A serenidade de Júlio Justino

Júlio Justino acordou decidido: revidaria tamanha desfeita. Encharcado de suor após o estado febril de uma noite mal dormida, trêmulo das mãos, ofegante e irresignado, com os olhos fundos de um choro reprimido, não esquecera do tal Antônio Sávio, funcionário de crachá amarelado que não inclinado à importância de seu problema o advertira no dia anterior: “volte na segunda-feira e então seu problema será resolvido”. É bem verdade que Justino não esperava qualquer trato mais rude vindo de um funcionário público, muito embora não pudesse prever a desídia que apunhalou seus anseios mais nobres e a honra de um homem que saíra de casa apenas para resolver pendências burocráticas.

Tudo se deu numa chuvosa sexta-feira de final de mês, época em que afloram nos homens mais viris a tendência à autocomiseração. De fato, tomando o ônibus que seguia ao centro, Júlio Justino não evitou os resmungos de quem abandonara os afazeres de maior importância, como limpar o próprio jardim e dar alimento aos animais abandonados. Tratar de assuntos chatos costuma trazer a Júlio Justino o peso do comprometimento; preferiria certamente tomar um café ao lado de um bom livro. A imaginação de qualquer circunstância que lhe trouxesse o esmaecimento de seu amor pela humanidade era algo que o atordoava constantemente. Não poderia deixar apagar, de forma alguma, a chama da figalguia: manter-se nobre era antes de tudo manter-se dentro de casa e longe da ralé.

Naquela fatídica sexta-feira de final de mês, já na recepção Justino notara a presença de Antônio Sávio: homem opulento de trejeitos espalhafatosos, cujos olhos avermelhados e unhas encardidas indicavam outras debilidades.

“Talvez esteja doente de tanto ócio”, pensou Justino ao sentar-se nas cadeiras vazias da repartição ao perceber que o funcionário público, prestes a atendê-lo, retirava das unhas qualquer sujeira.

A imagem de Sávio e, repito, seus trejeitos pouco usuais para seu tamanho era como um peso nos ombros de Justino. Olhava para os lados, mexia na caderneta de notas de minuto em minuto, tentava se desvencilhar da cena atormentadora. Mas ali estava Sávio, Antônio Sávio, prestes a atendê-lo. Sim, não havia outro funcionário. Todos os demais, aos cochichos, na iminência de deixar o recinto, provavelmente ignoravam sua presença. Não obstante seus tiques e gestos, Sávio era o único que ainda se preocupava com o computador. Sim, era ele quem o atenderia, ele e mais ninguém.

Tudo se deu conforme já dito: após a absurda sugestão para que voltasse na segunda-feira, Júlio Justino tomou o rumo para o banheiro, logo ao lado da recepção, e ali permaneceu por quase trinta minutos. De maneira que o prédio já fechava e Justino, mais calmo, seguiu depois em direção ao ponto de ônibus. Passou por dois seguranças e não ousou encará-los. Estava envergonhado.

Ora, rever esse mesmo Antônio Sávio era a pior das sentenças, em verdade a pior das condenações. Teria novamente de sair de sua querida casa, deixando para trás o bom café e as conjecturas do amor aos homens e a emoção das imaginações de um mundo sem miséria. O cheiro dos pedestres do centro não lhe repugnava menos que o cheiro que fantasiava ter Antônio Sávio; aliás, eram as coisas não sentidas que mais lhe embrulhavam o estômago. As pontadas em sua cabeça, costuma dizer Justino ao Dr. Clóvis Barros, “são apenas o esforço do meu corpo em me manter sereno”.

Desceu do ônibus e seguiu à repartidão. Vendo de longe o prédio, bateu-lhe a mesma vertigem de quando resolvera ajudar o vizinho Ivan Inocêncio a rastelar o terreno baldio da esquina: a ansiedade do término de tudo aquilo lhe apertava o peito de tal modo que faltava ar e palavras. Calado, ignorou o “bom dia” do segurança e se debruçou sobre a mesa da recepção. Encarou por um tempo um sujeito que ali não estava na sexta-feira, se bem que o novo funcionário mais parecesse um jovem e mirrado estagiário.

– Gostaria de falar com Antônio Sávio, e mais ninguém -, disse Justino com saliva no canto da boca e o rosto vermelho. Saltavam-lhe as veias da testa. Não ousou sentar e aguardou o retorno do jovem funcionário ali mesmo, debruçado.

– Venha, por favor. Mesa quatro -,e apontou o funcionário a direção.

Sim, ali estava Sávio, Antônio Sávio, esperando-o com o cotovelo sobre a mesa e com uma xícara de cappuccino recém servido, bem ao lado de alguns papeis. Justino não mais suportava: a garganta seca e quase doentia o incomodava. Tinha febre; ao menos era o que sentia, contudo foram as axilas molhadas de Sávio que o fizeram voltar a passos rápidos. O cheiro do cappuccino lhe era insuportável. Entrou no banheiro, jogou água no rosto e bisbilhotou o segurança: nenhum sinal de movimento. “Ninguém parece se importar com o meu sofrimento”. Respirou fundo, limpou os lábios tomados de saliva ressecada e seguiu em direção à guilhotina. Sentou-se lentamente, como que exprimindo gemidos de uma dor inexistente.

– Caro, desculpe-me, não sei se o senhor se recorda de mim, mas estive aqui na sexta-feira. Meu, meu nome é Júlio, Júlio Justino e gostaria que você por gentileza me orientasse sobre esse problema que tenho so… – e foi interrompido por Antônio Sávio.

– É claro que me recordo. Veja, aqui está, está tudo certo. Atualizei os cadastros. Tome, leve isto para casa. São todos os extratos desde 1996, achei-os em meio aos arquivos. Você teve sorte. Grande parte de toda essa documentação já foi descartada. Esse final de semana foi corrido, mas lembrei de sua dúvida e consegui antecipar o trabalho -, e estendeu a mão em ato de despedida, sorrindo.

“Talvez tenha pregado uma peça em mim, esse sujeitinho”, pensou Júlio Justino ao sair do prédio. Estava desconfiado, desconcertado, mas dessa vez não envergonhado. Do contrário, tinha dentro de si um estranho orgulho e uma estranha satisfação. Era certo que seu nervosismo agora não passava de cansaço. Tomou a condução até sua casa e imaginava no caminho como estariam suas orquídeas. Desde o falecimento de sua querida esposa fala às plantas afagos ridículos, ainda que sinceros. O livro permanecia sobre a mesa e o café, frio e pela metade, conservou certo aroma que tomava toda a sala. As árvores seguiam o ritmo do vento e a brisa corria livremente pela varanda. Pusera novo café. Estava feliz, honestamente feliz, pois a responsabilidade não mais o perturbava. Pegou o livro e continuou a ler, não sem antes notar como estavam crescidos e sadios os lindos filhos de Inocêncio que corriam agarrados à árvore de seu jardim.

Clarice

O primeiro ferimento surgiu quando do primeiro mês de gravidez de Clarice. As bolhas secas, porém avermelhadas, eram desconhecidas pelos doutores da comunidade, entendidos em demasia dos problemas pulmonares sempre recorrentes. Clarice era uma menina antes alegre; os olhos claros, quase brancos, destoavam do cabelo escuro que caía sobre os ombros. Era a adolescente típica de Vila Velha, sonhadora de uma vida estável nos braços do novo esposo, prometido antes mesmo de nascida por seus pais agora tão idosos. Clarice um dia sentiu-se enojada pelo cheiro de uma simples rosa, presente de seu pai, um dia antes de seu aniversário. Não que isso fosse estranho, contudo Clarice sempre amou todas as flores e sempre sorriu às coisas mais simples. Era feliz até que lhe surgisse a ferida logo abaixo do olho esquerdo, a princípio uma pequena úlcera quase invisível. Antes do parto, a adolescente já tomada de bolhas não hesitava no otimismo característico de sua família: “será um belo menino, mãe”.

A menina se contorcia de dor, mas mantinha a esperança de que seu filho uma vez nascido lhe trouxesse sua cura antes prometida pelos médicos. Era o que todos diziam, também os doutores da vila que enfaticamente atribuíam à criança em sua barriga a causa de todas as dores e ferimentos. O otimismo prosperava também na família; todos reunidos no jantar de sábado, ouvindo os urros de Clarice no quarto acima, festejavam o fim da gestação. “Estará bem já na semana seguinte”, disse o pai. A irmã, também alegre, reverberava: “Quando as bolhas sumirem, nenhuma cicatriz será percebida”. A fatídica semana que antecedia ao parto era como o pêndulo que a cada segundo fazia transcorrer o tempo da agonia, o aumento degenerativo insuportável para o que achavam ser a redenção de Clarice numa cura milagrosa e instantânea após dar à luz seu primeiro filho.

Mas seu marido discordava. O cheiro insuportável de carne infecciosa que assolava o pequeno quarto impedia de toda sorte uma aproximação real e o diálogo era quase inexistente, bastando a ambos o simples olhar, na porta de entrada do quarto, todas as manhãs. Clarice sabia que seu amado estava sempre no quarto ao lado. Com razão, o marido receava que a crendice da cura imediata se transformasse na atribuição dos males a seu filho ainda em gestação, inocente em todas as instâncias. Sabia ele que após o parto, com o filho aos cuidados das freiras, seria a frustração familiar o último requinte de bondade que ainda resguardava a tolerância diante de seu filho não nascido. “Talvez eles tenham razão, que essa criança não passa de uma blasfêmia da concepção”, disse a mãe no jantar, tomada pela fúria. O incentivo da esperança da cura imediata permeava até mesmo toda a comunidade que atenciosamente anotava, nas conversas mais canhestras, as apostas de como seria a forma de um filho que causara tamanha dor à sua mãe.

O marido de Clarice receava o óbvio: nascido seu filho, não saradas as feridas, seria o recém-nascido prontamente enterrado como escória e amaldiçoado como um fruto podre a ser descartado em benefício de toda a comunidade. Sabia o marido de Clarice que já planejavam, inclusive, o enterro de seu filho logo após a primeira semana de nascido, caso não constatada nenhuma reversão nas feridas de sua esposa.

Ora, mas o casamento com Clarice perdurava e se fortalecia no silêncio de todas as manhãs, comunicavam-se sem grandes gestos e nas palavras das mais tênues expressões de companheirismo. Clarice, porém, definhava a cada dia, vertendo à respiração gemidos de dor. A expressão em seu rosto, outrora tão belo, era de simples agonia e o mero abrir de sua boca já era causa de grande transtorno. As peregrinações ao seu quarto de vizinhos curiosos como vermes rasteiros também cessaram. Quando impedidos de entrar na casa por ordem do marido, houve grande alarde em todo o vilarejo. Questionavam-se os vizinhos se Clarice estava realmente viva; questionavam-se nas conversas tergiversas se Clarice teria forças para realizar o nascimento de seu filho. Eram como insetos sempre à espreita de novidades, das quais as ruins surtiam um efeito de euforia recompensadora, assistindo eles ao teatro da desgraça que a cada capítulo lhes traziam novas conjecturas.

Na terça-feira, na iminência de um único dia para o parto, o marido de Clarice voltou-se pela manhã a espiá-la junto à porta levemente aberta, com o rosto da menina iluminada por duas velas assentadas ao chão, logo abaixo de sua cabeceira. Clarice, que não dormia bem há semanas, sempre o olhava de soslaio. Dessa vez não o olhou, não tinha reação. Lembrou-se ele do primeiro sorriso quando a notícia do filho lhe foi dada ainda na carpintaria, na manhã de um domingo. Era o primeiro e talvez último sorriso de que se recorda, pois não lembrava ele da sinceridade de Clarice ao imaginá-la tomada de feridas crescentes, que não cessaram e que sabiam todos ser o prólogo de um longo e tenebroso sofrimento. Não entendia o marido de Clarice o motivo dessa tamanha provação, mas lembrara-se da advertência de uma nova doença desconhecida, vinda do oriente, carregada pelos ratos que mordiscavam as patas do gado. Era ao menos o que todos costumavam dizer.

Não entrou ao quarto, porém, seu marido. Ficara parado, trêmulo, diante do corpo de sua esposa. Talvez esperasse com sinceridade que estivesse ela apenas dormindo num sono pesado. A esperança se esvaiu, Clarice não respirava e o desespero caiu como um peso nos ombros do marido ao observar que não resistira sua esposa à doença que lhe acometia há meses.

O falatório dos vizinhos já no mesmo dia coincidiu com a agonia de outra menina, de apenas dez anos, filha de um dos doutores da pequena vila. Era que ela observando seu rosto na água cristalina da fonte viu-se abatida pela mesma ferida de Clarice, agora no canto de sua boca; uma espinha talvez, mas tão dolorosa quanto a picada de abelhas. Passadas três semanas, perceberam todos – para um alívio irônico, fastidioso e vingativo da família de Clarice -, que a praga pretendia estender seus tentáculos a todos de Vila Velha e que iria fazê-los pagar por suas chacotas e insinuações à pobre menina. Uma semana apenas se passou. Disso é que não se mostraram surpresos quando três vizinhos, repugnantemente assolados por bolhas do tamanho de laranjas, cujos cabelos pingavam algo como óleo escuro, acusaram que o bebê não nascido de Clarice era o culpado de toda a maldição. Apontavam seus dedos tornos na entrada da casa, mirando a janela acima onde estava Clarice. Aliás, a extirpação de um mal não raro se inicia na condenação de inocentes indefesos. Enterrada ao fundo da casa principal, advertiram com serenidade os doutores que a proximidade do poço era um perigo incontestável, senão o anúncio do alastramento da estranha doença.

Tinham razão, porquanto era comum que também na fonte alimentada pelo mesmo poço todos se saciassem no calor insuportável da primavera. Sua água já não era mais cristalina, soçobrava ao redor das pequenas folhas na água da fonte uma espuma nunca antes vista, turvando-a como se estivesse tomada de sal e lama. Àquele que se concentrava defronte à fonte não havia outra percepção que o cheiro lúgubre inteiramente desconhecido e que se assemelhava ao cheiro de doença. Subia corroendo as narinas e os olhos lagrimejavam quase que instantaneamente; os curiosos se viam forçados a manter certa distância num esquivo natural a qualquer ameaça. Única fonte da região, não havia como se desvencilhar de seu uso.

Com tal água – fervida intensamente na avidez de uma solução temporária à estranha sujeira – foram feitos os pratos que serviram o casamento de outra jovem, celebrado em meio a espirros, urros de pulmões inflamados e janelas abertas para que se fizesse menos presente o odor de cabelos sebosos e peles inflamadas. Falecera o padre dois dias depois à celebração, tomado por uma inflamação intestinal descomunal, cuja insanidade mental também fora reparada pelos demais – morrera balbuciando palavras inaudíveis de expressões desconhecidas, com gritos subitamente escarrados como se por segundos retomasse suas capacidades mentais. Era a última celebração que se teve notícia do que hoje se conhece por um vilarejo abandonado, evitado pelos ratos, tomado por árvores secas de galhos contorcidos e cujos pássaros ali não ousam pousar.

Escuridão

A pequena menina entrou no casebre, esbaforida, trêmula diante do frio e com os olhos de pavor por aquilo que viu e aquilo que não viu. Não sabia ou não tinha certeza. As pernas fraquejadas sob a escuridão não impediram a última força diante da pesada porta de madeira, a única do casebre, parcialmente consumida pelo tempo. A lua não se mostrava há dias; sob ela as nuvens tão escuras quanto a sombra reverberavam apenas o ensaio de uma tempestade que nunca veio. Há dias se contavam os trovões que irradiavam sobre a vila, sem uma única gota. A lua já não se via e os habitantes da vila parece haviam esquecido de sua forma. Tentavam de todo modo retornar aos afazeres diários, porquanto o sol era também um breu ameno, fastidioso, irritante, que formigava os olhos e cansavam os velhos, sempre sonolentos. As crianças, naquilo que era o amanhecer, irritavam-se sem medida, como se diariamente agulhas lhes espetassem os pequeninos pés e formigassem a coluna, correndo sobre a espinha o calafrio de uma febre que não se sentia. O odor noturno da expectativa da chuva, inicialmente um alento aos moradores, repugnava, torcia o estômago. Não era mais novidade que a todo dia alguém então se vertesse ao chão, com as mãos sobre o peito, tossindo saliva. Se era ou não uma percepção real, ninguém podia dizer. O fato era que ao anoitecer, não obstante a escuridão recorrentemente iluminada pela tempestade que não vinha, bocas ressecavam como se a ansiedade da chuva pesasse sobre a mente um desespero indescritível. A mera expectativa já havia enlouquecido tantos quantos na pequena vila; não havia espaço na praça, lotada toda noite, abarroada de gemidos de palavras inaudíveis, murmúrios de sons agudos e desafinados – como apitos de uma flauta descalibrada -, de gargantas escamadas e doloridas.

Mas a porta cedera, estava já aberta. Caída ao chão e ofegante, a pequena menina se viu com mãos tomadas pelo pó que também cobria as plantas do jardim. Levantou-se escorando os cotovelos no móvel à sua direita, colado a uma parede rente ao quarto ao lado. Era a parede avermelhada de uma tintura escamada pelo tempo e detalhes em amarelo, deformados em tinta que um dia cobrira aquele cômodo. Duas portas eram vistas ao longe, fechadas, contudo também danificadas pelo tempo. De pé e trêmula, diante de sua vista turva, levemente à esquerda, perante seus olhos, encontrou a íngreme escada de madeira que seguia ao andar de cima, aparentemente incólume. Era ornada de entalhes tão antigos quanto a beleza do que vira no museu, levada por seu pai, falecido há menos de duas semanas. Não se ouvia no casebre os murmúrios da praça, sequer os escarros. Não se ouviam os prantos das mães que imploravam pela chuva. Era de uma escuridão sufocante. Ouvia ela mesma o chiado de seu peito e os rosnar dos dentes. O estalar da madeira a cada passo causava-lhe arrepios, mais ainda que do próprio frio. Sim, era que o gemido da madeira muito parecia com o grunhido da sombra que não entendia ter visto e que dela correu esbaforidamente. Sobre cada passo a sinfonia de estalos conturbava seus ouvidos; o medo parecia consumir sua alma; a febre parecia surgir na face da pequena garotinha cujo suor encharcava os longos cabelos. Aterrorizada, mantinha-se parada, evitando sem sucesso o temor de grunhidos da madeira que estranhamente crepitava sem sossego. De todo modo, a menina já não mais se recordava das lembranças do pai; a imponente escada à sua frente destoava do casebre. Nunca imaginara encontrá-la numa casa que sempre recordou abandonada. O pó lhe cortava a pele já trincada e a dor sob as unhas quebradiças começou a surgir.  Não conseguia se manter sã; o ambiente tragava-lhe a respiração e o pó cortava seu corpo, impregnado como cerol na ferida. A leves passos a menina foi em direção à escada; imaginava que no segundo andar talvez tudo estivesse mais limpo. Porém, o som ensurdecedor dos rangidos eram o relógio meticuloso do desespero.

Abrindo a boca para o grito de agonia aterrorizante, já com a saliva endurecida contornando seus lábios, notou outro som que a acompanhava. Agachou-se no canto, ao pé da escada. Os pequenos olhos estavam fechados; tremulava os lábios de ansiedade. O rangido que parecia vir da escada aumentava, acompanhando sua respiração. A cada chiado de seu peito aumentavam os gemidos da madeira, sempre intermináveis e pausadamente proporcionais, tal qual um relógio. Impondo a cabeça levemente para cima, abriu lentamente os olhos na infantilidade de esconder para si o que se evidenciava. Seu corpo encontrou o limite: soltara sem cuidado a respiração que, não percebida, prendia a todo custo. Ofegante, viu-se olhando para cima, para a escada, àquilo que não conseguia decifrar. Talvez eram grandes mãos que contornavam a parede rente à escada. No breu enlouquecedor, via a menina longos dedos e suas longas unhas rachadas, cujo movimento tão sutil fazia o barulho de prego riscando a madeira. Descia a mão de cima a baixo, de baixo para cima, somente os dedos ristes à madeira, cujas unhas continuavam o transtorno inevitável. Não havia rosto, provavelmente escondido. A pequenina menina, cujo temor já tinha tomado a forma de insanidade completa, olhava continuamente para aquilo que não conseguia decifrar. O breu não cooperava… estaria alucinando? Os olhos ressacados não mais incomodavam; não iria fechá-los. A lágrima da irritação que correu sobre o rosto pingou na pele empoeirada. Gélida, a lágrima lhe cortou a atenção, fazendo com que abaixasse temporariamente a cabeça. Limpou o molhado, mas não queria levantar o rosto. Abraçou-se a si mesma, com os joelhos quase tocando sua testa. O som não parou, mas aumentava. Aumentava e aumentava. Era um martelo no prego da consciência demente, o gemido da aproximação, quando enfim sentiu o fedor em suas narinas e o bafo quente que tomava seu rosto.

O jovem Pedro

“Não posso parar, não agora”. O jovem Pedro ainda rememorava a cena de poucos minutos. O homicídio estava consumado e as mãos sujas da terra vermelha não disfarçavam o vermelho do sangue daquele que era seu amigo, mas único amigo. Se havia distrações no caminho, Pedro não as percebia: perambulava com as mãos trêmulas, com pé ao barro, sem notar que na pequena igreja da vila, onde o Padre Anselmo sempre atendia, já de longe apontavam-no como um doente à beira da morte. Encharcado de suor e sangue, contentara-se em apenas vestir a bermuda de sempre; a vista turva não lhe permitia discernir se aqueles que apontavam também desconfiavam do crime. “Inútil esconder, estou arruinado”, pensou Pedro. Logo após, com a vista ainda debilitada pelo cansaço, tropeçou na antiga cruz que, se agora ao chão perante a capela, antes era o símbolo da pequena cidade. Era a cruz que se via de longe e fora derrubada por ordem de Padre Anselmo, sob justificativa de que os ordenamentos atuais dispensavam os símbolos de outrora. Lentamente corroída pelo tempo, evitaram que fosse descartada e por isso continuava ali, deitada e esquecida no chão de terra. Contudo Pedro não se importava, estava decidido: Padre Anselmo iria escutá-lo. A mão no corrimão não evitou o primeiro tropeço. Poucos dos que ali estavam tentaram decifrar o que havia se passado. Pedro não travou qualquer olhar, apenas seguia em frente em busca do padre, apesar dos cochichos intermináveis que ressoavam em seus ouvidos como a mosca sobre a carne podre.

Eis ele, sentado defronte ao altar, às costas de Pedro, com a respiração levemente ofegante. “Sei o que fez. Não há mais volta”, disse calmamente Padre Anselmo. Pedro não se importou. As pernas trêmulas pela raiva evitavam que corresse esbaforido pela capela. As mãos, esbarrando nos velhos bancos, marcou também o chão quando caiu estrangulado pelo ódio, as veias saltadas quando enfim observou Padre Anselmo como queria. Não disse, não tinha nada em mente. A cena do assassinato se repetia, interminável… “Se tenho febre, é a febre da culpa, corrosiva e destrutiva”. Pedro, quase na convulsão, e apesar de fisicamente debilitado, permitia certa empatia em seu rosto. Rastejando de forma patética, chegou aos pés do padre com as veias saltadas, pelo que não escondia nos olhos a dor do remorso. Chorava compulsivamente e escarrava no chão o catarro contaminado da terra. Trêmulo e envergonhado, esfregou sem propósito o rosto aos pés de Anselmo, o qual não se dignou a olhá-lo. Olhava, sim, para o altar já enfeitado às festividades.

A ruína de Pedro fez de seu ato um exemplo do fato heroico transformado no conto do ridículo. Acumulavam as gentes interessadas no desfecho da confissão. “Estaria Pedro tentando se confessar?”, perguntou inocentemente a pequena menina enquanto segurava a mão da avó. Sabia Padre Anselmo que Pedro confessaria o assassinato, mas não o pecado. Aliás, qual o pecado era que Anselmo não saberia dizer. Não saberia sequer discernir se Pedro encenava outro teatro, quando há meses tentara se passar por embriagado a fim de disseminar certos boatos. Porém ali estava o jovem Pedro, ao menos aparentemente arrependido. Não levantou a cabeça. Continuava murmurando em meio aos prantos que nunca ninguém presenciara. Certo é que a desconfiança do ato grotesco de Pedro fez de Anselmo também condescendente à miséria do jovem. Como o pai que corrige o filho pela omissão, nem se deu ao trabalho de lhe dirigir outra palavra. Estava ali Pedro, prostrado, sem reação digna de seu orgulho, humilhado perante o padre que sempre odiara. O fato é que Pedro não tinha forças para almejar qualquer esforço, muito menos para expressar a Anselmo qualquer repulsa. Não ao menos naquele momento, naquele singelo instante em que pela primeira vez toda a comunidade assistia a decadência completa do jovem sempre genioso, porém não menos dissimulado e de índole duvidosa.

Eis que a face do jovem se descolou dos pés do padre, deixando-os enlameados. Ainda trêmulo e com vertigens de toda sorte, Pedro tentou apontar o dedo à face de Anselmo. O dedo calejado pela roça, agora ferido talvez pela forma como segurara o martelo do homicídio, apontava diretamente aos olhos do velho padre. Anselmo continuava quieto, sem expressão corporal aparente, porém visivelmente irritado em seu semblante. O pranto de Pedro não cessava… perguntavam-se os demais ali presentes se o jovem não estava tendo apenas mais um de seus ataques histéricos, cuja característica básica era o desastre do ambiente ao redor. Não, não. Desta vez, nesta única vez, Pedro se encontrava consternado pela lástima e com a alma degolada pela culpa. A culpa que talvez nunca sentira, sem jamais tê-la cogitada. O homicídio que lhe parecia um detalhe agora se transformou no abismo da alma, o fosso interminável da tristeza. Era isso, Pedro estava finalmente triste, culposo, lastreado pelo remorso, sem perspectiva de inventar uma nova desculpa. Como jovem, lutava contra a cena óbvia e inegável da circunstância que lhe retirou toda paz. Ao menos perante os pés de Anselmo, ainda que sob o ódio irredutível, Pedro encontrava o conforto que necessitava. Não conseguiu palavra alguma com o padre e nem teria forças para isso. Limitou-se àquela cena, presenciada por algumas dezenas de curiosos, sem entretanto notar que sua família não estava ali presente. Era o seu bálsamo daquele final de tarde, pouco antes de seu suicídio, logo atrás da capela, na árvore que brincava desde criança.

A menina à sarjeta

– E o que achas da menina à sarjeta, como que implorando por dinheiro? – desafiou.

Túlio virou-se e silenciosamente aquiesceu à pergunta. Não que demonstrara indiferença, mas perante tais circunstâncias era improvável que sua piedade significasse de fato qualquer coisa à pobre menina. Antes, refletindo, Túlio admirou a frieza e perspicácia em esconder sua conturbação. Disse então:

– Observei-a desde cedo quando, fazendo minhas compras, perambulava pela calçada com a mão estendida e com os olhinhos lacrimejados. Aproximou-se um senhor e deu-lhe duas notas. Outra, uma mulher acompanhada de seus rebentos, deu-lhe moedas que pareciam de alto valor. Outras crianças, ainda, deram notas e moedas à pobre menina, que momentaneamente exerceu um sorriso complacente e delicado. Mas a menina continuava com seu rosto tristonho. Outro senhor, agora com vestes mais finas, ofertou-lhe alimentos e a menina, esbaforida, tornou a comer festejando a caridade, agora de olhos fechados ao degustar a beleza de uma culinária que há tempos não apreciava. Porém, nada além que relembrando de sua condição inicial, tornou-se a sentar em tristes pensamentos. A mão estava estendida novamente. Pessoas continuavam a lhe dar mantimento.

– A que ponto queres chegar? – disse o amigo irritado. Procedeu Túlio:

– Contar-lhe-ei, caro, a minha análise sincera. Vejo-a então escorada na sarjeta e eis que as crianças se aproximam delicadamente, já com as notas e moedas em mãos. Atenta ao fato, a pobre menina na sarjeta não expressa qualquer reação promocional ou de contentamento explícito antes do necessário; como que prevendo o ato, visualizando sua inevitabilidade, mantém-se estagnada com o olhar inalterado ao nada, ainda com a mão estendida. Aproximadas as crianças, a menina em seu olhar fixo abre levemente a mão e controla-se para que não explicite qualquer reação que lhe custe sua depressão; caem-lhe as notas e as moedas, e a menina limita-se a sorrir delicadamente, mas não antes sem notar se outros pedestres notavam a cena. A menina percebe que ninguém, absolutamente ninguém notara a última caridade! O que faz ela? Coloca as moedas e notas ao bolso, esfrega as mãos ao chão e põe-se do sorriso à tristeza, com os dedos agora deveras sujos cujo caráter transmite a ausência de qualquer que seja a ajuda peticionada. O velho em terno inglês oferece-lhe alimento. Bom alimento, por sinal, pois charutos árabes não se acha em qualquer lugar. Limpara as mãos com seu pano já umedecido, porquanto a menina que antes pedia por dinheiro delicia-se com o alimento, mas não sem antes escorar-se debruçada sobre o prato. Ajeitara os cabelos. “Por que esconder o alimento?”, pensaria o mais ingênuo, porém é inconcebível que o mantimento ofertado pelos transeuntes se limitasse tão somente à alimentação imediata. As mãos, ainda limpas, novamente se esfregam ao chão e tornam-se a pedir pelas esmolas. A histeria mudara à tristeza, a felicidade do alimento deu lugar aos pequenos braços estendidos, as mãos novamente sujas, os olhos retos que contemplavam abstrações. Quero lhe explicar algo, meu caro: a menina que ali empulha as mãos, cujo rostinho delicado implora por manutenção, pode ensinar os conceitos mais elevados da arte ao mais nobre intelectual terreno, certamente pode confundir os sábios das sinagogas e fazer chorar o mais rude. Nas ruas, aprende-se o teatro nunca ensinado pelos mestres e saiba que não escondo minha indignação. Estar nas ruas é estar mergulhado na indiferença e conceber que mecanismos piedosos são inevitáveis, senão obrigatórios. Por que tamanha surpresa? Se há, caro, algo que me fascina é a perspicácia dos pequenos. Ao olhar tênue eles o consomem inteiramente, deixando-o à mercê ou da vergonha, ou da covardia; fazem-no coadjuvante no palco e, ao final, ditam-no carrasco ou santo. Aquela menina ali sentada tem o poder em acusá-lo o pior dos homens ou o mais belo dos anjos; é ela quem pode em um instante mínimo assolar seu caráter e apontar-lhe como responsável de sua condição existencial. A menina é a vítima, e nada há que fazer para mudar tal acusação: já és réu culpado submetido tão somente às indulgências. Negue-lhe o pão, e estarás assinando sua sentença definitiva. Serás ditado o cruel e tirano opressor que não se rende à dissimulação da pobre e inocente criança.

O colega preferiu o silêncio. Aturdido, retirou-se a passos leves.

A criança

As mazelas da comunidade inferem inevitavelmente à destruição dos rastros de civilização. A pequena vila, então assombrada pela morbidade de seus transeuntes, apresentava em seu aspecto inerte agora o aspecto da decadência e dos odores cadavéricos, porquanto havia ainda as intenções da manutenção da ordem, da continuidade do mercado local, das aulas atribuídas aos mestres que rastejam procurando pelo alimento inexistente. A singeleza de suas praças e a ternura de seus jardins, irreconhecíveis, perpetrou o último lastro alimentar da região: evidente que as folhas aos dentes de seus habitantes não decorria da peste, mas da fome. Não obstante, observando o velho à criança apercebeu os contornos de algo humano em sua boca, dilacerado veementemente como o banquete diário e, além, encharcado pela cor viva do vermelho; a criança, já então agonizando pela febre cavalar, deliciava-se com os restos humanos que encontrara na venda, os quais deram-lhe ao menos a imaginação do alimento. Percebeu-se que as mazelas da peste não eram seus sintomas nefastos, sequer o desmantelamento familiar, mas a ausência de alimento que potecializada aflorava aos homens seus instintos primitivos de sobrevivênvia; a pequena menina alimentava-se por fome, e pela fome estava disposta a outras causalidades.

Carregada pelo velho, que retirou-lhe das mãos os restos arroxeados, limpou-lhe levemente o rosto, dando-lhe seu último suprimento de água.

– O que tens, menina, a fazer isso? – O velho tentava a conversa.

Mas não houve resposta. A criança, estancada em seus pensamentos, não apresentava reflexos, sequer esforçava-se a levantar os olhos. Pelo contrário, fechando-os levemente mas apertando os punhos do velho, suspirando pausadamente e com o rosto fixado ao chão, a menina trouxe a si as últimas forças existentes e também suas últimas lembranças: a mãe acariciando-lhe o rosto, o pai chamando-a para a escola. Ergueu a face àquele que lhe carregava, mas não suportou. Deitada e ainda manchada em vermelho, a criança, vestida aos trajes de princesa e de cabelos escuros, desvaneceu em suspiro, quase inaudível, porém sua sentença inafastável.

Grande poeta

A forma da vida e suas peculiaridades encontram na maca a resistência sofrível, esta que afigura ao homem sua fraqueza quando pelos tubos e adornos dos maquinários que expelem vida vê-se a inevitável decadência do corpo. Mas observando o curioso menino à senhora, que anteriormente tivera seus momentos de alegria com o amado no Parque das Flores, não a viu senão pela estima do papel cumprido e da vida vivida em todas as suas forças. O acrílico o separava do âmbito da paciente, e com o pequeno nariz encostado no objeto sentia como expectador do espetáculo da despedida.

Seu amado, ao lado da senhora, enxugou as lágrimas e com os dedos senis e trêmulos inclinou-se à companheira, e dando um beijo proferiu palavras surdas e somente a ela destinadas, palavras que ao menino lhe fez perceber o esmorecimento do corpo da senhora, aliviada em poder dormir eternamente com a lembrança do conforto da poesia que traspassa os indivíduos quando atordoados pela perda vindoura. E com os dedos alisando o rosto do senhor a senhora então sorridente sussurra espasmos de frases quase imperceptíveis, de natureza também misteriosa, mas ainda com os dedos sobre a face do companheiro fecha os olhos lentamente, que ao menino se teve como o sono do esvaecimento. Sobre o corpo o senhor derrama as últimas lágrimas, mas com as mãos segurando os cabelos da amada levanta os olhos aos céus e, como que aliviado pala circunstância de uma longa espera, achando-se agora justificado pelos erros do passado, perfazendo a tenacidade de respirar sob os cumprimentos da morte, levemente sorri, levemente chora, porém nada além de gestos incompreensíveis ao menino, agora de olhos arregalados que chamado pela voz materna sequer lhe dá ouvidos: estava impregnado pela imagem que o faria amante, sonhador, grande poeta.