Literatura e a vontade de escrever

Alguns leitores perguntam sobre o descanso deste blog, quando antes escrevia toda semana. Acontece, meus caros, que a leitura de boa literatura é um desastre ao escritor contumaz. Mergulhar na fábula, enredo, personagem, trama e cenários literários conduz ao desprezo das afirmações certeiras mais óbvias (aquelas mesmas que todos querem ouvir), fazendo crer o escritor que está diante de uma fraude. Sim, após ler, reler e ler novamente Raskolnikov, sinto-me como uma fraude que tenta escrever aos outros e a mim mesmo, mais a mim que aos outros. No início deste espaço, que já teve muitos nomes e mudança de endereço diversas vezes desde o ano de 2002, sentia-me impelido pela ansiedade juvenil em mostrar ao mundo o que penso, como se fosse isso algo realmente importante. Aliás, o erro de qualquer escritor é achar que escrever é externar aquilo que importa aos outros; do contrário, escrever é externar talvez um sentimento que importa a mais ninguém, somente ao escritor. O jovem que gosta de escrever inicia a sua atividade na tentativa de dar sentido a questões já tão pacificadas que lhe parece mais como uma “revisitação das velhas coisas”. O ímpeto da juventude é justamente acreditar que fala o que há de mais importante e único, quando na verdade não passa de velhas imbecilidades que fazem o riso dos antigos.

Dessa forma, a literatura finca a cruz na cova e sentencia ao escritor que não é possível acompanhar a beleza da narrativa ao tempo em que escreve sobre a inteligibilidade dos discursos de Dilma. É impossível acompanhar a angústia sincera de Tolstói escrevendo sobre a última frase polêmica de Dawkins. É improvável que se dê qualquer importância à escrita após perceber que a boa literatura lhe informa sobre a humanidade mais que qualquer doutrina de direitos humanos. Aliás, digo que os atuantes na área jurídica (meu caso) sofre maior drama diante da boa literatura, pois lida diariamente com a técnica acéfala, dada às palavras aparentemente robustas, mas que na verdade escondem a fragilidade discursiva da teoria. É como sair de um ambiente limpo, contudo complexo, e entrar num ambiente tomado pela sujeira organizada, pomposa, atolada de palavras inúteis.

Se nenhuma palavra é inútil na literatura, devemos crer que não se deve desprezar as palavras do escritor contumaz. Porém, é o oposto: o escritor que escreve sem parar, como uma máquina de ideias, geralmente é aquele que há muito não vê um romance como forma de educação mental e adestramento dos ímpetos mais óbvios. Crê tal escritor que fala o que é devido, mas na verdade fala tudo, menos o que realmente importa. Diante dos exemplos, não tem a capacidade de mergulhar na tenacidade de O Grande Inquisidor, sequer em refletir sobre um enredo fantástico. Por isso é que o escritor experiente, com o tempo, escreve menos, afastando a verborragia e a vergonha.

Poucos são os que adequam assiduidade com qualidade, e são estes que se destacam entre os escritores medianos. São estes que perseguem a qualidade percebida nas entrelinhas literárias, tão sutis quanto a poesia mais inocente, por fim chegando na maestria de uma obra que se consuma no tempo, na memória e na cultura.

Não sou um destes e, por isso, devo retornar à leitura já que não tenho muito a acrescentar sobre o que penso e creio.