As anotações de Paulo Bezerra

Paulo Bezerra, como bom comunista, investe nas “notas do tradutor” em Os Demônios como quem nada quer, imputando até mesmo um sentimento a Dostoiévski. Tenta ele nos convencer de que quem fala é o autor russo e não seu personagem. Anota os fatos históricos com dicas de que aparentemente Dostoiévski apoiava tais fatos quando, opostamente, os criticava; diz que o russo ironizou (e não o próprio personagem literário) isso ou aquilo ao utilizar determinada expressão. Coloca na boca de Dostoiévski a responsabilidade por todo e qualquer diálogo dos personagens literários, em contradição àquele mesmo cuidado com os diálogos de Os Irmãos Karamazov. Parece-me que Os Demônios incomodou os trabalhos de Bezerra; talvez tenha se imaginado na pele daqueles intelectuais. 

De qualquer modo, a qualidade continua impecável: basta que não se dê ouvidos às baboseiras afirmadas por Paulo Bezerra, certamente uma interferência na leitura que coça os olhos de qualquer leitor que conhece a fama dos tradutores socializados e “amantes da humanidade”.