Ana Maria Machado não é Dostoiévski

Iniciei em Dostoiévski através da obra Os Irmãos Karamazov, salvo engano aos 16 anos de idade, desfrutando de uma complexidade de narrativa nunca antes apreciada. Foi justamente a complexidade que me instigou na continuidade da leitura; foi a complexidade o chamativo maior na tomada de notas para então já perceber que deveria ler, a todo custo, Crime e Castigo. Nessa época, não me importavam as traduções. Imaginava que seriam irrelevantes diante da clareza que me vinha à mente nos diálogos livrescos de, às vezes, uma dezena de páginas. Era-me irrelevante perceber as sutilezas de cada personagem e a personalidade imprimida sobre cada um deles. Mais importava a enredo, pois era um moleque ansioso pela história. Ambos romances da chamada “fase da maturidade” de Dostoiévski, Irmãos Karamazov e Crime e Castigo anteciparam a maestria da complexidade elaborada gradualmente, como o entalhador que aos poucos dá forma ao conteúdo integral.

Nisso é que ao ler os romances da “fase da imaturidade” (pequenos contos e novelas, em sua maioria) fui enganado na busca pela mesma complexidade. Como um ansioso pela discórdia e intriga, iniciei Noites Brancas procurando no sonhador e sua amada os pontos convergentes de dissimulação e controle emocional. Não acreditava que nada ali havia – “era necessária a intriga”. Enganei-me e me deparei com uma das novelas lúdicas que mais prenderam a minha atenção. Terminado Noites Brancas, percebi que a exigência das intrigas existentes em Irmãos Karamazov e Crime e Castigo eram fruto somente da minha mente apaixonada pelo peso esmagador da trama complexa. Percebi, então, que a literatura se faz a qualquer custo e a qualquer momento, e que a complexidade é a escolha do escritor muitas vezes em detrimento do enredo. Noites Brancas, caso tomada pelo peso da trama, por exemplo, de Crime e Castigo, não teria a mesma sutileza que hoje implica num caminho pela leveza dos personagens e sutileza das reações previsíveis mas naturais (e, por isso mesmo, sempre necessárias).

O último movimento da pá de cal ocorreu em Memórias do Subsolo. Ali estavam presentes os elementos da literatura perfeita: cadência, personagem definido, conflitos interno e externo, ambientação psicológica e física. Terminei Memórias do Subsolo já ansioso por sua releitura, porque sabia que tinha escapado aos olhos informações e sutilezas essenciais. Por sua característica de investigação da mente (e de reconhecimento das verdades que ninguém ousa falar), foi a mim o expoente literário que definitivamente me fez um árduo perseguidor de livros e de novas qualidades, as quais pautaram minhas preferências posteriores e que de certo modo me afastaram da literatura regional.

Por que digo isso?

Porque Ana Maria Machado, em Infâmia, foi comparada a Dostoiévski em comentários a premiações dadas a escritores que sobrevivem de sua reputação e não de sua atual qualidade. Maior pecado ao mau escritor é ser comparado a um clássico, uma vez que sabe que sua imagem se dissocia de forma tão grotesca que é impossível desvinculá-la da ironia e do sarcasmo. Quem já teve a oportunidade de ler Infâmia sabe que não passa de um livreco, um romance aberrático, irrelevante e artificial mediante personagens [que se satisfazem com a inclinação ideológica da autora] cuja padronização beira o amadorismo. Ou seja, é um romance-cartilha, dissimulado em enredo e que convence a seus tietes apaixonados pelos contos infantis (de fato, único ofício a que se deveria dedicar Ana Maria Machado). Compará-la a Dostoiévski é um escárnio, uma piada quase hilária e que faz apenas ridicularizar a já combalida nata literária que pulula sobre toda e qualquer premiação nacional.

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