Escuridão

A pequena menina entrou no casebre, esbaforida, trêmula diante do frio e com os olhos de pavor por aquilo que viu e aquilo que não viu. Não sabia ou não tinha certeza. As pernas fraquejadas sob a escuridão não impediram a última força diante da pesada porta de madeira, a única do casebre, parcialmente consumida pelo tempo. A lua não se mostrava há dias; sob ela as nuvens tão escuras quanto a sombra reverberavam apenas o ensaio de uma tempestade que nunca veio. Há dias se contavam os trovões que irradiavam sobre a vila, sem uma única gota. A lua já não se via e os habitantes da vila parece haviam esquecido de sua forma. Tentavam de todo modo retornar aos afazeres diários, porquanto o sol era também um breu ameno, fastidioso, irritante, que formigava os olhos e cansavam os velhos, sempre sonolentos. As crianças, naquilo que era o amanhecer, irritavam-se sem medida, como se diariamente agulhas lhes espetassem os pequeninos pés e formigassem a coluna, correndo sobre a espinha o calafrio de uma febre que não se sentia. O odor noturno da expectativa da chuva, inicialmente um alento aos moradores, repugnava, torcia o estômago. Não era mais novidade que a todo dia alguém então se vertesse ao chão, com as mãos sobre o peito, tossindo saliva. Se era ou não uma percepção real, ninguém podia dizer. O fato era que ao anoitecer, não obstante a escuridão recorrentemente iluminada pela tempestade que não vinha, bocas ressecavam como se a ansiedade da chuva pesasse sobre a mente um desespero indescritível. A mera expectativa já havia enlouquecido tantos quantos na pequena vila; não havia espaço na praça, lotada toda noite, abarroada de gemidos de palavras inaudíveis, murmúrios de sons agudos e desafinados – como apitos de uma flauta descalibrada -, de gargantas escamadas e doloridas.

Mas a porta cedera, estava já aberta. Caída ao chão e ofegante, a pequena menina se viu com mãos tomadas pelo pó que também cobria as plantas do jardim. Levantou-se escorando os cotovelos no móvel à sua direita, colado a uma parede rente ao quarto ao lado. Era a parede avermelhada de uma tintura escamada pelo tempo e detalhes em amarelo, deformados em tinta que um dia cobrira aquele cômodo. Duas portas eram vistas ao longe, fechadas, contudo também danificadas pelo tempo. De pé e trêmula, diante de sua vista turva, levemente à esquerda, perante seus olhos, encontrou a íngreme escada de madeira que seguia ao andar de cima, aparentemente incólume. Era ornada de entalhes tão antigos quanto a beleza do que vira no museu, levada por seu pai, falecido há menos de duas semanas. Não se ouvia no casebre os murmúrios da praça, sequer os escarros. Não se ouviam os prantos das mães que imploravam pela chuva. Era de uma escuridão sufocante. Ouvia ela mesma o chiado de seu peito e os rosnar dos dentes. O estalar da madeira a cada passo causava-lhe arrepios, mais ainda que do próprio frio. Sim, era que o gemido da madeira muito parecia com o grunhido da sombra que não entendia ter visto e que dela correu esbaforidamente. Sobre cada passo a sinfonia de estalos conturbava seus ouvidos; o medo parecia consumir sua alma; a febre parecia surgir na face da pequena garotinha cujo suor encharcava os longos cabelos. Aterrorizada, mantinha-se parada, evitando sem sucesso o temor de grunhidos da madeira que estranhamente crepitava sem sossego. De todo modo, a menina já não mais se recordava das lembranças do pai; a imponente escada à sua frente destoava do casebre. Nunca imaginara encontrá-la numa casa que sempre recordou abandonada. O pó lhe cortava a pele já trincada e a dor sob as unhas quebradiças começou a surgir.  Não conseguia se manter sã; o ambiente tragava-lhe a respiração e o pó cortava seu corpo, impregnado como cerol na ferida. A leves passos a menina foi em direção à escada; imaginava que no segundo andar talvez tudo estivesse mais limpo. Porém, o som ensurdecedor dos rangidos eram o relógio meticuloso do desespero.

Abrindo a boca para o grito de agonia aterrorizante, já com a saliva endurecida contornando seus lábios, notou outro som que a acompanhava. Agachou-se no canto, ao pé da escada. Os pequenos olhos estavam fechados; tremulava os lábios de ansiedade. O rangido que parecia vir da escada aumentava, acompanhando sua respiração. A cada chiado de seu peito aumentavam os gemidos da madeira, sempre intermináveis e pausadamente proporcionais, tal qual um relógio. Impondo a cabeça levemente para cima, abriu lentamente os olhos na infantilidade de esconder para si o que se evidenciava. Seu corpo encontrou o limite: soltara sem cuidado a respiração que, não percebida, prendia a todo custo. Ofegante, viu-se olhando para cima, para a escada, àquilo que não conseguia decifrar. Talvez eram grandes mãos que contornavam a parede rente à escada. No breu enlouquecedor, via a menina longos dedos e suas longas unhas rachadas, cujo movimento tão sutil fazia o barulho de prego riscando a madeira. Descia a mão de cima a baixo, de baixo para cima, somente os dedos ristes à madeira, cujas unhas continuavam o transtorno inevitável. Não havia rosto, provavelmente escondido. A pequenina menina, cujo temor já tinha tomado a forma de insanidade completa, olhava continuamente para aquilo que não conseguia decifrar. O breu não cooperava… estaria alucinando? Os olhos ressacados não mais incomodavam; não iria fechá-los. A lágrima da irritação que correu sobre o rosto pingou na pele empoeirada. Gélida, a lágrima lhe cortou a atenção, fazendo com que abaixasse temporariamente a cabeça. Limpou o molhado, mas não queria levantar o rosto. Abraçou-se a si mesma, com os joelhos quase tocando sua testa. O som não parou, mas aumentava. Aumentava e aumentava. Era um martelo no prego da consciência demente, o gemido da aproximação, quando enfim sentiu o fedor em suas narinas e o bafo quente que tomava seu rosto.