Dostoievski, Tolstói, Bruno Schulz e os problemas das traduções artificiais, indiretas e fabricadas

Mais uma vez (a quarta) ando relendo Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, e mais uma vez me deparo com o ensino magistral do trecho seguinte:

“Era um homem de idade madura e verdadeiramente inteligente, exprimia-se tão francamente quanto a senhora, se bem que brincando, mas com tristeza. ‘Eu amo’, dizia ele, ‘a humanidade, mas admiro-me de mim mesmo. Tanto mais amo a humanidade em geral, quanto menos amo as pessoas em particular, como indivíduos. Muitas vezes tenho sonhado apaixonadamente em servir à humanidade, e talvez tivesse verdadeiramente subido ao calvário por meus semelhantes, se tivesse sido preciso, muito embora não possa viver com ninguém dois dias no mesmo quarto. Sei-o por experiência.

Desde que alguém está junto de mim, sua personalidade oprime meu amor próprio e constrange minha liberdade. Em 24 horas, posso mesmo antipatizar com as melhores pessoas, uma, porque fica muito tempo na mesa, outra, porque está resfriada e só faz espirrar. Torno-me o inimigo dos homens; apenas se acham eles em contato comigo. Em compensação, invariavelmente, quanto mais detesto as pessoas, tanto mais ardo de amor pela humanidade’.”

Trata-se do excerto da edição de 1971 da Editora Abril, com tradução de Natália Nunes e Oscar Mendes (1963) oriunda do inglês*, apesar de várias fontes definirem que a tradução em verdade decorrera da língua francesa. Essa divergência ocorre em várias edições pelo simples motivo de que em muitas delas não há, em canto algum, a definição da língua de origem utilizada pelo tradutor nas anotações de publicação, mas sim uma informação de rodapé, como se fosse um detalhe sem importância ao leitor. Portanto, não me culpem. Não ficaria espantado se tudo não passasse de um desleixo editorial numa época em que a supressão de partes inteiras das obras era implementada para que se resumisse o material de impressão.

Atualmente desfruto da obra por meio da tradução do russo de Paulo Bezerra (2008), Editora 34, cuja diagramação, espaçamento e materiais empregados foram cuidadosamente escolhidos. A sensação é de que leio Os Irmãos Karamazov pela primeira vez, principalmente devido à tradução de Bezerra que mostra ao leitor o estilo de escrita de Dostoievski, tais quais as repetições de palavras pela técnica da ênfase discursiva; repetições de expressões na simulação do diálogo regionalizado e transcrição das notas das edições russas que explicam o motivo pelo qual determinada situação fora utilizada pelo escritor – menções a fatos da época que chocaram a sociedade russa, escândalos pessoais etc. Nesse ponto, a imersão no estilo é completa e antecipa já nas primeiras páginas que estaremos diante da reprodução fiel também dos ditos “erros de cadência da escrita criativa” tão criticados pela teoria literária, como se a repetição fosse ela mesma um erro de produção da pior literatura e não uma estrutura premeditada da narrativa.

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É certo que as traduções oriundas do inglês ou francês não expressam a vivacidade da escrita de Dostoiévski, sequer sua ênfase romântica nos diálogos que transcrevem em palavras até mesmo os suspiros dos personagens. A impressão que tenho é de uma retaliação à simplicidade discursiva do russo, como se a tradução tivesse na pomposidade artificial e fabricada seu maior triunfo. Aliás, falo da tal pomposidade enquanto vício, premeditada, visivelmente colocada em tal situação apenas para transparecer certa erudição não vista na obra original. Fosse eu realmente criterioso, diria que tal pomposidade visa esconder a deficiência da tradução em si, impossibilitada em fornecer ao leitor os sentimentos da obra original. Mas não sou criterioso: apenas acho que a terceirização de qualquer tradução macula o andamento da escrita original ao ponto de forçar o tradutor a remendar expressões ou suprimir palavras em diálogos para que seu trabalho se torne inteligível.

E também não sou egoísta: Liev Tolstói sofreu da mesma doença por décadas a fio, quando suas traduções do francês mais faziam de seus contos uma reprodução de expressões francesas absolutamente redundantes (na melhor forma da língua francesa), naquela sobrevalorização da mesma pomposidade conhecida das traduções dostoievskianas igualmente provenientes do francês. Eis que a máscara faustiana depois se transformou, como mágica, na mais tênue simplicidade quando resolveram traduzir Tolstói diretamente do russo.

A complexidade milagrosamente deixou de existir, pois que existia apenas na cabeça do tradutor.

Todavia – assumo – hoje evito as traduções indiretas do francês de quaisquer obras, principalmente daquelas para lá do centro europeu. O polonês Bruno Schulz, quando então traduzido diretamente do polaco, apareceu no mundinho brasileiro na beleza de suas descrições que, caso então contaminadas por aquela solenidade francesa, perderia inevitavelmente a tenacidade.

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Quanto mais noto tais discrepâncias de tradução mais fico convencido de que os embaraços artificiais, aquela complexidade inexistente e forçada antes serve à erudição latinizada; melhor, à erudição das línguas latinas que preferem transformar a literatura de época numa literatura shakespeareana.

Vejam bem: tal circunstância não é um erro se a escrita original assim quis, mas devemos assumir de igual modo que não era esse o espírito da literatura russa do século XIX. O alento de minha crítica a essas traduções parte da ideia de que a língua francesa tem por si só a complexidade na sua estrutura linguística, mesmo que enfadonha.

Basta ao leitor contudo se deparar com as traduções do russo ao inglês para perceber que do inglês não há resquício de erudição fabricada, daquela mesma pomposidade dos idos franceses. Qual seria então o resultado da equação, quando das traduções do inglês ao português reaparecem milagrosamente uma erudição deveras irrazoável e acadêmica? Buscou o tradutor “expressar uma época”, “transcrever o formalismo da língua culta escrita” mesmo que inexistente na obra original? Buscou ele nos ensinar a como ler?

Ora, isso não é apenas readequar a linguagem, mas falsificá-la; a pior falsificação, aquela que transcende a obra original e que faz da tradução o protagonista que incomoda o leitor; a farpa no olho quando se percebe que determinado diálogo ou discurso ínsito à ambientação criada pelo autor fora descartado em benefício do eruditismo artificial. Com isso, não espero de forma alguma que não ocorram erros substanciais nas traduções dos originais; não sou purista no que se refere ao sentimento do autor. Mas não me venha um tradutor dizer que a frase simplista do original merece um rebuscamento imposto por sua tendência em ver em determinada obra o ensino errático da língua arcaica.

Proponho no futuro fazer algumas comparações nas traduções, a começar por aquela lá em cima. Serão trechos emblemáticos e por vezes citados e recitados na unanimidade, ainda que sobre uma ou outra tradução ocorram alterações fundamentais de sentido.

Antes, se querem mesmo saber a que veio o abismo das traduções, leiam por gentileza o excelente “Não gosto de plágio”, em especial este artigo.

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