Malabarismo e narrativa

É certo que o malabarismo das palavras e a chicana de expressões inócuas, quase sempre criadas forçadamente pelo escritor, parte do pressuposto de que a beleza literária está no esforço em não ser entendido; em negar a clareza da narrativa sob pena de trazer ao leitor, muito facilmente, suas verdadeiras intenções. Assim como a opulência de termos técnicos na doutrina jurídica quase sempre indica certa fraqueza teórica, é o malabarismo linguístico uma fraqueza da narrativa. Esconde-se a inaptidão trazendo ao leitor o desprazer em desvendar não a narrativa, mas sim o enigma em que se sustenta o discurso. É, enfim, a falsa complexidade ensinada nas escolas; a robustez aguada que se desfaz no primeiro conflito; a tese da complexidade que faz lágrimas nos discípulos de Paulo Freire.

Ou, ainda pior, a narrativa formada de diálogos curtos e sem fim, um atrás do outro, como se fosse o leitor a terceira pessoa numa mesa de bar. A “narrativa do palavrório”. Caso mais grave, aliás, pois indica já no começo da obra que o escritor condensa as ações dos personagens nas reações entabuladas em “anotações” sempre após cada diálogo. Essa técnica suplanta a necessidade descritiva e afasta do leitor o interesse em ver detalhada a cena que corre aos seus olhos – o serviço fica a cargo da falação dos personagens. A meu ver, a pior técnica, a mais enfadonha, apesar da mais querida por aqueles que ainda observam a literatura como uma extensão dos enredos de cinema.

 

Da publicação

Há dois anos:

A ingenuidade do escritor atual é achar que sua obra, uma vez publicada, seja literatura de relevo. Do contrário, a má publicação, como textos de autoajuda ou romances pessimamente escritos, serve para justificar a incapacidade do autor em administrar seus anseios por uma obra distribuída no mercado. Se um dia quiser ser reconhecido, terá em seu histórico a displicência de obras que não deveriam ser publicadas. Aliás, imagino que maior mérito tem o escritor que, atentado para suas limitações, deixa de lançar aos ventos algo que pode vir a lhe trazer grandes transtornos quando tiver, em fim, algo de respeito a ser publicado.

Tinha razão, e acrescento: a publicação da má literatura, a exemplo de qualquer romance que se segue de um autor que escreve como quem só lê as obras da moda, definha por completo a seriedade de qualquer trabalho vindouro. Aquele que deseja, de fato, ser reconhecido enquanto escritor deve se afastar de qualquer ansiedade ameninada de ver a publicação de um livro tingida pela aparência do sucesso e o falatório dos elogios. Aliás, tenho que o elogio da primeira obra publicada (ou seja, da obra que pretende mostrar o autor a terceiros desconhecidos) é o maior empecilho do aprimoramento e continuidade. A comoção do elogio deve ser vista com desconfiança; o elogio literário é a primeira instância do fracasso e a última do orgulho que inibe a criatividade.

Inquietação

Pego-me recorrentemente revisitando textos antigos, dos idos de meu mergulho inicial nas obras russas quando ainda insistia em levar a sério a inquietação agnóstica. Naquela época, saber os argumentos era mais importando que entendê-los. Falo de textos há 10 anos publicados em outros espaços de outros nomes, os quais guardo ressabiado que alguém um dia tenha acesso às baboseiras com as quais me preocupava. Contudo, um dos textos mais lidos, com literalmente milhares de visualizações até a presente data, é uma pequena pujança de pretensa inteligência com que me meti a reverberar, na típica estrutura do tolo que não sabe o que dizer e ainda assim diz “o que sente e o que importa”.  A obtusidade do texto é tamanha que conseguiu o espaço em fóruns por aí abarrotados de jovens chateados com a cruz do templo da esquina, talvez identificados com a minha “advertência” a Bento XVI. Certamente, naquela época, pegando eu qualquer obra teológica de Ratzinger poria os olhos ao alto tentando entender o que dizer contra a religião… à luz de Nietzsche.

Eram dois os problemas: identificar Nietzsche pelo erro do anticristianismo básico ao tempo em que buscava a famigerada “espiritualidade sem religião”, ímpeto que contamina qualquer um que um dia já passou pelo “excesso espirituoso”. À época, mal conhecia Kolakowski; ainda não tinha tido acesso a “O Século do Nada”, de Gustavo Corção. Desse modo, foram dois amadorismos unidos na criação de um texto inócuo que até hoje me sangram os olhos no exato momento em que o vejo nas lista dos textos mais lidos. Estou quase pronto a deletar dezenas (senão centenas) de textos que pretendo esconder. Assim como nunca irão saber se um dia tive ou não um romance não publicado.

Pretendo sinceramente ler Nietzsche sabido, hoje, que meus olhos serão outros. Não irei procurar incessantemente a discórdia, como a criança que busca a revolta. Assim como certamente ler pela terceira vez Crime e Castigo terá por consequência a vontade de guardá-lo para uma quarta leitura.

A penalidade de revisitar textos é atentar para a reforma da mente. A ansiedade de uma época não é a ansiedade de outra; a preocupação da juventude é, quando menos, um resquício da flagelo da importância do que é irrelevante e do menosprezo das coisas que realmente importam. Definitivamente, deixar as coisas nas mãos dos jovens é atentar para a destruição, o caos, a verborragia.

Quem sabe, no futuro, veja eu este texto como fruto de minha atual juventude.

Assaltos de paz – “Os Demônios de Loudun” de A. Huxley

Aldous Huxley em “Os Demônios de Loudun”:

No Apocalipse nos encontramos com que o Espírito de Deus faz menção de uma música de harpas e alaúdes que dão um som grandioso de trovejada. Tais revistam ser os caminhos do Senhor: fazer que um trovão retumbe com agradáveis sonoridades de alaúde e que uma sinfonia de alaúdes ressoe com os retumbos dos trovões. E por outra parte, quem poderá acreditar ou imaginar que existem correntes de paz que arrasam até os diques, que rompem os diques e que convertem em pedacinhos as barreiras do mar? Entretanto, isso é o que acontece, pois essa é a natureza de Deus: promover assaltos de paz e criar silêncios de amor… A paz de Deus é como um rio que primeiro se deslizava sobre as terras de uma comarca e que depois veio a verter em outra por haver-se quebrado os diques. Essa paz invasora dá ocasião a algumas coisas que não parecem próprias da natureza da paz, porque vêm como precipitadas, porque vêm com impetuosidade; mas isto é coisa que, como própria, pertence à paz de Deus. Somente a paz de Deus pode vir desse modo —quão mesmo a maré crescente— não para arrasar a terra, a não ser para encher o leito que para ela Deus preparou. Irrompe com furiosas aparências e se acompanha do rugido, embora o mar se ache em calma. Esse rugido é causado mais pela abundância das águas que por sua fúria, já que o movimento delas não se deve à tempestade, a não ser às águas mesmas em toda sua nativa calma quando não as move nem o sopro mais leve de vento. O mar na plenitude de sua maré deve visitar a terra e a beijar as praias que lhe servem de cinturão. E chega pleno de majestade e de magnificência. E assim acontece com a alma quando, depois de longo sofrimento, alcança a imensidão da paz que vem visitá-la sem que o mais leve sopro de vento forme em sua superfície a menor enrugação. É uma paz divina que traz consigo os tesouros de Deus e a total opulência de seu Reino divino. Esta paz tem seus precursores e seus arautos: os venturosos pássaros que anunciam sua chegada, os anjos que a precedem. Vem como ingrediente da outra vida, como um som de harmonia celestial e com tal celeridade que a alma fica como derrubada, não por opôr resistência ao favor divino, a não ser por causa de sua plenitude e abundância. É uma abundância que não exerce violência mais que contra os obstáculos que lhe saem ao passo em seu caminho de bênção; por isso, todos os animais que não são aprazíveis desaparecem fugindo à irrupção dessa paz. Com a paz chegam todos os tesouros prometidos a Jerusalém: cássia e âmbar e quantas coisas preciosas que são adornos de suas praias. Quando chega esta paz, chega com abundância, chega completa de bênçãos, chega com os mais preciosos tesouros da graça.

Sonegação legítima

A lei faz apaziguar a desordem de uma minoria e, no estado moderno, reafirma os costumes da maioria. A lei que atenta contra a maioria não será respeitada na medida em que a lei não é legitimadora e formadora de novos costumes, sequer um caminho de habilidade para a prática de atos imorais. Ainda que a lei faça esforço para a inserção social de práticas deletérias, nunca será amparada pela análise de um costume moralmente bom e socialmente aceitável. A fraqueza temporária do positivismo se respalda no sobrevalorização da legislação em detrimento do bom senso, convertendo a lei em mandamento que a maioria nunca irá cumprir. Uma Constituição determinada e imposta sobre os costumes do povo legitima a lei imoral, mas será denegrida e ridicularizada pela prática majoritária do bom costume.

Sobre isso, o ato ilegal, mas legítimo, atenua a prática de crime considerado pelo Estado de gravidade extrema quando na verdade não passa de imposição legislativa imoral.

É o caso dos impostos não aplicados, cobrados em desproporcionalidade para com a finalidade instituída ou tributados sobre bens, produtos ou serviços essenciais à vida. No caso brasileiro, o desvio tributário da finalidade do imposto (não obstante autorizado e incentivado pela legislação) é por si só um indício de que o Estado milita em detrimento da destinação tributária, subtraindo da produção privada valores para a manutenção da máquina pública ineficiente. O imposto de manutenção de vias públicas remanejado ao pagamento de dívidas estatais corrobora a desobediência civil forçada pela lei imoral. A sonegação é consequência legítima, moral e inevitável, única força do cidadão perante o Estado.

Irrelevante a formação de tipo penal nesses casos, se a aplicação da pena decorre da justa adequação do bem jurídico tutelado, que é o imposto instituído. Ora, imposto remanejado a outros fins é imposto ilegítimo (ainda que legal), mero saque coercitivo e, assim, alheio à corroboração da justiça de sua manutenção. Nesses casos, dever-se-ia colocar em dúvida a justa causa da penalidade. Imposto sonegado por via de consequência de seu desvio deliberado é mera liberalidade do cidadão pagante.

Declarar a legalidade tributária é irrelevante perante sua ilegitimidade. A lei imoral é execrável, apenas ressurgindo sobre o Estado a desconfiança de que sua arrecadação tributária deve ser interrompida. A partir disso, sonegar imposto é justo, pacífico e moral, não obstante ilegal.