Inquietação

Pego-me recorrentemente revisitando textos antigos, dos idos de meu mergulho inicial nas obras russas quando ainda insistia em levar a sério a inquietação agnóstica. Naquela época, saber os argumentos era mais importando que entendê-los. Falo de textos há 10 anos publicados em outros espaços de outros nomes, os quais guardo ressabiado que alguém um dia tenha acesso às baboseiras com as quais me preocupava. Contudo, um dos textos mais lidos, com literalmente milhares de visualizações até a presente data, é uma pequena pujança de pretensa inteligência com que me meti a reverberar, na típica estrutura do tolo que não sabe o que dizer e ainda assim diz “o que sente e o que importa”.  A obtusidade do texto é tamanha que conseguiu o espaço em fóruns por aí abarrotados de jovens chateados com a cruz do templo da esquina, talvez identificados com a minha “advertência” a Bento XVI. Certamente, naquela época, pegando eu qualquer obra teológica de Ratzinger poria os olhos ao alto tentando entender o que dizer contra a religião… à luz de Nietzsche.

Eram dois os problemas: identificar Nietzsche pelo erro do anticristianismo básico ao tempo em que buscava a famigerada “espiritualidade sem religião”, ímpeto que contamina qualquer um que um dia já passou pelo “excesso espirituoso”. À época, mal conhecia Kolakowski; ainda não tinha tido acesso a “O Século do Nada”, de Gustavo Corção. Desse modo, foram dois amadorismos unidos na criação de um texto inócuo que até hoje me sangram os olhos no exato momento em que o vejo nas lista dos textos mais lidos. Estou quase pronto a deletar dezenas (senão centenas) de textos que pretendo esconder. Assim como nunca irão saber se um dia tive ou não um romance não publicado.

Pretendo sinceramente ler Nietzsche sabido, hoje, que meus olhos serão outros. Não irei procurar incessantemente a discórdia, como a criança que busca a revolta. Assim como certamente ler pela terceira vez Crime e Castigo terá por consequência a vontade de guardá-lo para uma quarta leitura.

A penalidade de revisitar textos é atentar para a reforma da mente. A ansiedade de uma época não é a ansiedade de outra; a preocupação da juventude é, quando menos, um resquício da flagelo da importância do que é irrelevante e do menosprezo das coisas que realmente importam. Definitivamente, deixar as coisas nas mãos dos jovens é atentar para a destruição, o caos, a verborragia.

Quem sabe, no futuro, veja eu este texto como fruto de minha atual juventude.