Ivan Karamazov e o perdão do torturador

Tenho para mim que Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, consegue seu ápice nos poucos parágrafos que antecedem O Grande Inquisidor. É algo como uma preparação emocional da dúvida niilista de Ivan Karamazov, o qual tenta dissuadir Aliocha, seu irmão, daquela visão romântica de um pacifismo que aceitaria a absolvição do mais cruel dos torturadores e o esquecimento das dores da vítima indefesa: o causo da criança torturada e morta em frente à sua mãe. Com isso, temos também um prelúdio da ironia de O Grande Inquisidor, quando Jesus Cristo, em sua segunda vinda em plena época inquisitorial, após fazer milagres junto ao povo, é removido, encarcerado e depois condenado à fogueira.

Nesses parágrafos antecedentes Ivan interpela Aliocha sobre a validade do perdão. Ivan Karamazov diz indiretamente a Aliocha que o que importa não é a categoria de arrependimento ou da redenção materna, mas sim a punição de morte daquele que tortura uma inocente criança.

Com isso, Ivan força Aliocha a reconhecer que o caso do sádico que tortura o filho diante da mãe representaria duas vertentes de perdão ou vingança. No sentido de atribuir a conveniência da pena capital, Ivan conduz seu discurso no rancor da mãe que poderia perdoar o torturador de todo o sofrimento por ela sofrido (ou seja, a perda do próprio filho após a tortura), porém nunca poderia perdoar o sofrimento de seu filho decorrente da tortura. Ao que Aliocha, num rompante de indignação, concorda com a aplicação da pena de morte. É a quebra, mesmo que temporária, do pacifismo aliochano, posteriormente recuperado e finalmente posto à prova quando da defesa da criança que outrora lhe agredira com pedradas.

Em O Grande Inquisidor há a demonstração de que talvez Ivan Karamazov não fosse de todo modo um ateu, mas sim um “revoltado”, palavra usada por Aliocha. É o que se lê em vários estudos sobre a obra, apesar da minha percepção pessoal divergente: acredito que a ironia não passou de uma adequação à fé e crença de Aliocha, trazendo-o perante um sarcasmo insuportável.

Isso que, apesar de acreditar na providência divina e na mensagem cristã, renega a ambos e subverte em seus desejos a vingança, o desprezo pelo pai e a intelectualização do parricídio.

É a partir desse momento que temos o esclarecimento da frigidez moral de Ivan e o capítulo que antecede a fatídica conversa com o criado Smerdiákov. A desgraça pairava sobre a família Karamazov, bastando finalmente que tudo se justificasse na teoria, viabilizando a prática.

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