O Demonologista, de Andrew Pyper

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Sempre desconfiei de opiniões que dizem que “a leitura te prende do começo ao fim”. De fato, é uma opinião honesta: uma historieta de dez laudas irá te prender, certamente, do começo ao fim, não tenha dúvidas. Após adquirir O Demonologista, de Andrew Pyper, pretendia eu fazer uma resenha detalhada sobre esse livro bastante comentado. Mas caí no erro da comparação e no equívoco de superestimar a biografia de um autor. Até mesmo H.P. Lovecraft teve seus maus momentos. Com isso, enquanto relia O Caso de Charles Dexter Ward, lia também O Demonologista. Enquanto me deparava com a ambientação detalhista de Lovecraft, Pyper me fornecia a descrição de cenários melhor vistos em gibis. Lovecraft, sem diálogo algum, fazia transparecer o caráter do personagem. Pyper, com diálogos que mais pareciam releituras de contos esotéricos da década de 1990, fez do personagem a caricatura da inteligência irônica artificializada e imatura, com traquejos chavonescos tal qual a décima piada já contada.

Aliás, já devia eu ter desconfiado da artimanha literária do professor universitário que se vê diante de uma encruzilhada intelectual e tomado de aventuras que fustigam suas aptidões de especialista. A minha paciência se esgotou com as estripulias intelectualoides de Robert Langdon. O fim do livro, odiado por muitos, foi para mim um alívio e de fato uma das poucas coisas bem planejadas pelo autor. Não fui ao encontro desse livro esperando o terror, o horror ou algo que o pareça, mas simplesmente boa literatura. E não encontrei, desculpem-me.

Não tenho ciência sobre isso, mas me parece que a história foi criada almejando o cinema, sob a pecha de publicações outras que seguiram o mesmo rumo. É a fórmula certeira sobre como destruir uma boa obra, reduzindo-a às percepções de leitura oriundas de uma transcrição de cenas de filme.

É tática de venda que não abomino, mas não espere Pyper uma comparação longínqua e realista com Stephen King, como andou aventando The New York Times.

Foto: Amantes por Livros e Filmes.

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Escuridão

A pequena menina entrou no casebre, esbaforida, trêmula diante do frio e com os olhos de pavor por aquilo que viu e aquilo que não viu. Não sabia ou não tinha certeza. As pernas fraquejadas sob a escuridão não impediram a última força diante da pesada porta de madeira, a única do casebre, parcialmente consumida pelo tempo. A lua não se mostrava há dias; sob ela as nuvens tão escuras quanto a sombra reverberavam apenas o ensaio de uma tempestade que nunca veio. Há dias se contavam os trovões que irradiavam sobre a vila, sem uma única gota. A lua já não se via e os habitantes da vila parece haviam esquecido de sua forma. Tentavam de todo modo retornar aos afazeres diários, porquanto o sol era também um breu ameno, fastidioso, irritante, que formigava os olhos e cansavam os velhos, sempre sonolentos. As crianças, naquilo que era o amanhecer, irritavam-se sem medida, como se diariamente agulhas lhes espetassem os pequeninos pés e formigassem a coluna, correndo sobre a espinha o calafrio de uma febre que não se sentia. O odor noturno da expectativa da chuva, inicialmente um alento aos moradores, repugnava, torcia o estômago. Não era mais novidade que a todo dia alguém então se vertesse ao chão, com as mãos sobre o peito, tossindo saliva. Se era ou não uma percepção real, ninguém podia dizer. O fato era que ao anoitecer, não obstante a escuridão recorrentemente iluminada pela tempestade que não vinha, bocas ressecavam como se a ansiedade da chuva pesasse sobre a mente um desespero indescritível. A mera expectativa já havia enlouquecido tantos quantos na pequena vila; não havia espaço na praça, lotada toda noite, abarroada de gemidos de palavras inaudíveis, murmúrios de sons agudos e desafinados – como apitos de uma flauta descalibrada -, de gargantas escamadas e doloridas.

Mas a porta cedera, estava já aberta. Caída ao chão e ofegante, a pequena menina se viu com mãos tomadas pelo pó que também cobria as plantas do jardim. Levantou-se escorando os cotovelos no móvel à sua direita, colado a uma parede rente ao quarto ao lado. Era a parede avermelhada de uma tintura escamada pelo tempo e detalhes em amarelo, deformados em tinta que um dia cobrira aquele cômodo. Duas portas eram vistas ao longe, fechadas, contudo também danificadas pelo tempo. De pé e trêmula, diante de sua vista turva, levemente à esquerda, perante seus olhos, encontrou a íngreme escada de madeira que seguia ao andar de cima, aparentemente incólume. Era ornada de entalhes tão antigos quanto a beleza do que vira no museu, levada por seu pai, falecido há menos de duas semanas. Não se ouvia no casebre os murmúrios da praça, sequer os escarros. Não se ouviam os prantos das mães que imploravam pela chuva. Era de uma escuridão sufocante. Ouvia ela mesma o chiado de seu peito e os rosnar dos dentes. O estalar da madeira a cada passo causava-lhe arrepios, mais ainda que do próprio frio. Sim, era que o gemido da madeira muito parecia com o grunhido da sombra que não entendia ter visto e que dela correu esbaforidamente. Sobre cada passo a sinfonia de estalos conturbava seus ouvidos; o medo parecia consumir sua alma; a febre parecia surgir na face da pequena garotinha cujo suor encharcava os longos cabelos. Aterrorizada, mantinha-se parada, evitando sem sucesso o temor de grunhidos da madeira que estranhamente crepitava sem sossego. De todo modo, a menina já não mais se recordava das lembranças do pai; a imponente escada à sua frente destoava do casebre. Nunca imaginara encontrá-la numa casa que sempre recordou abandonada. O pó lhe cortava a pele já trincada e a dor sob as unhas quebradiças começou a surgir.  Não conseguia se manter sã; o ambiente tragava-lhe a respiração e o pó cortava seu corpo, impregnado como cerol na ferida. A leves passos a menina foi em direção à escada; imaginava que no segundo andar talvez tudo estivesse mais limpo. Porém, o som ensurdecedor dos rangidos eram o relógio meticuloso do desespero.

Abrindo a boca para o grito de agonia aterrorizante, já com a saliva endurecida contornando seus lábios, notou outro som que a acompanhava. Agachou-se no canto, ao pé da escada. Os pequenos olhos estavam fechados; tremulava os lábios de ansiedade. O rangido que parecia vir da escada aumentava, acompanhando sua respiração. A cada chiado de seu peito aumentavam os gemidos da madeira, sempre intermináveis e pausadamente proporcionais, tal qual um relógio. Impondo a cabeça levemente para cima, abriu lentamente os olhos na infantilidade de esconder para si o que se evidenciava. Seu corpo encontrou o limite: soltara sem cuidado a respiração que, não percebida, prendia a todo custo. Ofegante, viu-se olhando para cima, para a escada, àquilo que não conseguia decifrar. Talvez eram grandes mãos que contornavam a parede rente à escada. No breu enlouquecedor, via a menina longos dedos e suas longas unhas rachadas, cujo movimento tão sutil fazia o barulho de prego riscando a madeira. Descia a mão de cima a baixo, de baixo para cima, somente os dedos ristes à madeira, cujas unhas continuavam o transtorno inevitável. Não havia rosto, provavelmente escondido. A pequenina menina, cujo temor já tinha tomado a forma de insanidade completa, olhava continuamente para aquilo que não conseguia decifrar. O breu não cooperava… estaria alucinando? Os olhos ressacados não mais incomodavam; não iria fechá-los. A lágrima da irritação que correu sobre o rosto pingou na pele empoeirada. Gélida, a lágrima lhe cortou a atenção, fazendo com que abaixasse temporariamente a cabeça. Limpou o molhado, mas não queria levantar o rosto. Abraçou-se a si mesma, com os joelhos quase tocando sua testa. O som não parou, mas aumentava. Aumentava e aumentava. Era um martelo no prego da consciência demente, o gemido da aproximação, quando enfim sentiu o fedor em suas narinas e o bafo quente que tomava seu rosto.

Otimista

Não sou dado a contos otimistas e que indicam a felicidade como algo natural. Talvez a felicidade seja a exceção à amargura e à desgraça que se dá em níveis tão amenos que passem despercebidos, ainda que presentes a todo momento. Esses contos sempre me pareceram artificiais ao extremo, pautados numa reflexão também artificial dos problemas humanos. Não sem motivo, também externam paulatinamente um sentimento infantilizado perante os problemas apresentados na própria história, como se a narrativa dependesse estritamente de uma “mensagem de paz”. Em regra, são essas as narrativas mais pobres e previsíveis; as mais limitadas em seus personagens e quase sempre vinculadas a uma mensagem subentendida de certa esperança que não corresponde ao sentimento natural e inerente ao homem. Por isso tão artificiais.

Não faço exigência da realidade literária. Do contrário, pois estaria traindo a minha vontade em talvez unir, um dia, a complexidade dos personagens dostoiwskianos com a fantasia mais singela de Tolkien. Pode-se considerar que qualquer boa literatura infantil – ou mesmo romances inocentes – não confundem o leitor com um otimismo que parte do pressuposto de que “a literatura precisa transmitir uma mensagem”.

Essa confusão e “profusão de mensagem” antecipa o leitor à falha literária; justifica o erro técnico pela esperança; esfumaça a escrita defeituosa em nome da boa intenção do autor; deixa ao colo do leitor perceber o que há de “maior e melhor” no bojo de toda uma obra descartável e irrelevante. Essa confusão vende a leitores que não leem; é o café carregado de açúcar àqueles que não apreciam o líquido. Um erro que vende àqueles que não conseguiriam ler duas páginas de Guerra e Paz.