Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, e as traduções de Paulo Bezerra e Natália Nunes (e Oscar Mendes): pequenas comparações em português, inglês, francês, espanhol e russo

Não há santo milagreiro no mundo das traduções.

Retiro de Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, com tradução por Paulo Bezerra (Editora 34):

“Era um homem já entrado em anos, e sem nenhuma dúvida, inteligente. Falava com a mesma franqueza que a senhora, embora em tom de brincadeira, mas de uma brincadeira dorida; eu, dizia ele, amo a humanidade, mas me admiro de mim mesmo. Quanto mais amo a humanidade em geral, menos amo os homens em particular, ou seja, em separado, como pessoas isoladas. Em meus sonhos, dizia ele, não raro chegava a intentos apaixonados de servir à humanidade e é até possível que me deixasse crucificar em benefício dos homens se de repente isso se fizesse de algum modo necessário, mas, não obstante, não consigo passar dois dias com ninguém num quarto, o que sei por experiência. Mal a pessoa se aproxima de mim, e eis que sua personalidade já esmaga meu amor-próprio e tolhe a minha liberdade. Em vinte e quatro horas posso odiar o melhor dos homens: este por demorar muito a almoçar, aquele por estar resfriado e não parar de assoar o nariz. Eu, dizia, viro inimigo das pessoas mal elas roçam em mim. Em compensação, sempre acontecia que quanto mais odiava os homens em particular, mais ardente se tornava meu amor pela humanidade em geral”.

Adiante, Editora Abril Cultural (1971), com tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes (1963) oriunda do inglês (conforme a fonte):

“Era um homem de idade madura e verdadeiramente inteligente, exprimia-se tão francamente quanto a senhora, se bem que brincando, mas com tristeza. ‘Eu amo’, dizia ele, ‘a humanidade, mas admiro-me de mim mesmo. Tanto mais amo a humanidade em geral, quanto menos amo as pessoas em particular, como indivíduos. Muitas vezes tenho sonhado apaixonadamente em servir à humanidade, e talvez tivesse verdadeiramente subido ao calvário por meus semelhantes, se tivesse sido preciso, muito embora não possa viver com ninguém dois dias no mesmo quarto. Sei-o por experiência. Desde que alguém está junto de mim, sua personalidade oprime meu amor próprio e constrange minha liberdade. Em 24 horas, posso mesmo antipatizar com as melhores pessoas, uma, porque fica muito tempo na mesa, outra, porque está resfriada e só faz espirrar. Torno-me o inimigo dos homens; apenas se acham eles em contato comigo. Em compensação, invariavelmente, quanto mais detesto as pessoas, tanto mais ardo de amor pela humanidade’.”

Repito, e basta uma simples pesquisa para que se constate: uns dizem que a tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes originou-se do inglês; outros, do francês. O apontamento à tradução oriunda do francês é minoritária e geralmente ocorre nas anotações de registro de obras que não possuem as informações completas de editoração (informação repetida nas notas “técnicas” da imprensa, a exemplo da Folha de São Paulo).

A L&PM, por exemplo, sequer citava a origem da tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes, muito embora a estrutura fosse idêntica à tradução reconhecidamente proveniente do inglês de outras e mais antigas edições. Com isso, tem-se por aí que essa edição teria tradução do francês (o que é obviamente um erro técnico).

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É caso ainda mais grosseiro que determinados sites especializados digam que Natália Nunes é brasileira e que teria prestado grande serviço às traduções do russo. Primeiro, Natália Nunes é portuguesa; segundo, não há registro algum de consultas aos originais russos, mas a já dita origem inglesa [ou francesa] de todas e quaisquer outras traduções.

Cheguei a cogitar ingenuamente que esses enganos de tradução viessem de obras traduzidas indiretamente do inglês e outras obras traduzidas indiretamente do francês, pela mesma Natália Nunes. Hoje, tenho ciência de que o mercado brasileiro, no que se refere às traduções, é uma verdadeira zombaria de falsificação de nomes e atribuições criminosas de plágios a terceiros, o que instiga as aventuras técnicas em detrimento daqueles que prestaram os nobres serviços de tradução real.

Falando da tradução em si, aquela prolixidade lusitana costuma aparecer no decorrer da obra, o que favorece em diversos diálogos certa confusão entre narrador e narrativa, personagem falante e o personagem ouvinte. Pode parecer besteira, mas diálogos de duas laudas ditos por um único personagem, com interrupções do autor-narrador, são facilmente embaralhados em suas traduções.

Determinadas palavras também não foram bem utilizadas, apesar de não ser problema unicamente de Natália Nunes [e Oscar Mendes]. Dou como exemplo “malgrado”, palavra utilizada às vezes duas, três, quatro vezes no mesmo discurso ou parágrafo. Não obstante, Paulo Bezerra cometeu o mesmo vício com a palavra “súbito”.

De Natália Nunes [e Oscar Mendes]:

Torno-me o inimigo dos homens; apenas se acham eles em contato comigo.

De Paulo Bezerra:

Eu, dizia, viro inimigo das pessoas mal elas roçam em mim.

O diminutivo é praticamente descartado na tradução de Natália Nunes [e Oscar Mendes], apesar da sabida técnica de Dostoiévski em atribuir, em vários de seus contos e romances, certa ternura na narrativa através da infantilização discursiva proposital e repetições de palavras específicas na indicação de um diálogo infantil.

Paulo Bezerra:

Fiódor Pávlovitch soube da morte da esposa bêbado; dizem que saiu correndo pela rua e começou a gritar, levantando os braços para o céu tomado de alegria: “Agora me deixas livre!”; mas, conforme outros contam, soluçava como uma criancinha, e tanto que, segundo dizem, dava até pena olhar para ele, a despeito de todo o asco que tinham dele.

Natália Nunes [e Oscar Mendes]:

Fiádor Pávlovitch estava bêbado, quando lhe anunciaram a morte de sua mulher; conta-se que correu para a rua e se pôs a gritar, na sua alegria, de braços levantados para o céu: “Agora, deixa morrer o teu servo”. Outros pretendem que soluçava como uma criança, a ponto de causar pena vê-lo, malgrado a aversão que inspirava.

O que era “Agora, deixa morrer o teu servo” – que me forçou numa época mais ignorante a imaginar uma tendência de Pávlovitch a ser capacho de amantes e esposas -, tornou-se “Agora me deixas livre!”, fazendo algum sentido a angústia do velho dissimulado.

Paulo Bezerra, contudo, parece que também andou comendo algumas moscas.

Desconheço a fonte da edição inglesa utilizada por Natália Nunes, mas a divergência parece se justificar pela tradução inglesa – direta do russo – feita por Constance Garnett:

Fyodor Pavlovitch was drunk when he heard of his wife’s death, and the story is that he ran out into the street and began shouting with joy, raising his hands to Heaven: ‘Lord, now lettest Thou Thy servant depart in peace,’ but others say he wept without restraint like a little child, so much so that people were sorry for him, in spite of the repulsion he inspired.

Digamos que na pior das hipóteses houve uma divergência explícita no sentido do original russo, pois não me espantaria uma eventual tradução em que o sujeito da oração fosse a esposa, e não Pávlovitch; mas quem se familiariza com a estrutura dessa frase sabe que o arcaísmo linguístico provém das melhores versões bíblicas.

Visando esclarecer o imbróglio, persegui uma edição em espanhol e vi que a coisa pareceria desandar a Paulo Bezerra, tendo em conta a anotação de que a palavra “servo” se referiria ao Evangelho de Lucas, capítulo 2, verso 29 (NVI): Agora, Senhor, cumpriste a promessa que fizeste e já podes deixar este teu servo partir em paz.”

Na versão Almeida Revista e Corrigida: “Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo.”

Vejam agora a tradução espanhola:

Fiodor Pavlovitch estaba ebrio cuando le dieron la noticia de la muerte de su esposa, y cuentan que echó a correr por las calles, levantando los brazos al cielo y gritando alborozado: «Ahora, Señor, ya no retienes a tu siervo». Otros aseguran que lloraba como un niño, hasta el punto de que daba pena verle, a pesar de la aversión que inspiraba.

Da edição francesa:

Fiodor Pavlovitch était ivre lorsqu’on lui annonça la mort de sa femme ; on raconte qu’il courut dans la rue et se mit à crier, dans sa joie, les bras au ciel : Maintenant, Seigneur, tu laisses aller Ton serviteur. D’autres pré- tendent qu’il sanglotait comme un enfant, au point qu’il faisait peine à voir, malgré le dégoût qu’il inspirait.

Paulo Bezerra não quis imputar sobre a situação a origem bíblica da oração dostoievskiana? Será que devo começar a me preocupar com eventuais máculas propositais na tradução de Bezerra? Proposital pois que não me é razoável que outras diversas traduções versem um idêntico erro, todas elas provenientes igualmente da mesma origem russa, segundo consta.

Nem um, nem outro; todas as traduções não seguiram o texto original, que assim diz:

Федор Павлович немедленно захлопотал и стал собираться в Петербург, — для чего? — он, конечно, и сам не знал. Право, может быть, он бы тогда и поехал; но, предприняв такое решение, тотчас же почел себя в особенном праве, для бодрости, пред дорогой, пуститься вновь в самое безбрежное пьянство. И вот в это-то время семейством его супруги получилось известие о смерти ее в Петербурге. Она как-то вдруг умерла, где-то на чердаке, по одним сказаниям — от тифа, а по другим — будто бы с голоду. Федор Павлович узнал о смерти своей супруги пьяный; говорят, побежал по улице и начал кричать, в радости воздевая руки к небу: «Ныне отпущаеши», а по другим — плакал навзрыд как маленький ребенок, и до того, что, говорят, жалко даже было смотреть на него, несмотря на всё к нему отвращение.

“Ныне отпущаеши” é “Nunc Dimittis“, que tem sobre si a seguinte anotação na edição original russa, traduzida ao inglês:

[…] “Nunc Dimittis” – According to the Gospel, the words of the righteous and pious Simeon, whom he greeted in the temple the Christ child and his parents: “Now dismiss thy servant, O Lord , according to thy word, in peace … “(Luke, Ch. 2, Art. 29).

“Nunc Dimitris” seria a grosso modo algo como “Now release”.

Parece-me que o engano caiu da escada neste simples e inocente causo, rolando sucessivamente por sobre outras traduções. Estranhamente, e muito estranhamente, além das traduções também aqui já citadas, outras mais não fizeram a reposição literal da expressão latina, mas traduziram-na por meio de um entendimento de notas do original russo como se fossem repetições umas das outras. Intrigantemente não houve em canto algum da edição da Editora 34 idêntica tradução da nota de rodapé de indicação da passagem bíblica, não obstante outras edições possuírem a informação ainda que aproximada do original russo.

A minha birra talvez seja pontual: há de fato outras dezenas de passagens em que Bezerra reproduz a nota de rodapé, sendo mais provável que a edição por ele utilizada do original russo não contivesse tal referência.

Serei honesto: se quis Dostoiévski dizer algo em latim, traga o tradutor o latim à mesa ao invés de fazer uma releitura discursiva do significado. Nisso tudo a bagunça é menor no quarto de Bezerra, porém um verdadeiro caos nas outras traduções. Isso porque o erro claramente foi seguido sem questionamentos, traduzido de maneira imperiosa, mudando o texto original e, por fim, levando o leitor a imaginar que Dostoiévski escrevera uma sentença bíblica inteira quando assim não o fez.

A tradução direta de Paulo Bezerra traduziu o latim, enquanto que outras traduções estrangeiras repetiram a tradução da explicação de uma nota editorial colocada no corpo do texto literário tal qual expressão original. Por fim, o erro também foi seguido por Natália Nunes em sua tradução indireta do inglês.

Talvez confiasse Bezerra de que os leitores acompanhariam cegamente sua advertência inicial de que seguiu à risca a escrita de Dostoiévski, sem titubeios. Ora, à risca não foi, sr. Paulo Bezerra.

Imagine agora, caro leitor, o estrago em ter coisa do tipo em Fausto de Goethe.

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