Próxima leitura – Os Demônios

Irei iniciar minha segunda leitura de Os Demônios, de Dostoiévski, a partir da tradução de Paulo Bezerra. Certamente a leitura não será como a primeira; as traduções de Bezerra costumam ter qualidade espetacular. Mas tomando por base a índole do tradutor, é certo que irei encontrar algumas surpresas pela obra. Aliás, pincelando o livro, é evidente o excesso de notas de rodapé.

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É verdade que todo tradutor comunista tenta impor na tradução sua vontade de mundo, e duvido veementemente que será diferente em Os Demônios. Paulo Bezerra, além de tradutor, quer também quer ser chamado de intelectual.

Irei destrinchar a obra e estarei atento às artimanhas de Bezerra. Aliás, lendo algumas resenhas, já foi dito que Bezerra tenta educar o leitor naquilo que não disse o autor.

 

 

 

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José Saramago, o transgressor

A instrumentalização, o experimentalismo, a modernização artificial, aquela plastificação literária em que nos submetem vários escritores parte do equívoco de que o crivo literário de genialidade (o mesmo crivo que fundou os imortais da literatura) seria idêntico ao crivo artístico da arte moderna, em que a contaminação artística ocorre por meio das boas intenções do experimentalista. Dizem por aí que a genialidade de José Saramago, ditada em meio a prêmios de academias, foi esquecida. Esquecera-se de seu imperioso estilo em que a escrita não mais importava, mas sim sua forma e sua transgressão. 

Se é de rigidez extrema atribuir qualquer transgressão aos sentimentos adolescentes, não é de igual modo injusto dizer que em apenas seis anos o que era genialidade se transformou em algo estranho, bizarro, moderno, juvenil. Talvez o risco dessa aventura experimentalista, na literatura, seja de certo modo um tiro no pé naqueles que já vivos se sentem e se chamam “imortais” nas cadeiras de entrevistas televisivas.

A “maldição do dia seguinte ao Prêmio Nobel” foi mais uma vez travada.

O meu problema com José Saramago é estritamente pessoal. Depois que vi comparações com William Faulkner (ditados por um crítico, com aquiescência do próprio) é que tomei coragem para dizer que Saramago escreve mal, muito mal. Fiz todos os esforços possíveis; li o que deveria ser lido, e encontrei maior transgressão no idoso sentado ao bar, fumando um cigarro, enquanto esclarece as conspirações do mundo. Encontrei maior transgressão em As Aventuras de Pinóquio, de Collodi, que aliás se relançado enquanto conto adulto teria espaço em mais prateleiras. Maior transgressão também existe em qualquer conto de Bruno Schulz, o qual não necessitou estuprar a escrita para de fato transgredir com sua simplicidade.

Maior transgressão há em compará-lo com a genialidade de Faulkner.

Portanto, a minha tese é de que a qualidade de fato não importava. Importava que se fizesse crer ao leitor que tudo estava sendo questionado, inclusive sua inteligência; que se dava mais importância à “linguagem” e que o narrador era secundário diante do “problema maior”. Diante disso, de fato não há o que dizer sobre a qualidade literária: José Saramago sempre teria sido um gênio inaudito, mesmo que sua escrita fosse sofrível.

Pegar seus textos e fazer uma crítica qualitativa do enredo é inútil. Apareceria o fantasma do defunto, cutucando-o com seus finos dedos, dizendo ao pé de seus ouvidos em meio aos calafrios: “deixe isso de lado; importe-se com o todo, com a linguagem, importe-se com a minha missão em dizer certas coisas por linhas tornas“.

Saramago é o Paulo Coelho deles.

Caderno rabiscado

Talvez seja verdade que a escrita manual habilite ao escritor novas formas criativas, como se a lentidação da formação das palavras desse a oportunidade de prever e estudar o que vem a seguir. Não obstante a preguiça na escrita cursiva, é certo que a rapidez da digitação corrobora erros sucessivos facilmente corrigidos pela “anulação da palavra”, quando o ideal seria refletir se o erro anterior (por exemplo, um diálogo irrelevante) não foi fruto de uma disposição do narrador em trazer à trama algo a ser contado de forma diversa. Não vejo qualquer saudosismo nos cadernos rabiscados, muito embora reconheça que a análise, pelo escritor, de sua própria obra tenha melhor aproveitamento nos erros que podem ser a qualquer momento consultados, ponderados e reestudados. E reecontrar velhos erros é o passo essencial ao escritor que lê coisas antigas e as repele por serem “de outra época”.

Leandro Karnal e o teatro

Leandro Karnal é o exemplo mais categórico de como a bela retórica antecipa a intelectualidade. Após dezenas de vídeos de palestras e entrevistas assistidas, toda aquela beleza discursiva e de aparente filosofia se esvai como um sopro no pó de piadas, reflexões, tiradas, sarcasmos e citações repetidas, repetidas e repetidas. No primeiro vídeo, um gênio; no último, um demagogo cansativo. Pego então seu mais recente livro e percebo uma velha verdade: o abismo que separa a retórica falada da retórica escrita, quando então as ideias transmitidas não estão carregadas pela cadência de sua voz, pausas propositais antes de uma ironia proposital, expressões faciais certeiras, exemplos absolutamente desconexos para incutir em seus ouvintes qualquer falácia. Ou seja, um excelente palestrante, mas da boa escrita passa longe. Fala da importância da tolerância efusivamente como se não fosse o assunto de qualquer esquina; condena o consumismo, como se não fosse a reflexão mais básica de qualquer conversa de bar; fala de racismo, como se estivesse contando uma novidade; elogia a democracia, pois imagina que sua multidão a condena; sobre as questões políticas, repete o que diz qualquer professor universitário. Seus estudos sobre Shakespeare salvam-no da autoajuda consumada.  Basta colocá-lo ao lado de Mário Ferreira dos Santos para que se tenha, em pouquíssimo tempo, toda a clareza do que é ser palestrante ou professor, e o que é ser historiador de filosofia ou filósofo; líder de palestras ou mestre discente.

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Existe uma tríade de personagens caricatos, envoltos em temas filosóficos, que seguem o caminho de palestras de autoajuda, muito embora reneguem tal ofício até a morte: Mário Sergio Cortella, Clóvis de Barros Filho e Leandro Karnal. Dizem-se, recorrentemente, filósofos, ainda que nunca se tenha visto um filósofo que não produza filosofia. Perguntados, respondem: “sou um filósofo”. Novamente questionados: “sou um filósofo”, após citar seus caminhos na academia. Depois, passam por meio do discurso a embaralhar conceitos rasos no fito de espantar a plateia, quando então todos acenam com a cabeça: “de fato, um excelente filósofo”.

E todos depois saem satisfeitos com o teatro.

As anotações de Paulo Bezerra

Paulo Bezerra, como bom comunista, investe nas “notas do tradutor” em Os Demônios como quem nada quer, imputando até mesmo um sentimento a Dostoiévski. Tenta ele nos convencer de que quem fala é o autor russo e não seu personagem. Anota os fatos históricos com dicas de que aparentemente Dostoiévski apoiava tais fatos quando, opostamente, os criticava; diz que o russo ironizou (e não o próprio personagem literário) isso ou aquilo ao utilizar determinada expressão. Coloca na boca de Dostoiévski a responsabilidade por todo e qualquer diálogo dos personagens literários, em contradição àquele mesmo cuidado com os diálogos de Os Irmãos Karamazov. Parece-me que Os Demônios incomodou os trabalhos de Bezerra; talvez tenha se imaginado na pele daqueles intelectuais. 

De qualquer modo, a qualidade continua impecável: basta que não se dê ouvidos às baboseiras afirmadas por Paulo Bezerra, certamente uma interferência na leitura que coça os olhos de qualquer leitor que conhece a fama dos tradutores socializados e “amantes da humanidade”.

Ivan Karamazov e o perdão do torturador

Tenho para mim que Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, consegue seu ápice nos poucos parágrafos que antecedem O Grande Inquisidor. É algo como uma preparação emocional da dúvida niilista de Ivan Karamazov, o qual tenta dissuadir Aliocha, seu irmão, daquela visão romântica de um pacifismo que aceitaria a absolvição do mais cruel dos torturadores e o esquecimento das dores da vítima indefesa: o causo da criança torturada e morta em frente à sua mãe. Com isso, temos também um prelúdio da ironia de O Grande Inquisidor, quando Jesus Cristo, em sua segunda vinda em plena época inquisitorial, após fazer milagres junto ao povo, é removido, encarcerado e depois condenado à fogueira.

Nesses parágrafos antecedentes Ivan interpela Aliocha sobre a validade do perdão. Ivan Karamazov diz indiretamente a Aliocha que o que importa não é a categoria de arrependimento ou da redenção materna, mas sim a punição de morte daquele que tortura uma inocente criança.

Com isso, Ivan força Aliocha a reconhecer que o caso do sádico que tortura o filho diante da mãe representaria duas vertentes de perdão ou vingança. No sentido de atribuir a conveniência da pena capital, Ivan conduz seu discurso no rancor da mãe que poderia perdoar o torturador de todo o sofrimento por ela sofrido (ou seja, a perda do próprio filho após a tortura), porém nunca poderia perdoar o sofrimento de seu filho decorrente da tortura. Ao que Aliocha, num rompante de indignação, concorda com a aplicação da pena de morte. É a quebra, mesmo que temporária, do pacifismo aliochano, posteriormente recuperado e finalmente posto à prova quando da defesa da criança que outrora lhe agredira com pedradas.

Em O Grande Inquisidor há a demonstração de que talvez Ivan Karamazov não fosse de todo modo um ateu, mas sim um “revoltado”, palavra usada por Aliocha. É o que se lê em vários estudos sobre a obra, apesar da minha percepção pessoal divergente: acredito que a ironia não passou de uma adequação à fé e crença de Aliocha, trazendo-o perante um sarcasmo insuportável.

Isso que, apesar de acreditar na providência divina e na mensagem cristã, renega a ambos e subverte em seus desejos a vingança, o desprezo pelo pai e a intelectualização do parricídio.

É a partir desse momento que temos o esclarecimento da frigidez moral de Ivan e o capítulo que antecede a fatídica conversa com o criado Smerdiákov. A desgraça pairava sobre a família Karamazov, bastando finalmente que tudo se justificasse na teoria, viabilizando a prática.

Os doentes de Dostoiévski

Muitos não gostam de Dostoiévski em vista de seu aparente desprezo ou supervalorização das doenças psiquiátricas, as quais hoje são consideradas até mesmo um traço da pior personalidade. Há quem se chateie com a utilização recorrente das crises epilépticas como uma forma de dissimulação justificada na doença, o que traz ao enredo a desconfiança inicial do doente como se fosse ele próprio uma mancha a ser removida, um erro, um problema.  Notei isso ao encontrar em fóruns de discussão as justificativas pelas quais o russo não teria espaço em algumas prateleiras; a coisa desandou para fatídicas acusações pessoais, como se Dostoiévski falasse a eles próprios.

É ou não excelente literatura?

Isso evidencia ao menos temporariamente a tendência de seus romances na completa descaracterização da vítima, trazendo-a ao campo da igualdade dissimulada e das maldades que circundam os personagens. Em não sendo mera vítima, o doente é ele próprio um dos agentes possíveis da conturbação do enredo criado, senão a maior conturbação: é o assassino, o louco ou o gênio maldoso que não quer ser incomodado e que desde o início permeia os conflitos por sua atuação velada ou pela omissão manipuladora.

Fíodor Pávlovitch tem traço esquizofrênico, depressivo e invasivo; Raskolnikov, em seu saudosismo, é claramente depressivo; Smérdiakov, um psicopata contaminado pela loucura da mãe, a anã em tese estuprada por Fíodor; Dmitri Karamazov, o orgulhoso e hedonista destemperado, mas de “coração bom”; Ivan Karamazov, o intelectual niilista e moralmente frígido, isolado em suas conjecturas; o narrador-personagem de Memórias do Subsolo, o deprimido autoflagelador que encontra os piores erros nos demais, ainda que reconheça em si mesmo a completa decadência.

Não sem motivo Dostoiévski é indicado como um dos fundadores da psicologia moderna. Leiam, se possível, Netochka Nezvanova: a descrição magistral da pré-adolescente que se vê conturbada pelas escolhas mais íntimas, inclusive dos conflitos familiares e amorosos que irão por fim dar cabo à formação de sua personalidade distorcida. Infelizmente um romance inacabado, mas que tinha forças para ser um verdadeiro tratada da formação do caráter.