Ivan Karamazov e o perdão do torturador

Tenho para mim que Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, consegue seu ápice nos poucos parágrafos que antecedem O Grande Inquisidor. É algo como uma preparação emocional da dúvida niilista de Ivan Karamazov, o qual tenta dissuadir Aliocha, seu irmão, daquela visão romântica de um pacifismo que aceitaria a absolvição do mais cruel dos torturadores e o esquecimento das dores da vítima indefesa: o causo da criança torturada e morta em frente à sua mãe. Com isso, temos também um prelúdio da ironia de O Grande Inquisidor, quando Jesus Cristo, em sua segunda vinda em plena época inquisitorial, após fazer milagres junto ao povo, é removido, encarcerado e depois condenado à fogueira.

Nesses parágrafos antecedentes Ivan interpela Aliocha sobre a validade do perdão. Ivan Karamazov diz indiretamente a Aliocha que o que importa não é a categoria de arrependimento ou da redenção materna, mas sim a punição de morte daquele que tortura uma inocente criança.

Com isso, Ivan força Aliocha a reconhecer que o caso do sádico que tortura o filho diante da mãe representaria duas vertentes de perdão ou vingança. No sentido de atribuir a conveniência da pena capital, Ivan conduz seu discurso no rancor da mãe que poderia perdoar o torturador de todo o sofrimento por ela sofrido (ou seja, a perda do próprio filho após a tortura), porém nunca poderia perdoar o sofrimento de seu filho decorrente da tortura. Ao que Aliocha, num rompante de indignação, concorda com a aplicação da pena de morte. É a quebra, mesmo que temporária, do pacifismo aliochano, posteriormente recuperado e finalmente posto à prova quando da defesa da criança que outrora lhe agredira com pedradas.

Em O Grande Inquisidor há a demonstração de que talvez Ivan Karamazov não fosse de todo modo um ateu, mas sim um “revoltado”, palavra usada por Aliocha. É o que se lê em vários estudos sobre a obra, apesar da minha percepção pessoal divergente: acredito que a ironia não passou de uma adequação à fé e crença de Aliocha, trazendo-o perante um sarcasmo insuportável.

Isso que, apesar de acreditar na providência divina e na mensagem cristã, renega a ambos e subverte em seus desejos a vingança, o desprezo pelo pai e a intelectualização do parricídio.

É a partir desse momento que temos o esclarecimento da frigidez moral de Ivan e o capítulo que antecede a fatídica conversa com o criado Smerdiákov. A desgraça pairava sobre a família Karamazov, bastando finalmente que tudo se justificasse na teoria, viabilizando a prática.

Os doentes de Dostoiévski

Muitos não gostam de Dostoiévski em vista de seu aparente desprezo ou supervalorização das doenças psiquiátricas, as quais hoje são consideradas até mesmo um traço da pior personalidade. Há quem se chateie com a utilização recorrente das crises epilépticas como uma forma de dissimulação justificada na doença, o que traz ao enredo a desconfiança inicial do doente como se fosse ele próprio uma mancha a ser removida, um erro, um problema.  Notei isso ao encontrar em fóruns de discussão as justificativas pelas quais o russo não teria espaço em algumas prateleiras; a coisa desandou para fatídicas acusações pessoais, como se Dostoiévski falasse a eles próprios.

É ou não excelente literatura?

Isso evidencia ao menos temporariamente a tendência de seus romances na completa descaracterização da vítima, trazendo-a ao campo da igualdade dissimulada e das maldades que circundam os personagens. Em não sendo mera vítima, o doente é ele próprio um dos agentes possíveis da conturbação do enredo criado, senão a maior conturbação: é o assassino, o louco ou o gênio maldoso que não quer ser incomodado e que desde o início permeia os conflitos por sua atuação velada ou pela omissão manipuladora.

Fíodor Pávlovitch tem traço esquizofrênico, depressivo e invasivo; Raskolnikov, em seu saudosismo, é claramente depressivo; Smérdiakov, um psicopata contaminado pela loucura da mãe, a anã em tese estuprada por Fíodor; Dmitri Karamazov, o orgulhoso e hedonista destemperado, mas de “coração bom”; Ivan Karamazov, o intelectual niilista e moralmente frígido, isolado em suas conjecturas; o narrador-personagem de Memórias do Subsolo, o deprimido autoflagelador que encontra os piores erros nos demais, ainda que reconheça em si mesmo a completa decadência.

Não sem motivo Dostoiévski é indicado como um dos fundadores da psicologia moderna. Leiam, se possível, Netochka Nezvanova: a descrição magistral da pré-adolescente que se vê conturbada pelas escolhas mais íntimas, inclusive dos conflitos familiares e amorosos que irão por fim dar cabo à formação de sua personalidade distorcida. Infelizmente um romance inacabado, mas que tinha forças para ser um verdadeiro tratada da formação do caráter.

 

Das citações em latim – Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski

A postagem anterior tentou esclarecer uma citação em latim que fora inserida no corpo do romance ou por meio da tradução de seu significado literal, ou na tradução das notas da edição original. Em ambos os casos houve alteração do texto, apesar de Paulo Bezerra ter seguido à risca a significação latina utilizada por Dostoiévski, sendo melhor tradução que todas as demais consultadas.

Parece-me que citações em latim são recorrentes em Os Irmãos Karamazov, senão em tantas outras obras. Não prometo uma análise sobre cada situação, porém é evidente que as alterações do texto original foram tão comuns em outras traduções que incorreram em invencionices por meio da criação literária deveras irresponsável. Outros casos ainda em Os Irmãos Karamazov são indicados com notas de rodapé traduzidos no melhor estilo “assim disse o autor”, como se não fosse possível a utilização do latim na criação do enredo de maneira premeditada e com objetivo específico.

É evidente que o latim está presente nas situações mais caóticas da obra, indicando nos diálogos certa erudição premeditada de Fíodor Pávlovitch nas respostas mais dissimuladas, desastradas e grosseiras. O narrador explica claramente que Pávlovitch possui extensa biblioteca, apesar de nunca ter sido visto lendo livro algum. Assim, o personagem – pai dos três irmãos Karamazov – não raramente é descrito no decorrer do enredo em rompantes de lucidez e imbecilidade de grosserias pessoais; não me admiraria vê-lo em meio a citações latinas fruto de uma elevação cultural velada, escondida por seu caráter destrutivo e blasfemo.

A sugestão que fica é manter o termo latim tal qual o original, inserindo-se posteriormente uma nota sobre a tradução indireta da terminologia.

Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, e as traduções de Paulo Bezerra e Natália Nunes (e Oscar Mendes): pequenas comparações em português, inglês, francês, espanhol e russo

Não há santo milagreiro no mundo das traduções.

Retiro de Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, com tradução por Paulo Bezerra (Editora 34):

“Era um homem já entrado em anos, e sem nenhuma dúvida, inteligente. Falava com a mesma franqueza que a senhora, embora em tom de brincadeira, mas de uma brincadeira dorida; eu, dizia ele, amo a humanidade, mas me admiro de mim mesmo. Quanto mais amo a humanidade em geral, menos amo os homens em particular, ou seja, em separado, como pessoas isoladas. Em meus sonhos, dizia ele, não raro chegava a intentos apaixonados de servir à humanidade e é até possível que me deixasse crucificar em benefício dos homens se de repente isso se fizesse de algum modo necessário, mas, não obstante, não consigo passar dois dias com ninguém num quarto, o que sei por experiência. Mal a pessoa se aproxima de mim, e eis que sua personalidade já esmaga meu amor-próprio e tolhe a minha liberdade. Em vinte e quatro horas posso odiar o melhor dos homens: este por demorar muito a almoçar, aquele por estar resfriado e não parar de assoar o nariz. Eu, dizia, viro inimigo das pessoas mal elas roçam em mim. Em compensação, sempre acontecia que quanto mais odiava os homens em particular, mais ardente se tornava meu amor pela humanidade em geral”.

Adiante, Editora Abril Cultural (1971), com tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes (1963) oriunda do inglês (conforme a fonte):

“Era um homem de idade madura e verdadeiramente inteligente, exprimia-se tão francamente quanto a senhora, se bem que brincando, mas com tristeza. ‘Eu amo’, dizia ele, ‘a humanidade, mas admiro-me de mim mesmo. Tanto mais amo a humanidade em geral, quanto menos amo as pessoas em particular, como indivíduos. Muitas vezes tenho sonhado apaixonadamente em servir à humanidade, e talvez tivesse verdadeiramente subido ao calvário por meus semelhantes, se tivesse sido preciso, muito embora não possa viver com ninguém dois dias no mesmo quarto. Sei-o por experiência. Desde que alguém está junto de mim, sua personalidade oprime meu amor próprio e constrange minha liberdade. Em 24 horas, posso mesmo antipatizar com as melhores pessoas, uma, porque fica muito tempo na mesa, outra, porque está resfriada e só faz espirrar. Torno-me o inimigo dos homens; apenas se acham eles em contato comigo. Em compensação, invariavelmente, quanto mais detesto as pessoas, tanto mais ardo de amor pela humanidade’.”

Repito, e basta uma simples pesquisa para que se constate: uns dizem que a tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes originou-se do inglês; outros, do francês. O apontamento à tradução oriunda do francês é minoritária e geralmente ocorre nas anotações de registro de obras que não possuem as informações completas de editoração (informação repetida nas notas “técnicas” da imprensa, a exemplo da Folha de São Paulo).

A L&PM, por exemplo, sequer citava a origem da tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes, muito embora a estrutura fosse idêntica à tradução reconhecidamente proveniente do inglês de outras e mais antigas edições. Com isso, tem-se por aí que essa edição teria tradução do francês (o que é obviamente um erro técnico).

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É caso ainda mais grosseiro que determinados sites especializados digam que Natália Nunes é brasileira e que teria prestado grande serviço às traduções do russo. Primeiro, Natália Nunes é portuguesa; segundo, não há registro algum de consultas aos originais russos, mas a já dita origem inglesa [ou francesa] de todas e quaisquer outras traduções.

Cheguei a cogitar ingenuamente que esses enganos de tradução viessem de obras traduzidas indiretamente do inglês e outras obras traduzidas indiretamente do francês, pela mesma Natália Nunes. Hoje, tenho ciência de que o mercado brasileiro, no que se refere às traduções, é uma verdadeira zombaria de falsificação de nomes e atribuições criminosas de plágios a terceiros, o que instiga as aventuras técnicas em detrimento daqueles que prestaram os nobres serviços de tradução real.

Falando da tradução em si, aquela prolixidade lusitana costuma aparecer no decorrer da obra, o que favorece em diversos diálogos certa confusão entre narrador e narrativa, personagem falante e o personagem ouvinte. Pode parecer besteira, mas diálogos de duas laudas ditos por um único personagem, com interrupções do autor-narrador, são facilmente embaralhados em suas traduções.

Determinadas palavras também não foram bem utilizadas, apesar de não ser problema unicamente de Natália Nunes [e Oscar Mendes]. Dou como exemplo “malgrado”, palavra utilizada às vezes duas, três, quatro vezes no mesmo discurso ou parágrafo. Não obstante, Paulo Bezerra cometeu o mesmo vício com a palavra “súbito”.

De Natália Nunes [e Oscar Mendes]:

Torno-me o inimigo dos homens; apenas se acham eles em contato comigo.

De Paulo Bezerra:

Eu, dizia, viro inimigo das pessoas mal elas roçam em mim.

O diminutivo é praticamente descartado na tradução de Natália Nunes [e Oscar Mendes], apesar da sabida técnica de Dostoiévski em atribuir, em vários de seus contos e romances, certa ternura na narrativa através da infantilização discursiva proposital e repetições de palavras específicas na indicação de um diálogo infantil.

Paulo Bezerra:

Fiódor Pávlovitch soube da morte da esposa bêbado; dizem que saiu correndo pela rua e começou a gritar, levantando os braços para o céu tomado de alegria: “Agora me deixas livre!”; mas, conforme outros contam, soluçava como uma criancinha, e tanto que, segundo dizem, dava até pena olhar para ele, a despeito de todo o asco que tinham dele.

Natália Nunes [e Oscar Mendes]:

Fiádor Pávlovitch estava bêbado, quando lhe anunciaram a morte de sua mulher; conta-se que correu para a rua e se pôs a gritar, na sua alegria, de braços levantados para o céu: “Agora, deixa morrer o teu servo”. Outros pretendem que soluçava como uma criança, a ponto de causar pena vê-lo, malgrado a aversão que inspirava.

O que era “Agora, deixa morrer o teu servo” – que me forçou numa época mais ignorante a imaginar uma tendência de Pávlovitch a ser capacho de amantes e esposas -, tornou-se “Agora me deixas livre!”, fazendo algum sentido a angústia do velho dissimulado.

Paulo Bezerra, contudo, parece que também andou comendo algumas moscas.

Desconheço a fonte da edição inglesa utilizada por Natália Nunes, mas a divergência parece se justificar pela tradução inglesa – direta do russo – feita por Constance Garnett:

Fyodor Pavlovitch was drunk when he heard of his wife’s death, and the story is that he ran out into the street and began shouting with joy, raising his hands to Heaven: ‘Lord, now lettest Thou Thy servant depart in peace,’ but others say he wept without restraint like a little child, so much so that people were sorry for him, in spite of the repulsion he inspired.

Digamos que na pior das hipóteses houve uma divergência explícita no sentido do original russo, pois não me espantaria uma eventual tradução em que o sujeito da oração fosse a esposa, e não Pávlovitch; mas quem se familiariza com a estrutura dessa frase sabe que o arcaísmo linguístico provém das melhores versões bíblicas.

Visando esclarecer o imbróglio, persegui uma edição em espanhol e vi que a coisa pareceria desandar a Paulo Bezerra, tendo em conta a anotação de que a palavra “servo” se referiria ao Evangelho de Lucas, capítulo 2, verso 29 (NVI): Agora, Senhor, cumpriste a promessa que fizeste e já podes deixar este teu servo partir em paz.”

Na versão Almeida Revista e Corrigida: “Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo.”

Vejam agora a tradução espanhola:

Fiodor Pavlovitch estaba ebrio cuando le dieron la noticia de la muerte de su esposa, y cuentan que echó a correr por las calles, levantando los brazos al cielo y gritando alborozado: «Ahora, Señor, ya no retienes a tu siervo». Otros aseguran que lloraba como un niño, hasta el punto de que daba pena verle, a pesar de la aversión que inspiraba.

Da edição francesa:

Fiodor Pavlovitch était ivre lorsqu’on lui annonça la mort de sa femme ; on raconte qu’il courut dans la rue et se mit à crier, dans sa joie, les bras au ciel : Maintenant, Seigneur, tu laisses aller Ton serviteur. D’autres pré- tendent qu’il sanglotait comme un enfant, au point qu’il faisait peine à voir, malgré le dégoût qu’il inspirait.

Paulo Bezerra não quis imputar sobre a situação a origem bíblica da oração dostoievskiana? Será que devo começar a me preocupar com eventuais máculas propositais na tradução de Bezerra? Proposital pois que não me é razoável que outras diversas traduções versem um idêntico erro, todas elas provenientes igualmente da mesma origem russa, segundo consta.

Nem um, nem outro; todas as traduções não seguiram o texto original, que assim diz:

Федор Павлович немедленно захлопотал и стал собираться в Петербург, — для чего? — он, конечно, и сам не знал. Право, может быть, он бы тогда и поехал; но, предприняв такое решение, тотчас же почел себя в особенном праве, для бодрости, пред дорогой, пуститься вновь в самое безбрежное пьянство. И вот в это-то время семейством его супруги получилось известие о смерти ее в Петербурге. Она как-то вдруг умерла, где-то на чердаке, по одним сказаниям — от тифа, а по другим — будто бы с голоду. Федор Павлович узнал о смерти своей супруги пьяный; говорят, побежал по улице и начал кричать, в радости воздевая руки к небу: «Ныне отпущаеши», а по другим — плакал навзрыд как маленький ребенок, и до того, что, говорят, жалко даже было смотреть на него, несмотря на всё к нему отвращение.

“Ныне отпущаеши” é “Nunc Dimittis“, que tem sobre si a seguinte anotação na edição original russa, traduzida ao inglês:

[…] “Nunc Dimittis” – According to the Gospel, the words of the righteous and pious Simeon, whom he greeted in the temple the Christ child and his parents: “Now dismiss thy servant, O Lord , according to thy word, in peace … “(Luke, Ch. 2, Art. 29).

“Nunc Dimitris” seria a grosso modo algo como “Now release”.

Parece-me que o engano caiu da escada neste simples e inocente causo, rolando sucessivamente por sobre outras traduções. Estranhamente, e muito estranhamente, além das traduções também aqui já citadas, outras mais não fizeram a reposição literal da expressão latina, mas traduziram-na por meio de um entendimento de notas do original russo como se fossem repetições umas das outras. Intrigantemente não houve em canto algum da edição da Editora 34 idêntica tradução da nota de rodapé de indicação da passagem bíblica, não obstante outras edições possuírem a informação ainda que aproximada do original russo.

A minha birra talvez seja pontual: há de fato outras dezenas de passagens em que Bezerra reproduz a nota de rodapé, sendo mais provável que a edição por ele utilizada do original russo não contivesse tal referência.

Serei honesto: se quis Dostoiévski dizer algo em latim, traga o tradutor o latim à mesa ao invés de fazer uma releitura discursiva do significado. Nisso tudo a bagunça é menor no quarto de Bezerra, porém um verdadeiro caos nas outras traduções. Isso porque o erro claramente foi seguido sem questionamentos, traduzido de maneira imperiosa, mudando o texto original e, por fim, levando o leitor a imaginar que Dostoiévski escrevera uma sentença bíblica inteira quando assim não o fez.

A tradução direta de Paulo Bezerra traduziu o latim, enquanto que outras traduções estrangeiras repetiram a tradução da explicação de uma nota editorial colocada no corpo do texto literário tal qual expressão original. Por fim, o erro também foi seguido por Natália Nunes em sua tradução indireta do inglês.

Talvez confiasse Bezerra de que os leitores acompanhariam cegamente sua advertência inicial de que seguiu à risca a escrita de Dostoiévski, sem titubeios. Ora, à risca não foi, sr. Paulo Bezerra.

Imagine agora, caro leitor, o estrago em ter coisa do tipo em Fausto de Goethe.

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Sobre a edição de Liev Tolstói e o “milagre da simplificação” da tradução direta

Àqueles que perguntaram, pretendo lançar comparações de Liev Tolstói na edição da Cosac Naify, ano 2015, “Contos Completos”, adquirida por mim recentemente. A tradução é por Rubens Figueiredo, tendo sido realizada diretamente do russo.

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Torna-se inviável a comparação de contos desconhecidos, até porque há nessa edição fábulas e microcontos nunca lançados na língua portuguesa. Com isso, serei forçado a me ater aos contos mais conhecidos, a exemplo de Gente Pobre [Pobres Gentes] que salvo engano se encontra no terceiro volume da coletânea. Desconheço edições com traduções indiretas oriundas do inglês, mas aquelas traduzidas do francês dominaram por tanto tempo o mercado editorial que são facilmente achadas em qualquer sebo.

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Liev Tolstói está melhor servido no mercado: a obra Anna Karênina, por exemplo, já havia sido traduzida diretamente do russo por Rui Lemos de Brito, em edição da década de 1950, e outras tantas de Guerra e Paz, disponíveis em várias livrarias. Exemplares da Cosac Naify continuam em impecável qualidade de revisão e editoração, com traduções também por Rubens Figueiredo.

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O esforço maior na leitura de Tolstói se dá pelo já dito “milagre da simplificação”, conquanto as edições de traduções diretas retiraram a erudição das traduções indiretas, inclusive na redução de diálogos redundantes, repetitivos e prolixos. Aliás, se você um dia se deparar com a crítica [recorrente] de prolixidade de Tolstói, antecipe melhor a observação sobre as condições de tradução, sua origem etc. 

Um de meus primeiros contatos com Liev Tolstói se deu por análises absurdas de que sua maestria na narrativa se comparava a Goethe, no sentido de que a leitura deveria ser atenta ao máximo; ou seja, aquela atenção devida nas minúcias do enredo, sob pena de um prejuízo irrecuperável do todo.

Quem já leu o mínimo do russo sabe que tal comparação é no mínimo ridícula.

Não raro se vê por aí, inclusive em críticas literárias, que Tolstói possui uma “simplicidade mascarada”, algo como sutilezas tais que enganam o leitor diante de um desdobrando narrativo repentino e que passa batido perante o leitor incauto. Se a culpa recai sobre os tradutores, é o que veremos.

A prioridade, contudo, será dada a Dostoiévski: primeiro, porque possuo mais exemplares de comparação; segundo, porque prefiro Dostoiévski a Tolstói.

Ainda as traduções e como reler O Grande Inquisidor de forma satisfatória

Parece-me que o experimentalismo literário [a síndrome do eterno Saramago, depois do enjoo] e seus contornos bizarros de certa inovação da escrita contaminou alguns tradutores, fazendo-os sucumbir diante da necessidade em criar do nada expressões inimagináveis na narrativa original. Sequer falo da moda antiga em imputar o regionalismo brasileiro em literatura inglesa – ou, pior, regionalismo latino em cultura russa -, mas sim naquela verborragia de palavras que ninguém usa substituindo frases comuns e ordinárias utilizadas na narrativa original. Fico pensando se o tradutor, ao fazer tamanho malabarismo, não quis de certa forma avançar no mundo criativo ao colocar sobre seus ombros o dever de ser, ele mesmo, lido enquanto “gênio”. Ora, ninguém (não conheço pessoa alguma) lê livro algum imaginando que determinada narrativa fora uma construção magistral do tradutor – e não do autor. Parece-me contudo que dizer o óbvio pode trazer a uma certa casta a chateação mais imatura, como se eu me importasse com isso.

Ato contínuo: a edição de 1971 de Os Irmãos Karamazov possui erro parecido e irei apontá-lo na coletânea que pretendo registrar neste espaço. Adianto desde já que tomo Bezerra como parâmetro da boa e melhor tradução, porque não vi até o momento nada que desabone seus serviços. E para não dizer que ando falando de um único trabalho, tenho aqui ao meu lado também Crime e Castigo, a próxima leitura, também traduzido diretamente do russo por Paulo Bezerra.

Outro adendo: dispenso as análises de erros pontuais em determinadas palavras, pois cabe ao revisor corrigir o “as” que sai “sa” e o “porém” sem acento. Alguém que considera tais equívocos também erros insuperáveis de tradução [o que exime vários tradutores indiretos, leia-se] merece não mais que um sorriso de canto de boca enquanto fala sozinho às paredes.

Agora, se querem de fato saber os abismos que separam as traduções, se querem tomar por base o estrago que faz a tradução indireta, a péssima tradução, aquela mais inventiva, lúdica, “erudita”, basta comparar o capítulo O Grande Inquisidor para que tudo fique muito claro e evidente. É também o que farei num futuro próximo, principalmente para mostrar que o tradutor, seduzido por sua crença, pode vir a tentar mascarar a intenção do autor por meio da supressão de termos específicos e muito bem delineados, enquanto se desculpa na cortina de fumaça de sua “interpretação da língua original”.

Impossível imaginar a inocência de um tradutor que faz mudanças tão drásticas.

Fico ainda mais tranquilo, pois tenho aqui uma tríade de comparação que me exime de qualquer problema: uma edição traduzida do russo, outra do inglês e ainda outra do francês. Intrigantemente, possuo duas outras edições físicas, dos mesmos tradutores, editadas com décadas de diferença, sem informação de revisão (não achei em canto algum), cujas traduções são escancaradamente distintas.

Um verdadeiro mistério editorial com motivos que já desconfio.

Dostoievski, Tolstói, Bruno Schulz e os problemas das traduções artificiais, indiretas e fabricadas

Mais uma vez (a quarta) ando relendo Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, e mais uma vez me deparo com o ensino magistral do trecho seguinte:

“Era um homem de idade madura e verdadeiramente inteligente, exprimia-se tão francamente quanto a senhora, se bem que brincando, mas com tristeza. ‘Eu amo’, dizia ele, ‘a humanidade, mas admiro-me de mim mesmo. Tanto mais amo a humanidade em geral, quanto menos amo as pessoas em particular, como indivíduos. Muitas vezes tenho sonhado apaixonadamente em servir à humanidade, e talvez tivesse verdadeiramente subido ao calvário por meus semelhantes, se tivesse sido preciso, muito embora não possa viver com ninguém dois dias no mesmo quarto. Sei-o por experiência.

Desde que alguém está junto de mim, sua personalidade oprime meu amor próprio e constrange minha liberdade. Em 24 horas, posso mesmo antipatizar com as melhores pessoas, uma, porque fica muito tempo na mesa, outra, porque está resfriada e só faz espirrar. Torno-me o inimigo dos homens; apenas se acham eles em contato comigo. Em compensação, invariavelmente, quanto mais detesto as pessoas, tanto mais ardo de amor pela humanidade’.”

Trata-se do excerto da edição de 1971 da Editora Abril, com tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes (1963) oriunda do inglês*, apesar de várias fontes definirem que a tradução em verdade decorrera da língua francesa. Essa divergência ocorre em várias edições pelo simples motivo de que em muitas delas não há, em canto algum, a definição da língua de origem utilizada pelo tradutor nas anotações de publicação, mas sim uma informação de rodapé, como se fosse um detalhe sem importância ao leitor. Portanto, não me culpem. Não ficaria espantado se tudo não passasse de um desleixo editorial numa época em que a supressão de partes inteiras das obras era implementada para que se resumisse o material de impressão.

Atualmente desfruto da obra por meio da tradução do russo de Paulo Bezerra (2008), Editora 34, cuja diagramação, espaçamento e materiais empregados foram cuidadosamente escolhidos. A sensação é de que leio Os Irmãos Karamazov pela primeira vez, principalmente devido à tradução de Bezerra que mostra ao leitor o estilo de escrita de Dostoievski, tais quais as repetições de palavras pela técnica da ênfase discursiva; repetições de expressões na simulação do diálogo regionalizado e transcrição das notas das edições russas que explicam o motivo pelo qual determinada situação fora utilizada pelo escritor – menções a fatos da época que chocaram a sociedade russa, escândalos pessoais etc. Nesse ponto, a imersão no estilo é completa e antecipa já nas primeiras páginas que estaremos diante da reprodução fiel também dos ditos “erros de cadência da escrita criativa” tão criticados pela teoria literária, como se a repetição fosse ela mesma um erro de produção da pior literatura e não uma estrutura premeditada da narrativa.

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É certo que as traduções oriundas do inglês ou francês não expressam a vivacidade da escrita de Dostoiévski, sequer sua ênfase romântica nos diálogos que transcrevem em palavras até mesmo os suspiros dos personagens. A impressão que tenho é de uma retaliação à simplicidade discursiva do russo, como se a tradução tivesse na pomposidade artificial e fabricada seu maior triunfo. Aliás, falo da tal pomposidade enquanto vício, premeditada, visivelmente colocada em tal situação apenas para transparecer certa erudição não vista na obra original. Fosse eu realmente criterioso, diria que tal pomposidade visa esconder a deficiência da tradução em si, impossibilitada em fornecer ao leitor os sentimentos da obra original. Mas não sou criterioso: apenas acho que a terceirização de qualquer tradução macula o andamento da escrita original ao ponto de forçar o tradutor a remendar expressões ou suprimir palavras em diálogos para que seu trabalho se torne inteligível.

E também não sou egoísta: Liev Tolstói sofreu da mesma doença por décadas a fio, quando suas traduções do francês mais faziam de seus contos uma reprodução de expressões francesas absolutamente redundantes (na melhor forma da língua francesa), naquela sobrevalorização da mesma pomposidade conhecida das traduções dostoievskianas igualmente provenientes do francês. Eis que a máscara faustiana depois se transformou, como mágica, na mais tênue simplicidade quando resolveram traduzir Tolstói diretamente do russo.

A complexidade milagrosamente deixou de existir, pois que existia apenas na cabeça do tradutor.

Todavia – assumo – hoje evito as traduções indiretas do francês de quaisquer obras, principalmente daquelas para lá do centro europeu. O polonês Bruno Schulz, quando então traduzido diretamente do polaco, apareceu no mundinho brasileiro na beleza de suas descrições que, caso então contaminadas por aquela solenidade francesa, perderia inevitavelmente a tenacidade.

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Quanto mais noto tais discrepâncias de tradução mais fico convencido de que os embaraços artificiais, aquela complexidade inexistente e forçada antes serve à erudição latinizada; melhor, à erudição das línguas latinas que preferem transformar a literatura de época numa literatura shakespeareana.

Vejam bem: tal circunstância não é um erro se a escrita original assim quis, mas devemos assumir de igual modo que não era esse o espírito da literatura russa do século XIX. O alento de minha crítica a essas traduções parte da ideia de que a língua francesa tem por si só a complexidade na sua estrutura linguística, mesmo que enfadonha.

Basta ao leitor contudo se deparar com as traduções do russo ao inglês para perceber que do inglês não há resquício de erudição fabricada, daquela mesma pomposidade dos idos franceses. Qual seria então o resultado da equação, quando das traduções do inglês ao português reaparecem milagrosamente uma erudição deveras irrazoável e acadêmica? Buscou o tradutor “expressar uma época”, “transcrever o formalismo da língua culta escrita” mesmo que inexistente na obra original? Buscou ele nos ensinar a como ler?

Ora, isso não é apenas readequar a linguagem, mas falsificá-la; a pior falsificação, aquela que transcende a obra original e que faz da tradução o protagonista que incomoda o leitor; a farpa no olho quando se percebe que determinado diálogo ou discurso ínsito à ambientação criada pelo autor fora descartado em benefício do eruditismo artificial. Com isso, não espero de forma alguma que não ocorram erros substanciais nas traduções dos originais; não sou purista no que se refere ao sentimento do autor. Mas não me venha um tradutor dizer que a frase simplista do original merece um rebuscamento imposto por sua tendência em ver em determinada obra o ensino errático da língua arcaica.

Proponho no futuro fazer algumas comparações nas traduções, a começar por aquela lá em cima. Serão trechos emblemáticos e por vezes citados e recitados na unanimidade, ainda que sobre uma ou outra tradução ocorram alterações fundamentais de sentido.

Antes, se querem mesmo saber a que veio o abismo das traduções, leiam por gentileza o excelente “Não gosto de plágio”, em especial este artigo.

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