A serenidade de Júlio Justino

Júlio Justino acordou decidido: revidaria tamanha desfeita. Encharcado de suor após o estado febril de uma noite mal dormida, trêmulo das mãos, ofegante e irresignado, com os olhos fundos de um choro reprimido, não esquecera do tal Antônio Sávio, funcionário de crachá amarelado que não inclinado à importância de seu problema o advertira no dia anterior: “volte na segunda-feira e então seu problema será resolvido”. É bem verdade que Justino não esperava qualquer trato mais rude vindo de um funcionário público, muito embora não pudesse prever a desídia que apunhalou seus anseios mais nobres e a honra de um homem que saíra de casa apenas para resolver pendências burocráticas.

Tudo se deu numa chuvosa sexta-feira de final de mês, época em que afloram nos homens mais viris a tendência à autocomiseração. De fato, tomando o ônibus que seguia ao centro, Júlio Justino não evitou os resmungos de quem abandonara os afazeres de maior importância, como limpar o próprio jardim e dar alimento aos animais abandonados. Tratar de assuntos chatos costuma trazer a Júlio Justino o peso do comprometimento; preferiria certamente tomar um café ao lado de um bom livro. A imaginação de qualquer circunstância que lhe trouxesse o esmaecimento de seu amor pela humanidade era algo que o atordoava constantemente. Não poderia deixar apagar, de forma alguma, a chama da figalguia: manter-se nobre era antes de tudo manter-se dentro de casa e longe da ralé.

Naquela fatídica sexta-feira de final de mês, já na recepção Justino notara a presença de Antônio Sávio: homem opulento de trejeitos espalhafatosos, cujos olhos avermelhados e unhas encardidas indicavam outras debilidades.

“Talvez esteja doente de tanto ócio”, pensou Justino ao sentar-se nas cadeiras vazias da repartição ao perceber que o funcionário público, prestes a atendê-lo, retirava das unhas qualquer sujeira.

A imagem de Sávio e, repito, seus trejeitos pouco usuais para seu tamanho era como um peso nos ombros de Justino. Olhava para os lados, mexia na caderneta de notas de minuto em minuto, tentava se desvencilhar da cena atormentadora. Mas ali estava Sávio, Antônio Sávio, prestes a atendê-lo. Sim, não havia outro funcionário. Todos os demais, aos cochichos, na iminência de deixar o recinto, provavelmente ignoravam sua presença. Não obstante seus tiques e gestos, Sávio era o único que ainda se preocupava com o computador. Sim, era ele quem o atenderia, ele e mais ninguém.

Tudo se deu conforme já dito: após a absurda sugestão para que voltasse na segunda-feira, Júlio Justino tomou o rumo para o banheiro, logo ao lado da recepção, e ali permaneceu por quase trinta minutos. De maneira que o prédio já fechava e Justino, mais calmo, seguiu depois em direção ao ponto de ônibus. Passou por dois seguranças e não ousou encará-los. Estava envergonhado.

Ora, rever esse mesmo Antônio Sávio era a pior das sentenças, em verdade a pior das condenações. Teria novamente de sair de sua querida casa, deixando para trás o bom café e as conjecturas do amor aos homens e a emoção das imaginações de um mundo sem miséria. O cheiro dos pedestres do centro não lhe repugnava menos que o cheiro que fantasiava ter Antônio Sávio; aliás, eram as coisas não sentidas que mais lhe embrulhavam o estômago. As pontadas em sua cabeça, costuma dizer Justino ao Dr. Clóvis Barros, “são apenas o esforço do meu corpo em me manter sereno”.

Desceu do ônibus e seguiu à repartidão. Vendo de longe o prédio, bateu-lhe a mesma vertigem de quando resolvera ajudar o vizinho Ivan Inocêncio a rastelar o terreno baldio da esquina: a ansiedade do término de tudo aquilo lhe apertava o peito de tal modo que faltava ar e palavras. Calado, ignorou o “bom dia” do segurança e se debruçou sobre a mesa da recepção. Encarou por um tempo um sujeito que ali não estava na sexta-feira, se bem que o novo funcionário mais parecesse um jovem e mirrado estagiário.

– Gostaria de falar com Antônio Sávio, e mais ninguém -, disse Justino com saliva no canto da boca e o rosto vermelho. Saltavam-lhe as veias da testa. Não ousou sentar e aguardou o retorno do jovem funcionário ali mesmo, debruçado.

– Venha, por favor. Mesa quatro -,e apontou o funcionário a direção.

Sim, ali estava Sávio, Antônio Sávio, esperando-o com o cotovelo sobre a mesa e com uma xícara de cappuccino recém servido, bem ao lado de alguns papeis. Justino não mais suportava: a garganta seca e quase doentia o incomodava. Tinha febre; ao menos era o que sentia, contudo foram as axilas molhadas de Sávio que o fizeram voltar a passos rápidos. O cheiro do cappuccino lhe era insuportável. Entrou no banheiro, jogou água no rosto e bisbilhotou o segurança: nenhum sinal de movimento. “Ninguém parece se importar com o meu sofrimento”. Respirou fundo, limpou os lábios tomados de saliva ressecada e seguiu em direção à guilhotina. Sentou-se lentamente, como que exprimindo gemidos de uma dor inexistente.

– Caro, desculpe-me, não sei se o senhor se recorda de mim, mas estive aqui na sexta-feira. Meu, meu nome é Júlio, Júlio Justino e gostaria que você por gentileza me orientasse sobre esse problema que tenho so… – e foi interrompido por Antônio Sávio.

– É claro que me recordo. Veja, aqui está, está tudo certo. Atualizei os cadastros. Tome, leve isto para casa. São todos os extratos desde 1996, achei-os em meio aos arquivos. Você teve sorte. Grande parte de toda essa documentação já foi descartada. Esse final de semana foi corrido, mas lembrei de sua dúvida e consegui antecipar o trabalho -, e estendeu a mão em ato de despedida, sorrindo.

“Talvez tenha pregado uma peça em mim, esse sujeitinho”, pensou Júlio Justino ao sair do prédio. Estava desconfiado, desconcertado, mas dessa vez não envergonhado. Do contrário, tinha dentro de si um estranho orgulho e uma estranha satisfação. Era certo que seu nervosismo agora não passava de cansaço. Tomou a condução até sua casa e imaginava no caminho como estariam suas orquídeas. Desde o falecimento de sua querida esposa fala às plantas afagos ridículos, ainda que sinceros. O livro permanecia sobre a mesa e o café, frio e pela metade, conservou certo aroma que tomava toda a sala. As árvores seguiam o ritmo do vento e a brisa corria livremente pela varanda. Pusera novo café. Estava feliz, honestamente feliz, pois a responsabilidade não mais o perturbava. Pegou o livro e continuou a ler, não sem antes notar como estavam crescidos e sadios os lindos filhos de Inocêncio que corriam agarrados à árvore de seu jardim.