Princípio e fim: René Girard (25 de dezembro de 1923 – 4 de novembro de 2015)

Conheci René Girard há mais de 12 anos, quando discutir a cristandade envolvia os questionamentos da fé. Dissequei Um longo argumento do princípio ao fim: diálogos com João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello, meu primeiro livro do acervo. Seu impacto foi tamanho em minha vida que o levava como livro de cabeceira, nunca esquecendo de conferir a próxima assertiva; maravilha-me sua lucidez na explicação de coisas simples, iluminando fenômenos que antes se via como mera trivialidade, perda de tempo. Girard negava o título de filósofo e conversava sobre sua tese como quem necessita aprender com os ouvintes, como bem faz qualquer mestre cuja maturidade lapidou o orgulho comum nas academias. Era professor e fazia dos leitores seus amigos de estudo.

Era cristão e me fez um cristão.

Foi um dos responsáveis diretos pelo retorno ao Evangelho, quando a frivolidade dos argumentos agnósticos tinha força diante da juventude cristã. Apaziguou com seus esclarecimentos mais simples o afastamento da fé, em verdade a trilha mais curta ao niilismo e à vingança. Disse o motivo pelo qual o ateísmo é uma preocupação cristã. Descreveu-me sem me conhecer e ajudou-me no reencontro da fé. Indicou o caminho da releitura bíblica e explicou a que veio as ovelhas do Pastor. Dou a Girard o crédito necessário. Sua obra é grandiosa, mas também sua pessoa.

A gratidão que fica é a mesma de outras dezenas de entusiastas que acompanhavam sua obra. Chamavam-no com razão um irmão em Cristo, aquele que instrui e que instiga.

Por sua obra e ajuda, agradeço a René Girard. Será sempre lembrado e relembrado.

Girard

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“A vitória da cruz é a vitória do amor contra o ciclo de violência do bode expiatório. Ela invalida a idéia de que o ódio é um dever sagrado. Os Evangelhos fazem tudo o que a Bíblia, no Velho Testamento, fez antes, reabilitando um profeta vítima, uma vítima erroneamente acusada. Mas eles também universalizam essa reabilitação. Eles mostram que, desde a fundação do mundo, as vítimas de todos os assassinos ao modo da Paixão foram vítimas do mesmo contágio de multidão, como Jesus. Os Evangelhos tornaram essa revelação completa porque dão à denúncia bíblica da idolatria uma demonstração concreta de como os falsos deuses e seus sistemas culturais violentos são gerados. Essa é a verdade que falta à mitologia, a verdade que subverte o sistema violento deste mundo. Essa revelação de violência coletiva como uma mentira é o marco do judaico-cristianismo. É isso que é único no judaico-cristianismo. E esse caráter único é verdadeiro.” – Em entrevista ao Estado de São Paulo – 15/05/2005.