Malabarismo e narrativa

É certo que o malabarismo das palavras e a chicana de expressões inócuas, quase sempre criadas forçadamente pelo escritor, parte do pressuposto de que a beleza literária está no esforço em não ser entendido; em negar a clareza da narrativa sob pena de trazer ao leitor, muito facilmente, suas verdadeiras intenções. Assim como a opulência de termos técnicos na doutrina jurídica quase sempre indica certa fraqueza teórica, é o malabarismo linguístico uma fraqueza da narrativa. Esconde-se a inaptidão trazendo ao leitor o desprazer em desvendar não a narrativa, mas sim o enigma em que se sustenta o discurso. É, enfim, a falsa complexidade ensinada nas escolas; a robustez aguada que se desfaz no primeiro conflito; a tese da complexidade que faz lágrimas nos discípulos de Paulo Freire.

Ou, ainda pior, a narrativa formada de diálogos curtos e sem fim, um atrás do outro, como se fosse o leitor a terceira pessoa numa mesa de bar. A “narrativa do palavrório”. Caso mais grave, aliás, pois indica já no começo da obra que o escritor condensa as ações dos personagens nas reações entabuladas em “anotações” sempre após cada diálogo. Essa técnica suplanta a necessidade descritiva e afasta do leitor o interesse em ver detalhada a cena que corre aos seus olhos – o serviço fica a cargo da falação dos personagens. A meu ver, a pior técnica, a mais enfadonha, apesar da mais querida por aqueles que ainda observam a literatura como uma extensão dos enredos de cinema.