Otimista

Não sou dado a contos otimistas e que indicam a felicidade como algo natural. Talvez a felicidade seja a exceção à amargura e à desgraça que se dá em níveis tão amenos que passem despercebidos, ainda que presentes a todo momento. Esses contos sempre me pareceram artificiais ao extremo, pautados numa reflexão também artificial dos problemas humanos. Não sem motivo, também externam paulatinamente um sentimento infantilizado perante os problemas apresentados na própria história, como se a narrativa dependesse estritamente de uma “mensagem de paz”. Em regra, são essas as narrativas mais pobres e previsíveis; as mais limitadas em seus personagens e quase sempre vinculadas a uma mensagem subentendida de certa esperança que não corresponde ao sentimento natural e inerente ao homem. Por isso tão artificiais.

Não faço exigência da realidade literária. Do contrário, pois estaria traindo a minha vontade em talvez unir, um dia, a complexidade dos personagens dostoiwskianos com a fantasia mais singela de Tolkien. Pode-se considerar que qualquer boa literatura infantil – ou mesmo romances inocentes – não confundem o leitor com um otimismo que parte do pressuposto de que “a literatura precisa transmitir uma mensagem”.

Essa confusão e “profusão de mensagem” antecipa o leitor à falha literária; justifica o erro técnico pela esperança; esfumaça a escrita defeituosa em nome da boa intenção do autor; deixa ao colo do leitor perceber o que há de “maior e melhor” no bojo de toda uma obra descartável e irrelevante. Essa confusão vende a leitores que não leem; é o café carregado de açúcar àqueles que não apreciam o líquido. Um erro que vende àqueles que não conseguiriam ler duas páginas de Guerra e Paz.