A criança

G. K. Chesterton:

“A criança é o corolário significativo do pai e da mãe, e o facto de se tratar de uma criança humana traduz o significado ancestral dos laços humanos que ligam o pai e a mãe.

Quanto mais humana, e por isso menos bestial, for a criança, mais esses laços ancestrais são duradouros e adequados à ordem da natureza. Por isso, não é um progresso na cultura e na ciência a tendência para enfraquecer esse vínculo primordial, mas antes o progresso deve ir logicamente no sentido de fortalecê-lo…

Este triângulo de truísmos constituído pelo pai, pela mãe e pela criança, não pode ser destruído; só podem ser destruídas aquelas civilizações que não o respeitam.

Os habituais críticos do cristianismo

G. K. Chesterton:

“Os habituais críticos do cristianismo não estão realmente fora dele. Encontram-se em estado de reacção contra a tradição religiosa. Não conseguem ser cristãos nem deixam de ser cristãos de uma vez por todas. Continuam a viver à sombra da fé, mas perderam a luz da fé. O anti-clericalismo destes homens transformou-se numa atmosfera; uma atmosfera de negação e de hostilidade da qual não conseguem escapar: Queixam-se de que os eclesiásticos andam vestidos de eclesiásticos, como se fôssemos muito mais livres se os polícias que nos seguem ou nos apanhem andassem vestidos à paisana. […]

Ora, a melhor relação que podemos ter com o nosso lar espiritual é vivermos suficientemente perto para o amarmos. A segunda melhor, porém, é vivermos suficientemente longe para não o odiarmos. O melhor juiz do cristianismo é um cristão, o segundo melhor juiz será, por exemplo, um confucionista. O pior juiz é o cristão mal formado, que gradualmente se transforma num agnóstico mal disposto, enredado até ao fim numa batalha cujo começo nunca compreendeu, afectado por um tédio hereditário, já fatigado de ouvir o que nunca ouviu.”

Obscuridade

Chesterton:

‎”A verdade é, claramente, que a rigidez dos Dez Mandamentos é uma evidência, não da obscuridade e estreiteza da religião, mas, ao contrário, da sua liberalidade e humanidade. É mais econômico afirmar as coisas proibidas do que as permitidas: precisamente porque muitas coisas são permitidas e apenas poucas proibidas.”

“Aqueles que nos tempos modernos tentaram destruir a religião”

Completo aqui.

G. K. Chesterton* 1874 / + 1936:

“É comumente notado, e em geral de forma suficientemente verdadeira, que o Bolchevismo está necessariamente ligado ao ateísmo. Não é tão percebido, talvez, que o ateísmo está agora sob uma crescente necessidade de se ligar ao Bolchevismo. Pois o Bolchevismo é ao menos em parte positivo, mesmo que seja grandemente destrutivo. E a história da noção puramente negativa de ataque abstrato à religião, tem sido a esse respeito uma história realmente curiosa. Tomada como um todo, de fato ela é ao mesmo tempo melancólica e cômica. Aqueles que nos tempos modernos tentaram destruir a religião popular, ou uma fé tradicional, sempre sentiram a necessidade de oferecer algo sólido como substituto. A parte estranha disso é que eles ofereceram cerca de uma dúzia de coisas totalmente diferentes; algumas delas completamente contraditórias; de modo que as promessas variaram perpetuamente.

[…]

Dois Paraísos Terrenos desmoronaram. O primeiro foi o paraíso natural de Rousseau; o segundo o paraíso econômico de Ricardo. O homem não se tornou perfeito tendo sido livre para viver e amar; o homem não se tornou perfeito tendo sido livre para comprar e vender. Obviamente era hora de os ateus encontrarem um terceiro imediato e inevitável ideal. Eles o encontraram no Comunismo. E não os preocupa que seja bem diferente do primeiro ideal e bastante contrário ao segundo. Tudo que eles querem é um suposto aperfeiçoamento da humanidade que será um suborno para privar a humanidade da divindade. Leia as entrelinhas de meia centena de livros novos – esboços de ciência popular e publicações educacionais sobre história e filosofia – e você verá que o único sentimento fundamental neles é o ódio pela religião. A única coisa positiva é negativa. Mas eles são forçados mais e mais a idealizar o Bolchevismo, simplesmente porque é a única coisa que sobrou que ainda é nova o suficiente para ser oferecida como uma esperança, quando cada uma das esperanças revolucionárias que eles mesmos ofereceram se tornaram, cada uma em sua vez, desesperadas.”

“Por muitos anos eu procurei por ele”

“Por muitos anos eu procurei por ele, e finalmente eu o encontrei em um clube. Eu ouvi dizer que ele estava em todos os lugares; mas quase comecei a pensar que ele não estava em lugar algum. Me garantiram que havia milhões dele; mas antes de minha última descoberta eu tendia a acreditar que não havia nenhum. Depois de minha última descoberta eu tenho certeza de que há um; e tendo a acreditar que há muitos, digamos, algumas centenas; mas infelizmente a maior parte deles está ocupando posições importantes. Quando digo ‘ele’, quero dizer o completo idiota”.

G. K. Chesterton, “The Fool”, em A Miscellany of Men.

“Não professando nenhum credo, mas contemplando todos”

G. K. Chesterton, Hereges, Ecclesiae, pág. 257-258:

‎”Se a razão humana pode evoluir ou não, é um problema muito pouco discutido, e não há nada mais perigoso do que fundamentar nossa filosofia social numa teoria que é discutível, mas que não foi discutida. Mas se admitirmos, só para argumentar, que houve no passado, ou que haverá no futuro, algo que se assemelhe ao crescimento ou ao aprimoramento da inteligência humana propriamente dita, haverá ainda um forte óbice a ser levantado contra a versão moderna do aprimoramento. O vício da noção moderna do progresso mental é estar sempre relacionado ao rompimento de laços, à abolição de fronteiras, à rejeição de dogmas. Mas se houver algo parecido com um crescimento mental, isso deve significar crescimento em direção a convicções cada vez mais definidas, que mais e mais vão se tornando dogmas. O cérebro humano é uma máquina de tirar conclusões; se não puder concluir, enferruja. Quando ouvimos falar de um homem inteligente demais para ser crível, escutamos algo que se assemelha a uma contradição em termos. É como ouvir a respeito de um prego bom demais para fixar um carpete; ou de um ferrolho muito firme para manter a porta trancada. O homem dificilmente pode ser definido, à moda de Carlyle, como um animal que fabrica ferramentas. Formigas, castores e muitos outros animais fabricam ferramentas, no sentido de utensílio. O homem pode ser definido como um animal que fabrica dogmas. À medida que empilha doutrina sobre doutrina e conclusão sobre conclusão, ao formar algum enorme esquema filosófico e religioso, está, no único sentido legítimo de que a expressão é capaz, se tornando mais e mais humano. Ao abandonar doutrina após doutrina, num refinado ceticismo, ao recusar filiar-se a um sistema, ao dizer que superou definições, ao dizer que duvida da finalidade, quando, na própria imaginação, senta-se como Deus, não professando nenhum credo, mas contemplando todos, então está, por intermédio do mesmo processo, imergindo lentamente na indistinção dos animais errantes e da inconsciência da grama. Árvores não têm dogmas. Nabos são particularmente tolerantes.”