O que era exceção, tornou-se regra

Há alguns anos (mais precisamente de 2005 a 2011) participei de uma série de discussões em um grupo do Yahoo chamado “Crer é Também Pensar”, nome em homenagem ao livro de John Stott. Peguei-me relendo diversas das discussões, muitas delas acaloradas cujo receio principal dos debatedores era não perder a novidade do discurso vindouro, relembrando que muitos dos questionamentos ali colocados eram, de fato, questionamentos de quem ansiava se distanciar da balbúrdia neopentecostal e da rigidez dos costumes sem fundamento bíblico; um alento daquela sonoridade desvirtuada do louvor moderno e das danças com seus movimentos tipicamente rudes, sem arte, cujo critério de beleza se equiparava às manifestações espontâneas dos cultos afros. O sentimento geral era de que cada integrante estava ali para aprender com uma visão que não se encontrava nas denominações. Cada um de nós estava lá para desfrutar do entendimento decorrente da exceção, do exclusivismo, do menor número ante o público geral que certamente desprezávamos, uma vez que éramos minoria diante das crescentes estratégias de evangelização. No auge do movimento G12, quando não se falava outra coisa senão na manipulação do Espírito Santo e na unção de qualquer coisa, negávamos os pressupostos mais básicos de experiências óbvias a qualquer cristão acomodado à rotina denominacional. Liberais, conservadores e adeptos das teologias liberais permeavam os debates.

A exclusividade de questionar os desmandos mais óbvios e os absurdos das doutrinas decadentes foi dando espaço para as reclamações politizadas com lastro em figuras como Ricardo Gondim e Ed René Kivitz (piada recorrente da época era de que Ricardo Gondim, após tomar seu cappuccino, chorava todas as manhãs pelas crianças famintas da África enquanto lia o jornal matutino), os quais falavam o que falavam por meio de trejeitos característicos à esquerda. O que era teologia, tornou-se discurso de classe; e o que era doutrina, tornou-se uma análise do opressor e oprimido. O andar da carruagem beirava o abismo do relativismo agnóstico e a negação crescente das doutrinas cristãs. Essa negação, primeiramente travestida de descontentamento denominacional, partia de uma crítica litúrgica e de um descaso para com a convicção do cristão tradicional, o que delineava o desprezo posterior a toda forma de fé religiosa. A religião era denunciada. A Bíblia, tida como um instrumento de poder, um relato histórico dispensável, uma “narrativa”, não mais servia como pêndulo de sensatez doutrinária. Reflexo de uma tendência generalizada dos movimentos antidenominacionais, inclusive com o apoio de revistas como a Ultimato, não havia outro assunto entre blogs, revistas teológicas e publicações de líderes de esquerda: a protestantismo “clássico” estava no seu fim e o liberalismo teológico era irreversível. O que era exceção, tornou-se regra. O discurso da “espiritualidade genuína” em contraposição ao “legalismo evangélico” era pauta em púlpitos e aquilo que discutíamos passou a ser assunto comum a qualquer esquina. O que falávamos com ar de novidade, agora poderia ser encontrado em folhetins.

Essa mudança de cenário cansou os ouvidos dos mais apaixonados. Mais grave que o fato denunciado era perceber que todos denunciavam o mesmo fato. A exceção tornada regra desfez a árida estrada do “esclarecimento”, como que trazendo ao ambiente comum todo o esforço que um dia se originou no estudo sincero. O que era mais grave e chateante que notar que todo o esforço da denúncia então se travestiu num discurso massificado, presente em todas as bocas? O esvaziamento do grupo “Crer é Também Pensar” seguiu o mesmo caminho do esvaziamento dos discursos liberais, os quais tornavam-se repetitivos, sem estudo e emocionais. A luta por um evangelho genuíno foi enveredada para uma luta discursiva mesquinha, amparada na ingenuidade daqueles que conheciam o movimento pela primeira vez – como a criança que descobre o brinquedo velho, já  familiar aos demais. Se o alimento do próprio discurso era a propaganda feita pelos novos apaixonados – que não participaram da construção do movimento nos anos 2000 -, era inevitável que a sobriedade de outrora se transformasse na histeria de denúncias de toda sorte, geralmente fundamentadas na “exploração do evangelho”. O ciclo se fechava; a seriedade estava maculada pela máscara das preocupações sem fim ante os “explorados”.

Quisera eu ter evitado discussões que não levaram a nada, mas tão só aos receios que durante certo tempo embotaram o meu estudo. Se podia ter razão em algo, era de que faltava esclarecimento do Espírito Santo e o reconhecimento da misericórdia. Muitos dos colegas da época hoje são agnósticos e ateus, enclausurados nas discussões sem fim sobre como foram eles levados à negação da fé. Utilizam do lastro cristão e da rotulação de ex-cristãos enquanto alicerce para que seus ouvintes sejam conduzidos a uma credibilidade que mesmo à época não se observava. O dissimulado de antes (notável nas mínimas conversas) passou então a dissimular seus motivos à apostasia, responsabilizando o evangelho distorcido e as loucuras de uma década perdida a fim de que não seja cobrado o motivo da fraqueza.