Clarice

O primeiro ferimento surgiu quando do primeiro mês de gravidez de Clarice. As bolhas secas, porém avermelhadas, eram desconhecidas pelos doutores da comunidade, entendidos em demasia dos problemas pulmonares sempre recorrentes. Clarice era uma menina antes alegre; os olhos claros, quase brancos, destoavam do cabelo escuro que caía sobre os ombros. Era a adolescente típica de Vila Velha, sonhadora de uma vida estável nos braços do novo esposo, prometido antes mesmo de nascida por seus pais agora tão idosos. Clarice um dia sentiu-se enojada pelo cheiro de uma simples rosa, presente de seu pai, um dia antes de seu aniversário. Não que isso fosse estranho, contudo Clarice sempre amou todas as flores e sempre sorriu às coisas mais simples. Era feliz até que lhe surgisse a ferida logo abaixo do olho esquerdo, a princípio uma pequena úlcera quase invisível. Antes do parto, a adolescente já tomada de bolhas não hesitava no otimismo característico de sua família: “será um belo menino, mãe”.

A menina se contorcia de dor, mas mantinha a esperança de que seu filho uma vez nascido lhe trouxesse sua cura antes prometida pelos médicos. Era o que todos diziam, também os doutores da vila que enfaticamente atribuíam à criança em sua barriga a causa de todas as dores e ferimentos. O otimismo prosperava também na família; todos reunidos no jantar de sábado, ouvindo os urros de Clarice no quarto acima, festejavam o fim da gestação. “Estará bem já na semana seguinte”, disse o pai. A irmã, também alegre, reverberava: “Quando as bolhas sumirem, nenhuma cicatriz será percebida”. A fatídica semana que antecedia ao parto era como o pêndulo que a cada segundo fazia transcorrer o tempo da agonia, o aumento degenerativo insuportável para o que achavam ser a redenção de Clarice numa cura milagrosa e instantânea após dar à luz seu primeiro filho.

Mas seu marido discordava. O cheiro insuportável de carne infecciosa que assolava o pequeno quarto impedia de toda sorte uma aproximação real e o diálogo era quase inexistente, bastando a ambos o simples olhar, na porta de entrada do quarto, todas as manhãs. Clarice sabia que seu amado estava sempre no quarto ao lado. Com razão, o marido receava que a crendice da cura imediata se transformasse na atribuição dos males a seu filho ainda em gestação, inocente em todas as instâncias. Sabia ele que após o parto, com o filho aos cuidados das freiras, seria a frustração familiar o último requinte de bondade que ainda resguardava a tolerância diante de seu filho não nascido. “Talvez eles tenham razão, que essa criança não passa de uma blasfêmia da concepção”, disse a mãe no jantar, tomada pela fúria. O incentivo da esperança da cura imediata permeava até mesmo toda a comunidade que atenciosamente anotava, nas conversas mais canhestras, as apostas de como seria a forma de um filho que causara tamanha dor à sua mãe.

O marido de Clarice receava o óbvio: nascido seu filho, não saradas as feridas, seria o recém-nascido prontamente enterrado como escória e amaldiçoado como um fruto podre a ser descartado em benefício de toda a comunidade. Sabia o marido de Clarice que já planejavam, inclusive, o enterro de seu filho logo após a primeira semana de nascido, caso não constatada nenhuma reversão nas feridas de sua esposa.

Ora, mas o casamento com Clarice perdurava e se fortalecia no silêncio de todas as manhãs, comunicavam-se sem grandes gestos e nas palavras das mais tênues expressões de companheirismo. Clarice, porém, definhava a cada dia, vertendo à respiração gemidos de dor. A expressão em seu rosto, outrora tão belo, era de simples agonia e o mero abrir de sua boca já era causa de grande transtorno. As peregrinações ao seu quarto de vizinhos curiosos como vermes rasteiros também cessaram. Quando impedidos de entrar na casa por ordem do marido, houve grande alarde em todo o vilarejo. Questionavam-se os vizinhos se Clarice estava realmente viva; questionavam-se nas conversas tergiversas se Clarice teria forças para realizar o nascimento de seu filho. Eram como insetos sempre à espreita de novidades, das quais as ruins surtiam um efeito de euforia recompensadora, assistindo eles ao teatro da desgraça que a cada capítulo lhes traziam novas conjecturas.

Na terça-feira, na iminência de um único dia para o parto, o marido de Clarice voltou-se pela manhã a espiá-la junto à porta levemente aberta, com o rosto da menina iluminada por duas velas assentadas ao chão, logo abaixo de sua cabeceira. Clarice, que não dormia bem há semanas, sempre o olhava de soslaio. Dessa vez não o olhou, não tinha reação. Lembrou-se ele do primeiro sorriso quando a notícia do filho lhe foi dada ainda na carpintaria, na manhã de um domingo. Era o primeiro e talvez último sorriso de que se recorda, pois não lembrava ele da sinceridade de Clarice ao imaginá-la tomada de feridas crescentes, que não cessaram e que sabiam todos ser o prólogo de um longo e tenebroso sofrimento. Não entendia o marido de Clarice o motivo dessa tamanha provação, mas lembrara-se da advertência de uma nova doença desconhecida, vinda do oriente, carregada pelos ratos que mordiscavam as patas do gado. Era ao menos o que todos costumavam dizer.

Não entrou ao quarto, porém, seu marido. Ficara parado, trêmulo, diante do corpo de sua esposa. Talvez esperasse com sinceridade que estivesse ela apenas dormindo num sono pesado. A esperança se esvaiu, Clarice não respirava e o desespero caiu como um peso nos ombros do marido ao observar que não resistira sua esposa à doença que lhe acometia há meses.

O falatório dos vizinhos já no mesmo dia coincidiu com a agonia de outra menina, de apenas dez anos, filha de um dos doutores da pequena vila. Era que ela observando seu rosto na água cristalina da fonte viu-se abatida pela mesma ferida de Clarice, agora no canto de sua boca; uma espinha talvez, mas tão dolorosa quanto a picada de abelhas. Passadas três semanas, perceberam todos – para um alívio irônico, fastidioso e vingativo da família de Clarice -, que a praga pretendia estender seus tentáculos a todos de Vila Velha e que iria fazê-los pagar por suas chacotas e insinuações à pobre menina. Uma semana apenas se passou. Disso é que não se mostraram surpresos quando três vizinhos, repugnantemente assolados por bolhas do tamanho de laranjas, cujos cabelos pingavam algo como óleo escuro, acusaram que o bebê não nascido de Clarice era o culpado de toda a maldição. Apontavam seus dedos tornos na entrada da casa, mirando a janela acima onde estava Clarice. Aliás, a extirpação de um mal não raro se inicia na condenação de inocentes indefesos. Enterrada ao fundo da casa principal, advertiram com serenidade os doutores que a proximidade do poço era um perigo incontestável, senão o anúncio do alastramento da estranha doença.

Tinham razão, porquanto era comum que também na fonte alimentada pelo mesmo poço todos se saciassem no calor insuportável da primavera. Sua água já não era mais cristalina, soçobrava ao redor das pequenas folhas na água da fonte uma espuma nunca antes vista, turvando-a como se estivesse tomada de sal e lama. Àquele que se concentrava defronte à fonte não havia outra percepção que o cheiro lúgubre inteiramente desconhecido e que se assemelhava ao cheiro de doença. Subia corroendo as narinas e os olhos lagrimejavam quase que instantaneamente; os curiosos se viam forçados a manter certa distância num esquivo natural a qualquer ameaça. Única fonte da região, não havia como se desvencilhar de seu uso.

Com tal água – fervida intensamente na avidez de uma solução temporária à estranha sujeira – foram feitos os pratos que serviram o casamento de outra jovem, celebrado em meio a espirros, urros de pulmões inflamados e janelas abertas para que se fizesse menos presente o odor de cabelos sebosos e peles inflamadas. Falecera o padre dois dias depois à celebração, tomado por uma inflamação intestinal descomunal, cuja insanidade mental também fora reparada pelos demais – morrera balbuciando palavras inaudíveis de expressões desconhecidas, com gritos subitamente escarrados como se por segundos retomasse suas capacidades mentais. Era a última celebração que se teve notícia do que hoje se conhece por um vilarejo abandonado, evitado pelos ratos, tomado por árvores secas de galhos contorcidos e cujos pássaros ali não ousam pousar.

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Voto, república e coletivismo

Escrito 02 de fevereiro de 2011.

A declaração de determinados eleitores como inaptos ao exercício do voto é, em suma, a declaração que evidencia uma reflexão reducionista, mas necessária, da democracia republicana. Se houve no fim do Século XIX e início do Século XX o chamado “movimento social sufragista”, ainda limitado ao universalismo do voto e sua decorrente extensão às mulheres cidadãs, é no pós-Segunda Guerra Mundial que é nos apresentado o voto como única, máxima e irrestrita faceta democrática de transferir ao povo a capacidade cognitiva conscientizadora de suas aptidões políticas, que se estendem à ordem social.

As máximas conscientizadoras através dos votos se fizeram em tamanha escala que inevitavelmente o sistema de proteção eleitoral por meio dos colégios eleitorais e, além, a dissolução parlamentar – ainda que pelo “voto de censura” – seriam métodos despóticos, revisionistas, limitadores da vontade popular antes externada pelo voto como exercício político, acontecimentos extemporâneos que estariam submetidos a interesses mais perversos. O indivíduo, ao externar sua vontade política, estaria vinculando ao Estado sua capacidade de transformação direta dos fins políticos que corroboram suas ansiedades burocráticas, que se corrompidas poderiam gerar toda sorte de desconfiança social. A crise, a difamação e aberrações políticas, que descredibilizam as instituições então submetidas à Democracia, não são justificativas aptas a deflagrar a anulação da vontade popular.

Antes o caos que o desrespeito ao voto republicano, lembrem-se.

Enquanto que o desenvolvimento civilizatório foi marcado pelo distanciamento entre indivíduo e coletivo (e consequente valorização do individualismo em exaltação às virtudes pessoais), dando ao primeiro relativa independência política com relação ao segundo, o desenvolvimento das “vontades populares” em seus contornos burocráticos reaproximou o cidadão das decisões políticas de bando, não somente pela necessidade intrínseca do cidadão na participação do pleito eleitoral, mas sim pelo fato de que, para as repúblicas imaturas que emergiam no cenário mundial, era fundamental estabelecer uma relação de interdependência e cooperação comunitários. Pois aquele que se negasse ao voto estaria negando sua “civis status“, sua condição de cidadão disposto a complementar a ordem política democrática.

Poderia aqui discorrer acerca dezenas de fenômenos republicanos então submergidos na proeminência do coletivo. Poderia também citar dezenas de métodos paralelos ao próprio republicanismo que visam incitar o voto como único mecanismo democrático realmente válido. Ocorre que o poder das escolhas diretas, ainda que irresponsáveis, é cativante não apenas pelo falso “poder que emana do povo”, mas também pelas consequências oriundas da maioria, que sendo caóticas dão ao povo sua merecida sentença. É esse, aliás, o pensamento daqueles que veem na dissolução parlamentar um “atentado à democracia popular”, ou na hereditariedade do rei “a perpetuação de favorecimentos elitistas”, afirmações geralmente escoradas nos ideais da Revolução Francesa, não obstante o alicerce de argumentações que a história mostrou serem de tendências totalitárias.

Ouso afirmar que a mentalidade republicana passou de mera teoria à massificação intelectual, adentrando nas conversas de grandes ignaros políticos. “Somos uma república democrática”, afirmam corriqueiramente iluminados por uma sabedoria transcendente. Contudo, sequer percebem que o republicanismo enquanto democracia estabelecida está em franca decadência, ao ponto em que se torna mais evidente que da república emergem os grandes ditadores.

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Completo em 16 de maio de 2016:

O afunilamento da legitimidade de um governo despótico geralmente se dá pela proeminência irrestrita do voto, assim garantindo a perpetuação assistencialista. O discurso do voto como garantidor da legitimidade governamental costuma antecipar todo e qualquer mecanismo constitucional apto a remover o mau governante, sobre o qual recai o peso da irresponsabilidade com o consolo da maioria votante. Com isso, é imprescindível o exercício monárquico em sempre esclarecer à população que o voto, por si só, é absolutamente irrelevante diante de um instalado e sistematizado caos degradador das instituições. O que não é possível de antemão nas repúblicas, corroboradas no sufrágio enquanto direito que legitima o poder irrestrito, ainda que irrelevante ou destrutivo.

Tomadas pelo sentimento do poder de escolha (fundamentalmente populista), as repúblicas latinas em regra não se reconhecem a dissolução parlamentar ou o sistema de colégios eleitores, em que se afasta propositalmente dos votantes o votado. Veem com estranheza o afastamento do governador inapto, “porque foi ele eleito pela maioria”. A inibição das políticas populistas é o maior triunfo das modernas monarquias e o maior dos erros das repúblicas decadentes, eminentemente latinas, seja na América ou na Europa.

O latinismo político perfaz um sentimento que contamina o caráter; nada mais comum ver o latino que, ao abraçar uma cultura antipopulista, envida esforços para tentar implementar políticas decadentes de contorno da vida privada, a exemplo da histeria latina em face da universalização do sistema de saúde americano ao tempo em que combatem a ilegitimidade dos colégios eleitorais. São como vírus que contaminam lentamente um corpo sadio, levando-o à doença sem sequer perceber o malefício.

Do republicanismo em sua fragilidade coletivista

Escrito em 13 de janeiro de 2011, quando sequer imaginava um dia presenciar o atual estado das coisas. 

Todo e qualquer movimento, instituição e concepção política pode ser maculado pelo seu descrédito filosófico, o qual proporciona toda sorte de distorções conceituais que não encontram respaldo nas teses originais. Do liberalismo econômico ao tradicionalismo institucional, do conservadorismo político ao fundamentalismo religioso, o entendimento de suas proposições foi alterado e, hoje, refere-se tão somente a um resquício histórico estudado por uma minoria interessada na desambiguação entre conceito originário e o conceito coletivo, este alicerçado no amadorismo intelectual e senso comum previsível.

Mas se falamos de ideologias de Governo já amplamente efetivadas (o que afasta a limitação teórica da utopia governamental), falamos consequentemente em suas características essenciais, tendo em vista a observação histórica pela qual se testifica a falibilidade em sua implementação. Portanto, sendo falível e perseguida corriqueiramente por nações culturalmente subdesenvolvidas, a ideologia governamental nelas aplicada ou é maciçamente defendida por sua proeminência, ou é questionável justamente por sua facilidade de implementação, em geral decorrente de simplismos institucionais e ausência de critérios elevados para sua manutenção qualitativa.

Basta visualizar o esquema político global para que se constate esta realidade: a civilização contemporânea, as virtudes – não alcançadas pelos latino-americanos – da Democracia, a liberdade individual e econômica, o tradicionalismo institucional e o conservadorismo político, o respeito religioso em sua coexistência pacífica e o desenvolvimento exponencial da intelectualidade científica se encontram consolidados na Monarquia Parlamentarista.

Porém, contestá-lo como um fato exige do contestador a perigosa tarefa de enfatizar justamente o fenômeno republicano de colocar na fraqueza institucional o poder supremo do exercício do voto, seja ele de inaptos, seja ele de desinteressados para com a própria política nacional. O voto, assim, torna-se a expressão máxima do republicanismo, quando verdadeiramente é a exteriorização de sua debilidade institucional travestida de ativismos democráticos.

É como querer convencer-me de que há, quando o povo elege seu tirano, a total validade institucional republicana, porque “se um povo quer a tirania, assim a terá pelo voto”, como disse certa vez um grande jurista republicano.

Obviamente, não é coincidência que o autoritarismo e regimes despóticos modernos foram quase em suas totalidades criados e imaginados no seio do republicanismo: não por uma coincidência imatura e desconexa da política, mas sim pela vereda republicana que permite e, além, incentiva a debilidade democrática em prol do populismo regente dos incompetentes na decisão pelo voto, facilmente manipuláveis a fins políticos perversos, mas amparados pela ausência na República de uma figura que esteja acima do pleito eleitoral e que tenha amplos poderes de por sua identidade supra-eleitoral dissolver as casas representativas.

Percebe-se que a preocupação central dos teóricos republicanos foi e continua a ser as medidas efetivas de controlar, ainda pelo dito “voto democrático” (como se Democracia se limitasse a tal concepção), quaisquer tendências totalitárias. Da famigerada “conscientização do voto” a métodos arcaicos e ineficientes de separação do presidente de sua influência coletivista, o voto republicano, que impele a manutenção de casas representativas decadentes, está fadado a ser conservado na mente da população como dívida de medidas assistencialistas irrefutáveis e de tendências crescentes.

De certo que se falamos das terras tupiniquins falamos de fenômenos grotescos da política. Em sendo o voto obrigatório e não uma discricionariedade do indivíduo, o pleito contamina-se já de antemão por meio da inserção coercitiva daqueles que não têm qualquer discernimento político e que, se não por obrigação, sequer pensariam em exercer tal prerrogativa. Aliás, a obrigatoriedade do voto é caracteristicamente a objetivação do sufrágio, pela qual é de sumo interesse do Poder Executivo manter por questões obviamente pragmáticas.

A deturpação do voto republicano é tamanha que a República, hoje, tornou-se sinônimo de Democracia. Falar em atos democráticos é falar em República; falar na dissolução parlamentar é, hoje, uma afronta democrática por decorrência do desrespeito dos interesses do povo. Falar em República Democrática é afirmar, sem mais palavras, que independentemente das consequências tirânicas o povo soberano assim o quis.

A tendência crescente em refutar a proliferação das chamadas Repúblicas Socialistas segue o mesmo trilho da proliferação daqueles que observam no voto a maior e talvez única expressão democrática realmente válida. Tal é o pensamento reinante nas escolas políticas latinas, que transferem ao voto a capacidade ampla e indiscutível de uma maioria decidir sobre uma minoria declarada irrelevante. Não se trata, caros, de um antagonismo político, mas sim que de fato a República tornou-se o escopo do coletivismo de Estado, o qual é historicamente o passo anterior à aniquilação das instituições democráticas.

Dê-lhes o pão e terás o voto. Dê-lhes a República e terás o sufrágio como direito sacrossanto de eleger, talvez por um período caótico, aquele que pode manipular as instituições republicanas para sua perpetuação no Poder Executivo e aparelhamento das demais esferas de Poder. Dê-lhes o Brasil e terá o voto republicano obrigatório, que faz do inapto o mais feliz dos cidadãos, porquanto se antes era descartável politicamente hoje se transformou no principal e inevitável caminho de “seleção democrática”, de “exercício amplo da cidadania”, da “garantia da continuidade democrática da República moderna”.

É inegável que são existentes métodos e instituições que visam suprimir a falha irrefutável do voto republicano: chama-se, caros, Colégio Eleitoral; ou, mais precisamente, a institucionalização do voto indireto, que inibe consequentemente as regalias do assistencialismo e demais atividades perpetradas pelo presidencialismo.

Mas esse é assunto para outra oportunidade.

Ana Maria Machado não é Dostoiévski

Iniciei em Dostoiévski através da obra Os Irmãos Karamazov, salvo engano aos 16 anos de idade, desfrutando de uma complexidade de narrativa nunca antes apreciada. Foi justamente a complexidade que me instigou na continuidade da leitura; foi a complexidade o chamativo maior na tomada de notas para então já perceber que deveria ler, a todo custo, Crime e Castigo. Nessa época, não me importavam as traduções. Imaginava que seriam irrelevantes diante da clareza que me vinha à mente nos diálogos livrescos de, às vezes, uma dezena de páginas. Era-me irrelevante perceber as sutilezas de cada personagem e a personalidade imprimida sobre cada um deles. Mais importava a enredo, pois era um moleque ansioso pela história. Ambos romances da chamada “fase da maturidade” de Dostoiévski, Irmãos Karamazov e Crime e Castigo anteciparam a maestria da complexidade elaborada gradualmente, como o entalhador que aos poucos dá forma ao conteúdo integral.

Nisso é que ao ler os romances da “fase da imaturidade” (pequenos contos e novelas, em sua maioria) fui enganado na busca pela mesma complexidade. Como um ansioso pela discórdia e intriga, iniciei Noites Brancas procurando no sonhador e sua amada os pontos convergentes de dissimulação e controle emocional. Não acreditava que nada ali havia – “era necessária a intriga”. Enganei-me e me deparei com uma das novelas lúdicas que mais prenderam a minha atenção. Terminado Noites Brancas, percebi que a exigência das intrigas existentes em Irmãos Karamazov e Crime e Castigo eram fruto somente da minha mente apaixonada pelo peso esmagador da trama complexa. Percebi, então, que a literatura se faz a qualquer custo e a qualquer momento, e que a complexidade é a escolha do escritor muitas vezes em detrimento do enredo. Noites Brancas, caso tomada pelo peso da trama, por exemplo, de Crime e Castigo, não teria a mesma sutileza que hoje implica num caminho pela leveza dos personagens e sutileza das reações previsíveis mas naturais (e, por isso mesmo, sempre necessárias).

O último movimento da pá de cal ocorreu em Memórias do Subsolo. Ali estavam presentes os elementos da literatura perfeita: cadência, personagem definido, conflitos interno e externo, ambientação psicológica e física. Terminei Memórias do Subsolo já ansioso por sua releitura, porque sabia que tinha escapado aos olhos informações e sutilezas essenciais. Por sua característica de investigação da mente (e de reconhecimento das verdades que ninguém ousa falar), foi a mim o expoente literário que definitivamente me fez um árduo perseguidor de livros e de novas qualidades, as quais pautaram minhas preferências posteriores e que de certo modo me afastaram da literatura regional.

Por que digo isso?

Porque Ana Maria Machado, em Infâmia, foi comparada a Dostoiévski em comentários a premiações dadas a escritores que sobrevivem de sua reputação e não de sua atual qualidade. Maior pecado ao mau escritor é ser comparado a um clássico, uma vez que sabe que sua imagem se dissocia de forma tão grotesca que é impossível desvinculá-la da ironia e do sarcasmo. Quem já teve a oportunidade de ler Infâmia sabe que não passa de um livreco, um romance aberrático, irrelevante e artificial mediante personagens [que se satisfazem com a inclinação ideológica da autora] cuja padronização beira o amadorismo. Ou seja, é um romance-cartilha, dissimulado em enredo e que convence a seus tietes apaixonados pelos contos infantis (de fato, único ofício a que se deveria dedicar Ana Maria Machado). Compará-la a Dostoiévski é um escárnio, uma piada quase hilária e que faz apenas ridicularizar a já combalida nata literária que pulula sobre toda e qualquer premiação nacional.