Ainda as traduções e como reler O Grande Inquisidor de forma satisfatória

Parece-me que o experimentalismo literário [a síndrome do eterno Saramago, depois do enjoo] e seus contornos bizarros de certa inovação da escrita contaminou alguns tradutores, fazendo-os sucumbir diante da necessidade em criar do nada expressões inimagináveis na narrativa original. Sequer falo da moda antiga em imputar o regionalismo brasileiro em literatura inglesa – ou, pior, regionalismo latino em cultura russa -, mas sim naquela verborragia de palavras que ninguém usa substituindo frases comuns e ordinárias utilizadas na narrativa original. Fico pensando se o tradutor, ao fazer tamanho malabarismo, não quis de certa forma avançar no mundo criativo ao colocar sobre seus ombros o dever de ser, ele mesmo, lido enquanto “gênio”. Ora, ninguém (não conheço pessoa alguma) lê livro algum imaginando que determinada narrativa fora uma construção magistral do tradutor – e não do autor. Parece-me contudo que dizer o óbvio pode trazer a uma certa casta a chateação mais imatura, como se eu me importasse com isso.

Ato contínuo: a edição de 1971 de Os Irmãos Karamazov possui erro parecido e irei apontá-lo na coletânea que pretendo registrar neste espaço. Adianto desde já que tomo Bezerra como parâmetro da boa e melhor tradução, porque não vi até o momento nada que desabone seus serviços. E para não dizer que ando falando de um único trabalho, tenho aqui ao meu lado também Crime e Castigo, a próxima leitura, também traduzido diretamente do russo por Paulo Bezerra.

Outro adendo: dispenso as análises de erros pontuais em determinadas palavras, pois cabe ao revisor corrigir o “as” que sai “sa” e o “porém” sem acento. Alguém que considera tais equívocos também erros insuperáveis de tradução [o que exime vários tradutores indiretos, leia-se] merece não mais que um sorriso de canto de boca enquanto fala sozinho às paredes.

Agora, se querem de fato saber os abismos que separam as traduções, se querem tomar por base o estrago que faz a tradução indireta, a péssima tradução, aquela mais inventiva, lúdica, “erudita”, basta comparar o capítulo O Grande Inquisidor para que tudo fique muito claro e evidente. É também o que farei num futuro próximo, principalmente para mostrar que o tradutor, seduzido por sua crença, pode vir a tentar mascarar a intenção do autor por meio da supressão de termos específicos e muito bem delineados, enquanto se desculpa na cortina de fumaça de sua “interpretação da língua original”.

Impossível imaginar a inocência de um tradutor que faz mudanças tão drásticas.

Fico ainda mais tranquilo, pois tenho aqui uma tríade de comparação que me exime de qualquer problema: uma edição traduzida do russo, outra do inglês e ainda outra do francês. Intrigantemente, possuo duas outras edições físicas, dos mesmos tradutores, editadas com décadas de diferença, sem informação de revisão (não achei em canto algum), cujas traduções são escancaradamente distintas.

Um verdadeiro mistério editorial com motivos que já desconfio.