Os doentes de Dostoiévski

Muitos não gostam de Dostoiévski em vista de seu aparente desprezo ou supervalorização das doenças psiquiátricas, as quais hoje são consideradas até mesmo um traço da pior personalidade. Há quem se chateie com a utilização recorrente das crises epilépticas como uma forma de dissimulação justificada na doença, o que traz ao enredo a desconfiança inicial do doente como se fosse ele próprio uma mancha a ser removida, um erro, um problema.  Notei isso ao encontrar em fóruns de discussão as justificativas pelas quais o russo não teria espaço em algumas prateleiras; a coisa desandou para fatídicas acusações pessoais, como se Dostoiévski falasse a eles próprios.

É ou não excelente literatura?

Isso evidencia ao menos temporariamente a tendência de seus romances na completa descaracterização da vítima, trazendo-a ao campo da igualdade dissimulada e das maldades que circundam os personagens. Em não sendo mera vítima, o doente é ele próprio um dos agentes possíveis da conturbação do enredo criado, senão a maior conturbação: é o assassino, o louco ou o gênio maldoso que não quer ser incomodado e que desde o início permeia os conflitos por sua atuação velada ou pela omissão manipuladora.

Fíodor Pávlovitch tem traço esquizofrênico, depressivo e invasivo; Raskolnikov, em seu saudosismo, é claramente depressivo; Smérdiakov, um psicopata contaminado pela loucura da mãe, a anã em tese estuprada por Fíodor; Dmitri Karamazov, o orgulhoso e hedonista destemperado, mas de “coração bom”; Ivan Karamazov, o intelectual niilista e moralmente frígido, isolado em suas conjecturas; o narrador-personagem de Memórias do Subsolo, o deprimido autoflagelador que encontra os piores erros nos demais, ainda que reconheça em si mesmo a completa decadência.

Não sem motivo Dostoiévski é indicado como um dos fundadores da psicologia moderna. Leiam, se possível, Netochka Nezvanova: a descrição magistral da pré-adolescente que se vê conturbada pelas escolhas mais íntimas, inclusive dos conflitos familiares e amorosos que irão por fim dar cabo à formação de sua personalidade distorcida. Infelizmente um romance inacabado, mas que tinha forças para ser um verdadeiro tratada da formação do caráter.