorno da vida privada, a exemplo da histeria latina em face da universalização do sistema de saúde americano ao tempo em que combatem a ilegitimidade dos colégios eleitorais. São como vírus que contaminam lentamente um corpo sadio, levando-o à doença sem sequer perceber o malefício.

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Do republicanismo em sua fragilidade coletivista

Escrito em 13 de janeiro de 2011, quando sequer imaginava um dia presenciar o atual estado das coisas. 

Todo e qualquer movimento, instituição e concepção política pode ser maculado pelo seu descrédito filosófico, o qual proporciona toda sorte de distorções conceituais que não encontram respaldo nas teses originais. Do liberalismo econômico ao tradicionalismo institucional, do conservadorismo político ao fundamentalismo religioso, o entendimento de suas proposições foi alterado e, hoje, refere-se tão somente a um resquício histórico estudado por uma minoria interessada na desambiguação entre conceito originário e o conceito coletivo, este alicerçado no amadorismo intelectual e senso comum previsível.

Mas se falamos de ideologias de Governo já amplamente efetivadas (o que afasta a limitação teórica da utopia governamental), falamos consequentemente em suas características essenciais, tendo em vista a observação histórica pela qual se testifica a falibilidade em sua implementação. Portanto, sendo falível e perseguida corriqueiramente por nações culturalmente subdesenvolvidas, a ideologia governamental nelas aplicada ou é maciçamente defendida por sua proeminência, ou é questionável justamente por sua facilidade de implementação, em geral decorrente de simplismos institucionais e ausência de critérios elevados para sua manutenção qualitativa.

Basta visualizar o esquema político global para que se constate esta realidade: a civilização contemporânea, as virtudes – não alcançadas pelos latino-americanos – da Democracia, a liberdade individual e econômica, o tradicionalismo institucional e o conservadorismo político, o respeito religioso em sua coexistência pacífica e o desenvolvimento exponencial da intelectualidade científica se encontram consolidados na Monarquia Parlamentarista.

Porém, contestá-lo como um fato exige do contestador a perigosa tarefa de enfatizar justamente o fenômeno republicano de colocar na fraqueza institucional o poder supremo do exercício do voto, seja ele de inaptos, seja ele de desinteressados para com a própria política nacional. O voto, assim, torna-se a expressão máxima do republicanismo, quando verdadeiramente é a exteriorização de sua debilidade institucional travestida de ativismos democráticos.

É como querer convencer-me de que há, quando o povo elege seu tirano, a total validade institucional republicana, porque “se um povo quer a tirania, assim a terá pelo voto”, como disse certa vez um grande jurista republicano.

Obviamente, não é coincidência que o autoritarismo e regimes despóticos modernos foram quase em suas totalidades criados e imaginados no seio do republicanismo: não por uma coincidência imatura e desconexa da política, mas sim pela vereda republicana que permite e, além, incentiva a debilidade democrática em prol do populismo regente dos incompetentes na decisão pelo voto, facilmente manipuláveis a fins políticos perversos, mas amparados pela ausência na República de uma figura que esteja acima do pleito eleitoral e que tenha amplos poderes de por sua identidade supra-eleitoral dissolver as casas representativas.

Percebe-se que a preocupação central dos teóricos republicanos foi e continua a ser as medidas efetivas de controlar, ainda pelo dito “voto democrático” (como se Democracia se limitasse a tal concepção), quaisquer tendências totalitárias. Da famigerada “conscientização do voto” a métodos arcaicos e ineficientes de separação do presidente de sua influência coletivista, o voto republicano, que impele a manutenção de casas representativas decadentes, está fadado a ser conservado na mente da população como dívida de medidas assistencialistas irrefutáveis e de tendências crescentes.

De certo que se falamos das terras tupiniquins falamos de fenômenos grotescos da política. Em sendo o voto obrigatório e não uma discricionariedade do indivíduo, o pleito contamina-se já de antemão por meio da inserção coercitiva daqueles que não têm qualquer discernimento político e que, se não por obrigação, sequer pensariam em exercer tal prerrogativa. Aliás, a obrigatoriedade do voto é caracteristicamente a objetivação do sufrágio, pela qual é de sumo interesse do Poder Executivo manter por questões obviamente pragmáticas.

A deturpação do voto republicano é tamanha que a República, hoje, tornou-se sinônimo de Democracia. Falar em atos democráticos é falar em República; falar na dissolução parlamentar é, hoje, uma afronta democrática por decorrência do desrespeito dos interesses do povo. Falar em República Democrática é afirmar, sem mais palavras, que independentemente das consequências tirânicas o povo soberano assim o quis.

A tendência crescente em refutar a proliferação das chamadas Repúblicas Socialistas segue o mesmo trilho da proliferação daqueles que observam no voto a maior e talvez única expressão democrática realmente válida. Tal é o pensamento reinante nas escolas políticas latinas, que transferem ao voto a capacidade ampla e indiscutível de uma maioria decidir sobre uma minoria declarada irrelevante. Não se trata, caros, de um antagonismo político, mas sim que de fato a República tornou-se o escopo do coletivismo de Estado, o qual é historicamente o passo anterior à aniquilação das instituições democráticas.

Dê-lhes o pão e terás o voto. Dê-lhes a República e terás o sufrágio como direito sacrossanto de eleger, talvez por um período caótico, aquele que pode manipular as instituições republicanas para sua perpetuação no Poder Executivo e aparelhamento das demais esferas de Poder. Dê-lhes o Brasil e terá o voto republicano obrigatório, que faz do inapto o mais feliz dos cidadãos, porquanto se antes era descartável politicamente hoje se transformou no principal e inevitável caminho de “seleção democrática”, de “exercício amplo da cidadania”, da “garantia da continuidade democrática da República moderna”.

É inegável que são existentes métodos e instituições que visam suprimir a falha irrefutável do voto republicano: chama-se, caros, Colégio Eleitoral; ou, mais precisamente, a institucionalização do voto indireto, que inibe consequentemente as regalias do assistencialismo e demais atividades perpetradas pelo presidencialismo.

Mas esse é assunto para outra oportunidade.

Igor Westphal, o idiota útil

Há tempos não lia uma entrevista qualquer que me instigasse perder alguns minutos de escrita. Mas o caso é exemplar. O Idiota, de Doistoévski, é obra que se tem enquanto construção perfeita do personagem fictício. Se o escritor novato tiver por limite literário a ingenuidade grotesca de Príncipe Míchkin, estará em boas mãos. A [teórica] dissimulação do autor ante suas crises epilépticas mescla-se com a perspicácia da ignorância ameninada, então claramente infantil. A infantilidade do personagem percorre a grandeza da narrativa: são indissociáveis e permitem ao leitor adentrar no mundo do honestamente ingênuo, da pureza de coração que não se sabe inventada.

Igor Westphal é um contemporâneo idiota útil. Ao ser rechaçado por sua graciosidade, justamente por considerarem o acadêmico um preconceituoso racista, Igor se debruça prontamente perante a estrutura discursiva que encorajou sua inefável sentença. Ou seja, Igor, considerado racista, bajula o martelo que lhe vai à cabeça na esperança de que venham a entregar-lhe a carta de absolvição. Westphal portanto não se rende ao constrangimento. Mais vale sua reputação no status quo do academicismo engajado.

Na entrevista, diz o útil:

“O meu único intuito foi que as pessoas conversassem sobre aquele tema. Estimular o pluralismo de idéias. Pessoalmente, creio que a referida foto tem muito mais a ver com a chacota que o grupo de humor nigeriano quis fazer da situação de pobreza extrema fruto das tentativas de secessão por meio de guerras civis entre etnias diferentes e pelos séculos de exploração britânica, independência tardia e democracia instável. “

Como qualquer acadêmico limitado na percepção vitimista da história, a mesma percepção unanimemente ensinada nas escolas fundamentais, Igor explica que a pobreza extrema da Nigéria é fruto do imperialismo britânico. Não cita Sani Abacha, creio eu, por uma total independência ideológica. Evidentemente que Igor não se preocupa com detalhes pequenos da caminhada democrática nigeriana, principalmente se o detalhe é justamente o financiamento comunista aos generais que lá fizeram o dever de casa.

Continua o nosso personagem dostoiévskiano:

“A guerra deles é justíssima, mas eles pensaram nisso quando resolveram empregar a violência, o ódio e a difamação como meios para isso? Que tipo de exemplo de sociedade inclusiva eles querem dar?”

Igor quer nos trazer o sentimento de nobreza que acompanha o rebanho dos ofendidos, não somente respaldando a revolução que acomete a mente de qualquer adolescente, mas também nas explicações que abraçam a famigerada “sociedade inclusiva”. Igor, o idiota útil, pelo seu próprio discurso, nos fornece dados inequívocos de que ele próprio participa do descalabro moral que perdura sobre a loucura da esquerda acadêmica. Porém agora ele, o alvo, tenta de todas as formas trazer para si a conscientização propagandeada por seus opositores.

Continua o conscientizado Igor:

“Mesmo que vocês continuem nessa empreitada covarde o tempo que for, eu não vou deixar de ouvir Emicida, Rashid e Projota, não vou me afastar dos meus amigos negros e mestiços, nem vou deixar de me relacionar com alguma menina por ela ser negra ou mestiça como eu já fiz várias vezes. Eu não vou perder a confiança sobre a pessoa que eu sou nem um segundo. Ao usar o ódio, a ameaça e a violência, vocês deslegitimam tudo aquilo que foi conquistado em termos de “igualdade de fato” por outros grupos negros que não enxergam a vida como “nós” e “eles”. É uma covardia o que fizeram comigo.”

A tática de Igor é querer se juntar aos detratores por meio da identificação do fim almejado. É querer dizer que seus algozes formam uma frente radicalizada da estupidez, contudo ainda estúpida. Westphal talvez não tenha tomado nota sobre as circunstâncias que fazem de seu ato uma bandeira política, substanciada na “coletividade” similar aos belos campos de mamíferos que perduram na antidemocrática Nigéria. Certo é que, não obstante a minha crítica a qualquer patrulha intelectual, Igor se mostra injustiçado não só pela brincadeira ofensiva (porque ofende uma minoria inqualificável, um ícone, uma simbologia de pobreza oriunda da “opressão dos brancos imperialistas”), mas também por coadunar inocentemente com o caráter lunático do esclarecimento ideológico.

O idiota útil moderno, claramente ligado às características do personagem de Dostoiévski, é pior ainda que a estirpe que lhe deu a fama. Esta, no passado, assumiu sua função deletéria perante o grande teatro democrático das repúblicas socialistas. Igor, do contrário, bate o pé e faz biquinho: sou como eles, mas não quero ser por eles julgado. Ora, ainda lhe resta tempo para perceber que a coerência de qualquer discurso contrário à histeria conscientizada vai do liberalismo clássico ao conservadorismo cristão.

Igor, decida-se.

Coerção e liberdade

O libertarianismo enquanto capitalismo anárquico tende a vincular o trabalhador à idealização do labor e também à idealização da opressão. São o oposto do liberalismo clássico. Se a mensagem central é a “ausência de coerção”, de certo que o homem coercitivo, talvez aquele mesmo o grande empreendedor, não teria espaço na utopia justamente por representar a estirpe que conduz as relações econômicas também às relações de dominação. Se, do contrário, imagino que as relações econômicas são coercitivas em algumas formas de contrato e na segurança jurídica (o que implica necessariamente na existência do Estado – sequer ouso discutir os tribunais privados), de igual forma a utopia libertária faz de qualquer coerção uma das características do conservadorismo. Não lhes retiro o motivo; certamente o conservadorismo é coercitivo. O problema maior está em atribuir também aos valores morais o sentido máximo da coerção, prática comum dos coletivistas. Se e quando explico minhas razões sobre o homossexualismo, sem sequer submeter minhas razões a uma solução prática do problema, imagina o libertário que nas razões se exprimem a coerção de opinião, aquela que não necessariamente envolve o Estado. Na imagem da utopia, é possível que os julgamentos morais individuais, sem qualquer relação com o Estado, também sejam resquício e/ou criadores de um ciclo coercitivo insuportável à anarquia. Por isso não raro se observa no libertarianismo a condenação aos julgamentos de valor e à mera opinião acerca de fatos que envolvam os movimentos modernos, como o feminismo. O libertarianismo cai na armadilha comum dos pós-modernistas: se a opinião de valor está inserida na máxima dos julgamentos que devem ser rechaçados, de igual forma o indivíduo enquanto tal não traz sobre si o poder de proferir a opinião de fato coercitiva, ainda que essa coerção seja apenas e tão somente um símbolo retórico de descontentamento em face da liberdade. Ou seja, atado no discurso da opressão, a opinião de valores para libertários e coletivistas corrobora a existência do oprimido, de maneira que a própria liberdade sairia prejudicada; e não haveria pecado maior que trazer à liberdade o risco do ofuscamento. Em nome da liberdade utópica, criamos frouxos que anseiam libertação como qualquer hippie que hoje mendiga esperança em semáforos urbanos.

O que nos ensinam os assassinos de mandiocas?

À evidência de que o humanismo persevera no mundo sempre com o apoio de discursos salvacionistas, em substituição das virtudes individuais pelos atos que se justificam coletivamente, é cristalina a necessidade do vegetarianismo em se impor não somente como um fenômeno de dieta, mas também como o espiritualismo que se expande infecciosamente a tudo e todos. Essa pretensão que coaduna a dieta ao espírito se tornou a sentença inefável do discurso vegetariano. Quando ainda restrito ao mero hábito alimentício, tinha o vegetarianismo o jargão da saúde plena e não apresentava o alimento enquanto caminho entre o homem e o divino. Contudo, como qualquer movimento que se subentende espirituoso, porém nunca religioso, eis que os vegetarianos incutiram na dieta a saúde não somente física, mas também espiritual. A mínima controvérsia em torno do vegetarianismo enquanto fator de espírito equivale a desrespeitar verdadeiras convicções religiosas, mas sob a cautela de não ser expressada as advertências de uma vida ecologicamente equilibrada.

Creio ter algumas dezenas de textos argumentando sobre o fenômeno, mas nada convence mais um humano que ver como determinada tribo africana guarda sua carne: cortando as patas do animal [sem anestesia, é bom que se explique], para assim não deixá-lo caminhar mato adentro. Crueldade! O vídeo, que faz chorar em prantos qualquer vegetariano, revela o motivo pelo qual o homem tende a ignorar o sofrimento animal quando o que existe entre seu estômago e o belo gado é a fome predominante. Recitando louvores de ode à civilização, questionam o pudicos: “eles não conhecem maneiras de conservação da carne?”. A higiene aflora na primeira investida, e o vegetariano que um dia condenou o homem ocidental agora preza pelo ocidentalismo quando o assunto envolve o primitivismo tribal.

“O homem evoluiu e não precisamos mais de carne”, diz o sábio. Outro, “a natureza humana é sempre assassina”, analisa o assassino de mandiocas. Mas apenas um dentre centenas, ainda que vegetariano, revelou o óbvio das entranhas de tamanha barbárie: “se não têm o que comer, que comam carne”.

Não os condeno. Na falta do que fazer, por que não encher o saco de praticamente toda a humanidade?

Do desapego virtuoso e puro das coisas materiais

Dentre outros modelos de justificativa social, a ociosidade do vagabundo-conscientizado talvez seja aquele que mais abranda o coração do homem urbano. Como que redimido por uma situação de decadência antes meramente material (ao mesmo tempo em que “denunciava” o consumo de bens que amparam a civilização), hoje o vagabundo tenta, pelas vias da sociologia-de-boteco, transferir seus motivos de existência para o próximo; seja na sua redenção particular, seja na formação de caricaturas piedosas. Eis que o vagabundo é o monge do Século XXI, com a desvantagem para o fato de que os monges exerciam e continuam a exercer atividades criteriosamente intelectuais.

O vagabundo da vez é a alemã Schwermer, conquistando corações ao redor do mundo e ensinando lições de compaixão, amor e esperança. Enfim, uma mulher pura. Diz a monja moderna que o que importa “não são coisas materiais, e sim a minha presença. Muita gente tem problemas ou está sozinha. Eu os escuto e os ajudo a pensar sobre o que querem fazer com suas vidas.”. Cai a foice na cabeça do culpado. O materialismo novamente julgado e condenado pelos vagabundos unidos de todo o mundo. Obviamente que a piedosa não quer ensinar seus truques no Congo; por que haveria, afinal? Que baste seu alívio das coisas materiais, mas a pobreza é um caso à parte. Ai do pobre que quer sair da pobreza produzindo e consumindo. Absurdo! Deveriam todos do Congo agir como age a monja europeia.

O fenômeno se reconfirma: vagabundo algum quer ser chamado de vagabundo, ao que pela mágica das palavras o ócio se transforma em labor e o vagabundo, em trabalhador. Todo flanelinha se acha um árduo trabalhador e exige sua recompensa. Afirma a amorosa e humanista mulher: “é verdade que são os outros que ganham salários para pagar o que eu como, mas eu também trabalho todos os dias. Faço coisas para as pessoas. No mundo ocidental há muitas pessoas que se sentem isoladas, e eu as ajudo com minha presença. Posso ser uma mãe, uma irmã, uma amiga, o que precisarem. Quem diz isso é porque vive no velho sistema, mas tudo vai mudar”. Claro que é verdade, chamaria de louca se se negasse a reconhecer seu estado parasitário. Diria seus pares que pessoas que a acusam não entendem as virtudes de seus atos, com um toque anti-consumo característico dos revolucionários que vestem Ralph Lauren [doado].

Ao menos na notícia restou claro que a ociosa está em descrédito, [in]felizmente não em mesmo patamar de outros vagabundos politizados como Leonardo Boff, Ricardo Gondim e Paulo Freire, este um marco da nossa decadência educacional. Já diziam os economistas austríacos que ocioso é aquele também que promove intelectualmente a vagabundagem (daí a bem vinda discriminação a todo indivíduo que se acha no direito natural em ser custeado). O vagabundo latino, contudo, promove o ócio melhor que ninguém, pois é cara-de-pau e faz a práxis desde os idos getulistas. A alemã em questão ainda é inocente e não entende das estratégias essenciais da luta contra o mercado. Fala do sistema, mas nada muito além das obviedades do colegial. Porém Boff, Freire e até mesmo mulheres pudicas como Marilena Chauí e Marina Silva – para citar figuras popularmente conhecidas – são mestres na promoção da pobreza; o pobre e a ausência de bens materiais é uma virtude até que se diga o contrário: o pobre que sai da pobreza é o homem falho que se debruçou nas luxúrias do consumo.

Por isso acordam eles em prantos todas as manhãs pelas misérias da África? Desconheço. Mas o fato é que não traz ibope afirmar que é mais fácil por lá encontrar um ditador comunista que um empresário. Não obstante saiba você, leitor, que o discurso está com seus dias contados, porquanto diluído em tudo o que se imagina inserto no sistema. Como que transmutado para novos limiares, o que se originou em firmes palavras de maconheiros gringos hoje alarda as emoções de qualquer homem conscientizado. A luta pelo sistema é a luta para melhores justificativas do motivo pelo qual o empreendedor é um homem malvado, degradante e consumista.

Talvez precisemos de mais bondosos estadistas do século XX nestes dias obscuros de tanto apego às coisas materiais.

A maldição do bem comum

Fábio Blanco, aqui.

“O bem se encontra no indivíduo. Nele reside a verdade. Não há nada de real no que é comum, senão a convenção. E esta, invariavelmente, se apresenta como a junção de desejos egoístas e interesses pessoais. Se a verdade apenas pode ser encontrada após um sincero e penoso esforço, não seria uma ilusão esperar que a multidão a possuísse? Por que , então, ainda esperar que algo de bom surgisse do coletivo?

O bem comum é uma maldição e sempre foi homicida. Quando Caifás exclama que convém que morra um só homem pelo povo e que não venha a perecer toda a nação, a maldição sobrepôs-se sobre eles; mataram o próprio Deus e a nação pereceu. Mas a afirmação do sumo sacerdote apenas foi aceita porque fingia preservar a todos. Talvez fosse sincera, provavelmente fruto do zelo sacerdotal. Seu pecado, no entanto, reside no fato de ter como o sentido último da verdade a manutenção da convenção, no caso, uma sociedade sacerdotal montada sobre os desejos humanos, já não correspondentes ao ideal divino há muito prescrito.

Bem mais tarde, vêm os iluministas e seus contratos sociais. Quem é o indivíduo, então, para eles, senão um aglomerado de gente que pode estar do lado dos que detém o poder ou, simplesmente, ser os seus inimigos. Estes, empecilho que eram para o desenvolvimento da nação, obstáculos para o fortalecimento da Razão, verteram seu sangue abundantemente. Milhares de almas sacrificadas em favor de uma ideia que cria-se melhor para todos.

O que não dizer dos Estados coletivistas, criados sobre fundamentos socialistas? Estas nações que, alegando o bem comum e a necessidade do comunismo, sufocaram a individualidade, condenando-a a ser apenas um instrumento do governo? Quem era o homem no socialismo estatal senão um braço ou um corpo servil em prol de uma ideologia que jamais tratou o indivíduo como algo relevante. Tudo para a o Estado, e para seu cidadão apenas o direito de ser seu escravo. Por isso, a morte de milhões, seja na União Soviética, seja na China, não passa de uma necessidade em favor daquilo que trará o bem para todos.

O bem comum despreza a verdade. Isso porque a verdade não pode ser encontrada nos movimentos coletivos. A verdade é encontrada como fruto do esforço de cada homem, do mergulho sincero e laborioso na busca de compreender as razões que se colocam sobre e além da confusão da vista comum. Por isso, é impossível que os povos a descubram. Por isso, toda a decisão baseada unicamente no bem comum está condenada ao erro.

O bem comum despreza o indivíduo. No entanto, Deus se relaciona com indivíduos. Também Cristo afirma a sua importância, quando conta-nos as parábolas da ovelha e da dracma perdidas. São as almas individuais que são julgadas, não os Estados, não as nações. O céu e o inferno são destinos para os homens, não para os países. Quando o bem comum é o fundamento das decisões, quem responderá pelas mazelas causadas. Se a busca é pelo que é melhor para todos, como condenar os que praticam os atos homicidas?

Todas as guerras, morticínios, genocídios e assasinatos estatais foram decididos e aceitos por todos com base no bem comum. Porém, quem deve ser julgados por eles? Apenas Stálin, apenas Mao, apenas Napoleão? E todos aqueles que executaram suas ordens, que promoveram esses malditos atos sem sequer ter suas consciências amortecidas afetadas, estão eles livres de suas culpas, simplesmente porque acreditaram fazer tudo em favor do bem comum? Não sei. O que vejo é que essa maldição faz isso mesmo: exime o indivíduo de sua responsabilidade, transferindo-a para um ente fictício chamado Estado, em prol de algo inatacável segundo seus preceitos: o melhor para todos.

Por isso, o bem comum é a maior arma da tirania. Sempre foi e continuará sendo usada para impor sobre os homens a vontade dos poderosos, hipnotizando as consciências, fazendo-as crer que seus atos são justificáveis quando buscarem o melhor para a coletividade.”