Leandro Karnal e o teatro

Leandro Karnal é o exemplo mais categórico de como a bela retórica antecipa a intelectualidade. Após dezenas de vídeos de palestras e entrevistas assistidas, toda aquela beleza discursiva e de aparente filosofia se esvai como um sopro no pó de piadas, reflexões, tiradas, sarcasmos e citações repetidas, repetidas e repetidas. No primeiro vídeo, um gênio; no último, um demagogo cansativo. Pego então seu mais recente livro e percebo uma velha verdade: o abismo que separa a retórica falada da retórica escrita, quando então as ideias transmitidas não estão carregadas pela cadência de sua voz, pausas propositais antes de uma ironia proposital, expressões faciais certeiras, exemplos absolutamente desconexos para incutir em seus ouvintes qualquer falácia. Ou seja, um excelente palestrante, mas da boa escrita passa longe. Fala da importância da tolerância efusivamente como se não fosse o assunto de qualquer esquina; condena o consumismo, como se não fosse a reflexão mais básica de qualquer conversa de bar; fala de racismo, como se estivesse contando uma novidade; elogia a democracia, pois imagina que sua multidão a condena; sobre as questões políticas, repete o que diz qualquer professor universitário. Seus estudos sobre Shakespeare salvam-no da autoajuda consumada.  Basta colocá-lo ao lado de Mário Ferreira dos Santos para que se tenha, em pouquíssimo tempo, toda a clareza do que é ser palestrante ou professor, e o que é ser historiador de filosofia ou filósofo; líder de palestras ou mestre discente.

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Existe uma tríade de personagens caricatos, envoltos em temas filosóficos, que seguem o caminho de palestras de autoajuda, muito embora reneguem tal ofício até a morte: Mário Sergio Cortella, Clóvis de Barros Filho e Leandro Karnal. Dizem-se, recorrentemente, filósofos, ainda que nunca se tenha visto um filósofo que não produza filosofia. Perguntados, respondem: “sou um filósofo”. Novamente questionados: “sou um filósofo”, após citar seus caminhos na academia. Depois, passam por meio do discurso a embaralhar conceitos rasos no fito de espantar a plateia, quando então todos acenam com a cabeça: “de fato, um excelente filósofo”.

E todos depois saem satisfeitos com o teatro.