Assaltos de paz – “Os Demônios de Loudun” de A. Huxley

Aldous Huxley em “Os Demônios de Loudun”:

No Apocalipse nos encontramos com que o Espírito de Deus faz menção de uma música de harpas e alaúdes que dão um som grandioso de trovejada. Tais revistam ser os caminhos do Senhor: fazer que um trovão retumbe com agradáveis sonoridades de alaúde e que uma sinfonia de alaúdes ressoe com os retumbos dos trovões. E por outra parte, quem poderá acreditar ou imaginar que existem correntes de paz que arrasam até os diques, que rompem os diques e que convertem em pedacinhos as barreiras do mar? Entretanto, isso é o que acontece, pois essa é a natureza de Deus: promover assaltos de paz e criar silêncios de amor… A paz de Deus é como um rio que primeiro se deslizava sobre as terras de uma comarca e que depois veio a verter em outra por haver-se quebrado os diques. Essa paz invasora dá ocasião a algumas coisas que não parecem próprias da natureza da paz, porque vêm como precipitadas, porque vêm com impetuosidade; mas isto é coisa que, como própria, pertence à paz de Deus. Somente a paz de Deus pode vir desse modo —quão mesmo a maré crescente— não para arrasar a terra, a não ser para encher o leito que para ela Deus preparou. Irrompe com furiosas aparências e se acompanha do rugido, embora o mar se ache em calma. Esse rugido é causado mais pela abundância das águas que por sua fúria, já que o movimento delas não se deve à tempestade, a não ser às águas mesmas em toda sua nativa calma quando não as move nem o sopro mais leve de vento. O mar na plenitude de sua maré deve visitar a terra e a beijar as praias que lhe servem de cinturão. E chega pleno de majestade e de magnificência. E assim acontece com a alma quando, depois de longo sofrimento, alcança a imensidão da paz que vem visitá-la sem que o mais leve sopro de vento forme em sua superfície a menor enrugação. É uma paz divina que traz consigo os tesouros de Deus e a total opulência de seu Reino divino. Esta paz tem seus precursores e seus arautos: os venturosos pássaros que anunciam sua chegada, os anjos que a precedem. Vem como ingrediente da outra vida, como um som de harmonia celestial e com tal celeridade que a alma fica como derrubada, não por opôr resistência ao favor divino, a não ser por causa de sua plenitude e abundância. É uma abundância que não exerce violência mais que contra os obstáculos que lhe saem ao passo em seu caminho de bênção; por isso, todos os animais que não são aprazíveis desaparecem fugindo à irrupção dessa paz. Com a paz chegam todos os tesouros prometidos a Jerusalém: cássia e âmbar e quantas coisas preciosas que são adornos de suas praias. Quando chega esta paz, chega com abundância, chega completa de bênçãos, chega com os mais preciosos tesouros da graça.

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Jovens impermeáveis

Sidney Silveira, no Contra Impugnantes:

A nova geração de jovens belicosos, impermeáveis a qualquer opinião que não seja a do seu grupo, é efeito colateral do caráter indolente que dominou a nação por tanto tempo — conseqüência da afetividade desbragada na qual o Brasil foi aos poucos sucumbindo. A valentia desses pobres-diabos, maneira camuflada de auto-emulação, é uma forma lastimável de fraqueza ética. Na prática, valentões e covardões são antípodas complementares, pois entre a sinceridade orgulhosa e o comedimento hipócrita existe um liame secreto. Estes dois arquétipos humanos estão irmanados na hiper-sensibilidade psicótica que cresce a olhos vistos entre nós.

Neste ponto, digamos com tristeza: o brasileiro médio nunca se caracterizou pela afeição à racionalidade, mas sim pela emotividade fluida. Por isso sempre oscilou entre a irreligião de matiz agnóstico e o sincretismo religioso, que é uma forma de superstição — e mesmo o catolicismo em Pindorama sempre tangenciou a nossa atávica inclinação à superficialidade e à afetação social de intenções altruístas. Ora, misturar tudo é não tomar partido de nada, uma maneira elegante de ser covarde, e a verdadeira religiosidade implica ir a águas profundas, viver os dilemas humanos com ânimo corajoso, tomar partido, autoconhecer-se, não ter medo de perder amigos por amor à verdade.

God Is Not Found Through Science

Roy Dreher, no The American Conservative:

I am not philosophically sophisticated enough to respond on this point, but my view is this: order in creation does not prove God, but it is a sign pointing to God. Even if God’s existence could be proved, it changes nothing; even the devil believes in God, but rejects Him. God desires to live in communion with us. Recognizing His existence with the intellect is only a start. He wants not our minds, but our hearts. In Kierkegaardian terms, God is a subjective truth — a truth that can only be known by appropriating it with the most passionate inwardness. We don’t know God like we know the Second Law of Thermodynamics; we know God like we know the love of our father. Science can be a signpost on the way to God, but no more than that. A God whose existence can be proven is not God.

Aborto causado

REsp 1.415.727-SC, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 4/9/2014:

A beneficiária legal de seguro DPVAT que teve a sua gestação interrompida em razão de acidente de trânsito tem direito ao recebimento da indenização prevista no art. 3º, I, da Lei 6.194/1974, devida no caso de morte. O art. 2º do CC, ao afirmar que a “personalidade civil da pessoa começa com o nascimento”, logicamente abraça uma premissa insofismável: a de que “personalidade civil” e “pessoa” não caminham umbilicalmente juntas. Isso porque, pela construção legal, é apenas em um dado momento da existência da pessoa que se tem por iniciada sua personalidade jurídica, qual seja, o nascimento. Conclui-se, dessa maneira, que, antes disso, embora não se possa falar em personalidade jurídica – segundo o rigor da literalidade do preceito legal –, é possível, sim, falar-se em pessoa. Caso contrário, não se vislumbraria qualquer sentido lógico na fórmula “a personalidade civil da pessoa começa”, se ambas – pessoa e personalidade civil – tivessem como começo o mesmo acontecimento. Com efeito, quando a lei pretendeu estabelecer a “existência da pessoa”, o fez expressamente. É o caso do art. 6º do CC, o qual afirma que a “existência da pessoa natural termina com a morte”, e do art. 45, caput, da mesma lei, segundo o qual “Começa a existência legal das pessoas jurídicas de direito privado com a inscrição do ato constitutivo no respectivo registro”. Essa circunstância torna eloquente o silêncio da lei quanto à “existência da pessoa natural”. Se, por um lado, não há uma afirmação expressa sobre quando ela se inicia, por outro lado, não se pode considerá-la iniciada tão somente com o nascimento com vida. Ademais, do direito penal é que a condição de pessoa viva do nascituro – embora não nascida – é afirmada sem a menor cerimônia. É que o crime de aborto (arts. 124 a 127 do CP) sempre esteve alocado no título referente a “crimes contra a pessoa” e especificamente no capítulo “dos crimes contra a vida”. Assim, o ordenamento jurídico como um todo (e não apenas o CC) alinhou-se mais à teoria concepcionista – para a qual a personalidade jurídica se inicia com a concepção, muito embora alguns direitos só possam ser plenamente exercitáveis com o nascimento, haja vista que o nascituro é pessoa e, portanto, sujeito de direitos – para a construção da situação jurídica do nascituro, conclusão enfaticamente sufragada pela majoritária doutrina contemporânea. Além disso, apesar de existir concepção mais restritiva sobre os direitos do nascituro, amparada pelas teorias natalista e da personalidade condicional, atualmente há de se reconhecer a titularidade de direitos da personalidade ao nascituro, dos quais o direito à vida é o mais importante, uma vez que, garantir ao nascituro expectativas de direitos, ou mesmo direitos condicionados ao nascimento, só faz sentido se lhe for garantido também o direito de nascer, o direito à vida, que é direito pressuposto a todos os demais. Portanto, o aborto causado pelo acidente de trânsito subsume-se ao comando normativo do art. 3º da Lei 6.194/1974, haja vista que outra coisa não ocorreu, senão a morte do nascituro, ou o perecimento de uma vida intrauterina.

A advertência de Darwin

A citação a seguir foi aquela pela qual os teóricos nazistas justificaram a depuração racial, subentendida na seleção que se pautou nos critérios científicos. A minha aversão a citações seletivas de personagens universais foi suplantada pela curiosidade de perceber que o darwinismo enquanto teoria científica restou mesclado pelo gerenciamento social, também uma preocupação marxista. Aliás, se o marxismo enquanto desenvolvimento natural das teses de Marx se afastou de seu autor primogênito, de igual sorte que o darwinismo há tempos não mais corresponde a C. Darwin. Por isso a comodidade do darwinista em defender a obra de Darwin, sem nunca tê-la lido. Em verdade, defende-se o personagem, no mesmo resquício suprarracional marxista, na idealização profética de seus escritos e justificação cientificista de qualquer equívoco teórico, fenômenos meticulosamente desvendados por Herald Barbuy.

“At some future period, not very distant as measured by centuries, the civilised races of man will almost certainly exterminate, and replace, the savage races throughout the world. At the same time the anthropomorphous apes, as Professor Schaaffhausen has remarked, will no doubt be exterminated. The break between man and his nearest allies will then be wider, for it will intervene between man in a more civilised state, as we may hope, even than the Caucasian, and some ape as low as a baboon, instead of as now between the negro or Australian and the gorilla. […] a higher eminence, in whatever he takes up, than can women—whether requiring deep thought, reason, or imagination, or merely the use of the senses and hands. If two lists were made of the most eminent men and women in poetry, painting, sculpture, music (inclusive of both composition and performance), history, science, and philosophy, with half-a-dozen names under each subject, the two lists would not bear comparison. We may also infer, from the law of the deviation from averages, so well illustrated by Mr. Galton, in his work on “Hereditary Genius” that … the average of mental power in man must be above that of women.”

DARWIN, Charles (1871), The Descent of Man and Selection in Relation to Sex (New York: The Modern Library, reprint).

Intelectuária

J. O. Meira Penna em “A Ideologia do Século XX”:

“Mediante a exploração do mercado mundial, a burguesia tem dado um caráter cosmopolita à produção e ao consumo de todos os países. Com grande mágoa dos reacionários, ela puxou de sob os pés da indústria a base nacional onde se sustentava. As antigas indústrias nacionais foram destruídas ou estão sendo continuamente destruídas. São suplantadas por outras indústrias cuja introdução se converte em questão vital para todas as nações civilizadas; por indústrias que já não empregam matéria-prima indígena mas matérias-primas oriundas das regiões mais longínquas do mundo; indústrias cujos produtos não só se consomem no próprio país mas em todas as partes do mundo. No lugar das antigas necessidades, satisfeitas com produtos nacionais, surgem necessidades novas que reclamam, para sua satisfação, produtos dos países mais afastados e dos clientes mais diversos. No lugar do antigo isolamento e da autarquia das regiões e nações, se estabelece um intercâmbio universal, uma interdependência universal das nações. E isso se refere tanto à produção material quanto à intelectual. A produção intelectual de uma nação se converte em patrimônio comum de todas. A estreiteza e o exclusivismo nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis; e a partir das numerosas literaturas nacionais e locais se forma uma literatura universal” .

Adivinhem de quem é essa citação, com ênfase por nós acrescentada! Pois bem, é de Karl Marx. O próprio. Figura no início do Manifesto Comunista de 1848. Chamo particularmente a atenção para a frase sobre a interdependência universal das nações, interdependência que Marx, obviamente, considera irreversível. Quando mantenho que a característica principal de nossa intelectuária esquerdista é a ignorância e a boçalidade, não estou falando em vão. Estou bem certo que a maior parcela “marxista” desta nação nunca leu Marx. Se o leu, tresleu. E se tresleu, tal é a dose de obnubilação emocional que a afeta, que interpretou as idéias justo ao contrário do que demonstra expressamente o texto. Como pode, efetivamente, a teoria da “dependência”, prioritariamente defendida pelos marxistas nativos, se sustentar diante de argumentos tão incisivos, tão claros, tão positivos e tão empiricamente comprovados quanto os dos economistas de variada tendência, inclusive Marx, que anteciparam a internacionalização e privatização irreversível da economia e a coexistência mundial das culturas? 

No contexto da ideologia brasileira que se desenvolveu a partir de 1930 e, mais expressamente, após o fim da II Guerra Mundial, como reflexo dos movimentos de opinião que se registrara na Europa e no que então se convencionou chamar de “Terceiro Mundo” — cabe colocar com precisão o conceito de “dependência” e o de “imperialismo”, ao qual se vincula o primeiro. Atrevo-me assim a abordar o tema que tem obtido enorme circulação, porém mais dirigido ainda do que qualquer outro pelo sopro perverso da ideologia. Faço-o na plena consciência de que, muito embora haja o socialismo em nossa terra sofrido um golpe mortal com os acontecimentos de 1989/91, permanecem seus postulados em estágio subliminal, levantando obstáculos políticos-psicológicos (ou psicossociais, como se diz em outro vocabulário) à desejada abertura da economia brasileira. 

Pois o fato é que o imperialismo e a dependência, como noções teóricas, alcançaram uma enorme importância na vulgata marxista, muito embora não hajam merecido qualquer desenvolvimento na obra do próprio Marx. É certamente um fenômeno que justificaria a observação do velho Marx de não ser e temer os “marxistas”. O conhecimento das escrituras de Marx sobre a matéria relevante é difícil e indigesto. Creio que muito poucos terceiro-mundistas se deram ao trabalho de examiná-las.