A miséria alheia traz seus confortos

A civilização é como a virtude, e como qualquer virtude há quem se esforce em negá-la. Costumo dizer que o homem civilizado, enfadado pelo cerco da educação e da higiene, cansado dos costumes pautados na etiqueta da reverência social e ansioso em descobrir a veracidade do “bom selvagem”, se esforça em perseguir os recantos do mundo que abraça tais mistérios insaciáveis. Curioso impoluto e amante do desconhecido, é então tentado a estudar a miséria alheia, e ai daquele que abandona tamanha supremacia existencial.

É o caso de José Comblin, que deixou a Bélgica para se deliciar com a pobreza nordestina. Mas Leonardo Boff, amante da miséria, mente descaradamente. Comblin não morreu pobre, como afirma o herege; “morreu em berço esplêndido”, como diz Llosa, ovacionado como profeta por aqueles que veem nos padres a fonte de conhecimento, e de esmolas intermináveis.

Se as catedrais de São Paulo imploram pelos mendigos que são retirados às casas de alimentação – pois como pregar a fome sem seus miseráveis? – Comblin implorava para que a miséria adentrasse a Europa como vereda dos conhecimentos misteriosos do homem pobre. A Europa, berço da civilização e da higiene modernas, deveria retornar à mendigagem para que lhe fossem sanados os anseios do conforto. Pretendem dizer os profetas que o mercado, a indústria e a urbanização – apesar de essencialmente responsáveis pela elevação exponencial da cultura dos povos – retiraram da humanidade sua anterioridade primitiva, elogiada por homens que nasceram nas mãos de médicos conduzidos pela ganância.

Em terra de reis, um louco é tido como louco. Sem qualquer prestígio em um mundo que custou largar as rédeas da barbaridade, a Europa não lhe deu ouvidos como fizemos nós, oprimidos necessitados por “palavras de libertação”. As consequências foram óbvias: relegado a mero intelectual (termo genérico utilizado àqueles considerados filosoficamente inócuos no mundo civilizado), Comblin, nulidade na Bélgica, falece como deus aos pobres da Bahia.

Nasceu em Bruxelas, também chamada a Capital da Arte e da Política, alicerce da Organização do Tratado do Atlântico Norte, recanto da culinária refinada, informalmente a Capital da Europa, e faleceu em Salvador, deduzido por seus colegas um grande teólogo, mas para o resto do mundo mais um que largou o talher para comer com a mão.

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A ausência predita das virtudes individuais

Presenciar um naturalista ingenuamente citar Leonardo Boff é encantador, contudo o desprezo repentino é inevitável e evidentemente humano. Certamente tal ocorre porquanto Boff não consegue separar dissimuladamente sua intenção da escrita, exemplificando a cada palavra o que por detrás há de mais primitivo na ecologia. E se a consideração de Boff como um pagão é automática, a superioridade cultural do cristianismo – ou, leia-se, do Ocidente -, demonstra-se em demasia irrefutável. Ocorre que o autor de diversas pérolas ecológicas não somente escreve e dita os liames do ambientalismo católico-marxista, porém é também caracterizado um filósofo e intelectual apto ao deslinde de todo e qualquer paradigma apocalíptico.

Assim é que Boff, ao afirmar que a Mãe Terra encontra-se estressada, tem a plausibilidade de sua tese minimamente analisada quando o sensato dentro da comunidade filosófica acadêmica seria a sumária descartabilidade. Aquele que lê Tim LaHaye deveria de pronto debruçar-se nos avisos de piedosos como este que cá comento e aquele que lá consegue a proeza de submeter o aquecimento global e a nova era glacial a um mesmo fator retórico.

Afirmo “seria” porque a visão de Boff como intelectual ambientalista está intrincado ao fato de que naturalmente o mesmo age em detrimento da opressividade alheia. Seus argumentos se constroem sob o alicerce de anteriores desgraças meritocráticas, que hão de expressar o problema da igualdade: o igualitarismo, novamente afirmo, é a ausência predita das virtudes individuais.

Eis o perigo daqueles que fundamentam seus anseios nas palavras do ecologista, vez que, de uma forma ou de outra, convergir-se-á  a tese exposta em mera faceta que antecede os argumentos igualitários. Faltam-nos, contudo, autores predispostos em adequar esclarecidamente a relação íntima entre o igualitarismo e o socialismo oriental; ou, retoricamente mais específico, a inevitabilidade da relação apaixonada do igualitarismo e a coisificação do indivíduo, o genocídio da personalidade, o totalitarismo da previsibilidade, uma hipótese sobre por que o nazismo tem a fama pior que o comunismo.

Boff comenta Girard

Em “Um Longo Argumento do Princípio ao Fim”, de René Girard, pia Leonardo Boff:

“Sempre aberto à discussão, o que interessa a René Girard não é defender a sua teoria, mas entender fenômenos novos. E recolher os fenômenos naquilo que são. Creio que isto, no plano das virtudes, exige uma santidade intelectual, um desprendimento de si mesmo em função da realidade”.

Mas Boff não entendeu que, de sua própria tese, há a caracterização evidente do vitimismo e o bode expiatório girardiano. Vítimas são aqueles que na libertação enveredam à oposição e combate da opressão dos impérios, conclamam os piedosos.

Ao atribuir os males da humanidade ao Império do Norte, teólogos da libertação adentram ao que dizem João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello: “Os grupos de hominídeos que aprenderam a instrumentalizar a violência mimética tiveram uma origem comum: a descoberta do mecanismo do bode expiatório, mediante o qual a violência coletiva é canalizada contra uma vítima expiatória” (p. 17).

Triste é observar que pretensos filósofos, assim proclamados pelos seus próprios adeptos, inclinem-se a comentar a magnitude da obra de René Girard.

Cálculo

Ricardo Gondim está para Gramsci, assim como Leonardo Boff está para Deepak Chopra. A diferença é que Boff lança livros e Gondim, auto-ajuda. E também não deixou o cargo que lhe proporciona o pão, apesar de sentir-se constantemente oprimido pelas rédeas do Império. Afinal, ninguém é de ferro.

Tempos obscuros à humanidade

Adentro a livraria e meus olhos infestados em vislumbres aterrorizantes desfocam-se, emparelham-se, lacrimejantes desvirtuam-se atordoados pela pusilânime figura. As lágrimas escorrem soturnas em movimentos singulares, que se finalizam belamente aos salivados lábios trêmulos e inconstantes; mãos seguram o corpo que baqueado ensaia desmaios, convulsões iminentes submergem de uma mente perturbada pelo fato que se aproxima.

Esbarrando em biografias, contos, poesias, aproximo-me da derradeira constatação daquilo que temia: Leonardo Boff, o ambientalista piedoso, jaz na sessão filosófica ao lado de Kant, Friedman, Smith, Hamilton, Nietzsche, Aristóteles! E caio em coma, de olhar estatelado perante a bizarra imagem, esta que sinaliza tempos obscuros à humanidade.