As anotações de Paulo Bezerra

Paulo Bezerra, como bom comunista, investe nas “notas do tradutor” em Os Demônios como quem nada quer, imputando até mesmo um sentimento a Dostoiévski. Tenta ele nos convencer de que quem fala é o autor russo e não seu personagem. Anota os fatos históricos com dicas de que aparentemente Dostoiévski apoiava tais fatos quando, opostamente, os criticava; diz que o russo ironizou (e não o próprio personagem literário) isso ou aquilo ao utilizar determinada expressão. Coloca na boca de Dostoiévski a responsabilidade por todo e qualquer diálogo dos personagens literários, em contradição àquele mesmo cuidado com os diálogos de Os Irmãos Karamazov. Parece-me que Os Demônios incomodou os trabalhos de Bezerra; talvez tenha se imaginado na pele daqueles intelectuais. 

De qualquer modo, a qualidade continua impecável: basta que não se dê ouvidos às baboseiras afirmadas por Paulo Bezerra, certamente uma interferência na leitura que coça os olhos de qualquer leitor que conhece a fama dos tradutores socializados e “amantes da humanidade”.

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Ivan Karamazov e o perdão do torturador

Tenho para mim que Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, consegue seu ápice nos poucos parágrafos que antecedem O Grande Inquisidor. É algo como uma preparação emocional da dúvida niilista de Ivan Karamazov, o qual tenta dissuadir Aliocha, seu irmão, daquela visão romântica de um pacifismo que aceitaria a absolvição do mais cruel dos torturadores e o esquecimento das dores da vítima indefesa: o causo da criança torturada e morta em frente à sua mãe. Com isso, temos também um prelúdio da ironia de O Grande Inquisidor, quando Jesus Cristo, em sua segunda vinda em plena época inquisitorial, após fazer milagres junto ao povo, é removido, encarcerado e depois condenado à fogueira.

Nesses parágrafos antecedentes Ivan interpela Aliocha sobre a validade do perdão. Ivan Karamazov diz indiretamente a Aliocha que o que importa não é a categoria de arrependimento ou da redenção materna, mas sim a punição de morte daquele que tortura uma inocente criança.

Com isso, Ivan força Aliocha a reconhecer que o caso do sádico que tortura o filho diante da mãe representaria duas vertentes de perdão ou vingança. No sentido de atribuir a conveniência da pena capital, Ivan conduz seu discurso no rancor da mãe que poderia perdoar o torturador de todo o sofrimento por ela sofrido (ou seja, a perda do próprio filho após a tortura), porém nunca poderia perdoar o sofrimento de seu filho decorrente da tortura. Ao que Aliocha, num rompante de indignação, concorda com a aplicação da pena de morte. É a quebra, mesmo que temporária, do pacifismo aliochano, posteriormente recuperado e finalmente posto à prova quando da defesa da criança que outrora lhe agredira com pedradas.

Em O Grande Inquisidor há a demonstração de que talvez Ivan Karamazov não fosse de todo modo um ateu, mas sim um “revoltado”, palavra usada por Aliocha. É o que se lê em vários estudos sobre a obra, apesar da minha percepção pessoal divergente: acredito que a ironia não passou de uma adequação à fé e crença de Aliocha, trazendo-o perante um sarcasmo insuportável.

Isso que, apesar de acreditar na providência divina e na mensagem cristã, renega a ambos e subverte em seus desejos a vingança, o desprezo pelo pai e a intelectualização do parricídio.

É a partir desse momento que temos o esclarecimento da frigidez moral de Ivan e o capítulo que antecede a fatídica conversa com o criado Smerdiákov. A desgraça pairava sobre a família Karamazov, bastando finalmente que tudo se justificasse na teoria, viabilizando a prática.