Da publicação

Há dois anos:

A ingenuidade do escritor atual é achar que sua obra, uma vez publicada, seja literatura de relevo. Do contrário, a má publicação, como textos de autoajuda ou romances pessimamente escritos, serve para justificar a incapacidade do autor em administrar seus anseios por uma obra distribuída no mercado. Se um dia quiser ser reconhecido, terá em seu histórico a displicência de obras que não deveriam ser publicadas. Aliás, imagino que maior mérito tem o escritor que, atentado para suas limitações, deixa de lançar aos ventos algo que pode vir a lhe trazer grandes transtornos quando tiver, em fim, algo de respeito a ser publicado.

Tinha razão, e acrescento: a publicação da má literatura, a exemplo de qualquer romance que se segue de um autor que escreve como quem só lê as obras da moda, definha por completo a seriedade de qualquer trabalho vindouro. Aquele que deseja, de fato, ser reconhecido enquanto escritor deve se afastar de qualquer ansiedade ameninada de ver a publicação de um livro tingida pela aparência do sucesso e o falatório dos elogios. Aliás, tenho que o elogio da primeira obra publicada (ou seja, da obra que pretende mostrar o autor a terceiros desconhecidos) é o maior empecilho do aprimoramento e continuidade. A comoção do elogio deve ser vista com desconfiança; o elogio literário é a primeira instância do fracasso e a última do orgulho que inibe a criatividade.