Conservadorismo e prudência

A prudência do conservador se ampara na familiaridade e lealdade às instituições que permeiam seu ambiente cultural, espiritual e político, sendo notório ao mesmo conservador que qualquer tentativa de desfiguração institucional merece repulsa imediata. Qualquer trejeito subjetivo de ruptura é ao conservador um aparato revisionista amador, fundamentado na dúvida meramente casual da instituição ora questionada com a finalidade básica de difundir a discórdia gratuita. Essa é a prudência que antecipa, ao conservador, a desconfiança para com os discursos da juventude, alicerçados nas reivindicações mais baixas e quase sempre apontadas para a exigência histérica. O conservador se baseia na familiaridade institucional para então balançar o pêndulo medidor de hesitação da mudança drástica, eis que sempre destrutiva.

Nesse sentido, o padre que diz contra a Igreja e a Tradição, desdenhando dos santos e falando contra o legado da cristandade, não merece confiança. Nisso é que esse mesmo padre, dizendo coisas caras aos protestantes (ao ponto de não se sentir a diferença entre as pregações), não deve ser visto pelo protestante conservador um aliado em potencial, mas sim um membro cristão que se desvincula lentamente de sua base teológica para então adentrar no campo do relativismo espiritual. Mais nobre ao padre a desvinculação institucional completa, mas o que se vê é o oposto: o padre que ensina doutrinas estranhas e deturpadas, pinceladas de teologia protestante, recusando ponto a ponto seu amparo teológico e mantendo-se protegido pela mesma instituição que ataca.

Protestantes conservadores comumente se regozijam com a inclinação exponencial de padres que abraçam a causa reformista. Incorrem no erro de não perceberem que a trajetória da negação da fé procede de uma reformulação discursiva de aversão de qualquer doutrina, seja ela qual for.

De maneira similar é o protestante reformado que abraça lentamente o discurso da teologia liberal, negando em similaridade espantosa o mesmo fundamento teológico que amparava sua fé cristã originária. Como o padre que anda no campo dos discursos reformados apenas para “refazer o que entende errado”, o protestante abraça o liberalismo na tentativa de refazer a institucionalização denominacional que espera denunciar. Sempre afeito ao sentimentalismo, o cristão liberal denuncia os excessos das comunidades reformadas na medida em que estipula um laço extremamente subjetivo de convicções que jura serem novidades. Conquanto um cristão que se “libertou de antigas amarradas”, busca de imediato mostrar que sua decisão, por si só, foi suficiente ao amadurecimento espiritual.

São dois personagens de uma mesma moeda, ambos desembocando na fragilização doutrinária irreversível. Quando em fim se deparam com a desfiguração completa da fé, denunciam não a instituição, mas o cristão.