José Saramago, o transgressor

A instrumentalização, o experimentalismo, a modernização artificial, aquela plastificação literária em que nos submetem vários escritores parte do equívoco de que o crivo literário de genialidade (o mesmo crivo que fundou os imortais da literatura) seria idêntico ao crivo artístico da arte moderna, em que a contaminação artística ocorre por meio das boas intenções do experimentalista. Dizem por aí que a genialidade de José Saramago, ditada em meio a prêmios de academias, foi esquecida. Esquecera-se de seu imperioso estilo em que a escrita não mais importava, mas sim sua forma e sua transgressão. 

Se é de rigidez extrema atribuir qualquer transgressão aos sentimentos adolescentes, não é de igual modo injusto dizer que em apenas seis anos o que era genialidade se transformou em algo estranho, bizarro, moderno, juvenil. Talvez o risco dessa aventura experimentalista, na literatura, seja de certo modo um tiro no pé naqueles que já vivos se sentem e se chamam “imortais” nas cadeiras de entrevistas televisivas.

A “maldição do dia seguinte ao Prêmio Nobel” foi mais uma vez travada.

O meu problema com José Saramago é estritamente pessoal. Depois que vi comparações com William Faulkner (ditados por um crítico, com aquiescência do próprio) é que tomei coragem para dizer que Saramago escreve mal, muito mal. Fiz todos os esforços possíveis; li o que deveria ser lido, e encontrei maior transgressão no idoso sentado ao bar, fumando um cigarro, enquanto esclarece as conspirações do mundo. Encontrei maior transgressão em As Aventuras de Pinóquio, de Collodi, que aliás se relançado enquanto conto adulto teria espaço em mais prateleiras. Maior transgressão também existe em qualquer conto de Bruno Schulz, o qual não necessitou estuprar a escrita para de fato transgredir com sua simplicidade.

Maior transgressão há em compará-lo com a genialidade de Faulkner.

Portanto, a minha tese é de que a qualidade de fato não importava. Importava que se fizesse crer ao leitor que tudo estava sendo questionado, inclusive sua inteligência; que se dava mais importância à “linguagem” e que o narrador era secundário diante do “problema maior”. Diante disso, de fato não há o que dizer sobre a qualidade literária: José Saramago sempre teria sido um gênio inaudito, mesmo que sua escrita fosse sofrível.

Pegar seus textos e fazer uma crítica qualitativa do enredo é inútil. Apareceria o fantasma do defunto, cutucando-o com seus finos dedos, dizendo ao pé de seus ouvidos em meio aos calafrios: “deixe isso de lado; importe-se com o todo, com a linguagem, importe-se com a minha missão em dizer certas coisas por linhas tornas“.

Saramago é o Paulo Coelho deles.