O casamento, essa instituição tão arcaica

Que se tenha por irônico que certas instituições estão sendo abraçadas por aqueles que sempre as negaram não é hoje um privilégio de poucos. Percebendo que o caminho natural das políticas de Estado é a inclusão irresponsável, intrusiva, não raro temos exemplos onde determinada instituição é sobrevalorizada em nome de uma política social que antecede essa “ansiedade igualitária”. Instituições caras ao cristianismo, leia-se. Afinal, quando falamos em igualdade, falamos de política. Mas não mais que de repente, como uma pedra jogada no meio do oceano das causas possíveis, na esteira sarcástica dos acontecimentos é que o casamento – essa instituição tão arcaica, segundo constava – foi sendo novamente colocado na pauta das grandes conquistas minoritárias. O mesmo casamento que nas décadas de 60 e 70 era desprezado e tido como um elemento a ser extirpado da vida social reacendeu o mote de conquistas daqueles que pleiteavam sua substituição pelos atos da vida, como bem se viu na jurisprudência consolidada sobre a união estável americana. Substituído o casamento, que interferência teria? Qual a relevância? Elemento sempre presente nos movimentos liberais das décadas de 60 e 70, a desconstituição institucional do casamento teve frentes dispostas perante o Estado e perante a religião, fundindo-se ambos como instituição que merecia a substituição devida. A união estável, declarada pelo Estado-juiz, foi considerada a grande conquista das décadas seguintes uma vez que simbolizava o início do fim da necessidade ritualística dos casamentos civil e religioso e o fim da autoridade religiosa enquanto entidade discriminadora sobre aquele que era e aquele que não era casado. Não obstante a proeminência do ritual religioso, o casamento civil foi reacendido em detrimento da conquista da união estável, a qual não mais satisfazia os anseios da minoria então beneficiada. Os homossexuais tinham a união estável reconhecida, mas não tinham o amparo jurídico e legal decorrente do casamento formalizado.

Naturalmente que do casamento civil foram questionados os fundamentos do casamento religioso. Poderia uma instituição religiosa se negar a casar homossexuais? Tomando como espelho a autorização civil do Estado ao casamento, da qual o casamento civil foi tido como irrevogável, não poderia a religião impedir aquilo que o Estado já autorizou. Não poderia a Igreja ou as denominações cristãs negarem o direito ao casamento homoafetivo uma vez que a guarida legal não assume distinção sob pena de “crime de preconceito”. Por isso, a declaração de legalidade do casamento homossexual americano deve ser vista como um traço do caminho percorrido à descaracterização do casamento enquanto instituição.

A contradição é apenas aparente.

O sentimento destrutivo do mote da união estável permanece. Para que se tenha a desfiguração do casamento civil, evidentemente que não restou a aniquilação rápida e amadora, mas sim a imputação de conceitos de casamentos anômalos ao espírito institucional. Em doses homeopáticas é que o casamento civil, outrora alvo de destruição, foi afirmado como “um direito a ser reconhecido”, uma etapa na trilha que converge a outros casamentos. Se o casamento civil foi transfigurado, imagina-se o contrário quanto ao casamento religioso? Acredita você, leitor, que a ritualística religiosa do casamento religioso não se debruçará diante das exigências já impostas ao casamento civil? Instituição permanente alguma pode ser removida por simples decreto. Disso é que sua manipulação e deturpação é a forma mais eficaz de manter a instituição, contudo pendendo sua finalidade naquilo que antes não importava. Casamento não é aquilo que se define, e aquilo que é. Chegará o momento em que o casamento terá seriamente abraçado a união entre homens e animais sem questionamento algum, no receio de que se faça um “julgamento discriminatório” daquele que pleiteia o absurdo.

Tal insaciedade do Estado Igualitário procede do assistencialismo, devendo por isso ser visto como um arcabouço indissociável cujas consequências vêm em conjunto.

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Escrito em março de 2013:

O mesmo Estado que retirou da religião a função de mantenedora do casamento institucional, mediante a codificação de um fenômeno familiar sob a alegação da segurança jurídica, hoje fomenta o divórcio – outra instituição também religiosa, mas deturpada pela perversidade iluminista que contaminou os governos. Este relato é a união inevitável entre ociosidade, assistencialismo e as deturpações; não se pode esperar outro desfecho senão a decadência contínua, apesar de lenta, de toda a estrutura social da religião. Dos relatos e das motivações é possível concluir que o futuro dessa gente descamba no caos e no animalismo existencial. Se a relação parasitária pode ser justificada pela ignorância e por uma lacuna moral que provavelmente nunca será suprida, da mesma maneira o assistencialismo suplanta o trabalho, sem o qual é impossível haver caridade. O assistencialismo de Estado sobrevive da decadência criada pelo próprio Estado e promove, em nome da caridade, a redução do homem a cativo de mixarias consideradas grandes fortunas. Opostamente à miséria real, que decorre da subsistência fisiológica mais básica e elementar, a miséria dos assistenciados é a miséria da alma cujo fim é a degradação da mente que contamina o ambiente que os circunda e que influencia gerações. A degradação momentânea promovida pelo Estado assistencialista levará décadas para ser sanada; e quando assim ocorrer, outra década será necessária para que seja retirada do rol de virtudes a indigência oficializada na burocracia.