Girard é novamente citado

René Girard é amado pela esquerda pelo mesmo motivo em que historiadores de ensino médio amam a década de 60: é possível citá-lo sem lê-lo, colocá-lo nos ombros em qualquer evento e sair o curioso como um intelectual que estudou minuciosamente a complexidade da tese mimética. Feito isso, e ainda que dizendo coisas contrárias à própria tese e em oposição literal às palavras de Girard, tem o curioso a perspicácia em relativizar uma teoria que não comporta achismos, por ser ela justamente uma estruturação magistral de estudo da violência humana. Não se trata de auto-ajuda, caro liberal. Ao passar essa imagem intelectualizada com fulcro na distorção teórica e literária de Girard, chegamos na encruzilhada entre a má-fé deliberada, fruto da dissimulação intelectual, ou da ignorância wikipediana, fruto da irresponsabilidade. A terceira via (não obstante sempre utilizada) é aquela em que a curiosidade não força o leitor ao estudo da obra, mas na mera pesquisa da obra. São coisas distintas, que formam por fim um arcabouço de erros grosseiros que convencem apenas aquele que nunca, em tempo algum, teve acesso às obras de Girard. É tática infalível, conquanto a citação nesses moldes de qualquer teórico sempre espelha a máscara da sabedoria mais rala: aquela que emociona o ouvinte incauto.

É o caso deste texto.