Humanismo é sentimento

Lendo os argumentos de um famoso jurista, dado a falar sobre tudo, chego à seguinte conclusão: o humanismo é, antes de mero discurso, um sentimento. Ainda que reverberado na política e no Direito como um estereótipo de generosidade, é inevitável a atribuição das categorias de sentimento ao humanista que pretende convencer seu oposto. Enquanto sentimento, o humanismo não se sustenta alheio à perspectiva emotiva da realidade, buscando sempre a transfiguração do fato em teorização utópica aparentemente respaldada nas soluções do passado. A gentileza e a humildade característicos ao humanismo, presentes em regra nos discursos escritos, antecipa o estereótipo que acompanha a sentimentalização muitas vezes honesta das intenções que precedem ao ativismo humanista; o mesmo ativismo que faz caracterizar todo e qualquer movimento como um pressuposto da histeria. Com isso, não raro é possível observar o aspecto histérico e juvenil do humanista que persegue seus objetivos ainda que enfastiado de gentileza e condolência, consumido pela formalidade que mascara a fraqueza de uma discussão sentimental. A aptidão ao convencimento do interlocutor passa primeiramente pela expressividade da autoridade das terminologias utilizadas, pois é “incompreensível que alguém se oponha à nobreza daquilo que tento explicar”.

Feito isso, “direitos humanos”, “desigualdade social” e “pobreza” são sempre inseridos, recorrentemente, como forma de respaldo à tese humanista eminentemente sentimentalista, emotiva no discurso, porém totalmente destituída de critérios doutrinários específicos, prováveis e fundamentais. Torna-se uma cartilha, sobre a qual não cabe questionamento. O jurista convence ao próximo em qualquer assunto e posicionamento político, caso consiga mesclar a histeria imperceptível com a firmeza das convicções mais apaixonadas. O texto que pretendia dizer uma coisa, diz outra com a autoridade subentendida de expressões notadamente irrefutáveis, uma vez que pacificadas na linguagem popular. Não se discute “direitos humanos”; não mais se fala na inaplicabilidade da “função social da propriedade”. A arte está feita; a escultura já está formada ao gosto do artífice. Os temas são tornados indiscutíveis, petrificados diante do arcabouço da autoridade permissiva do discurso humanista. A partir desse ponto, qualquer equívoco é um detalhe superável pela beneficência do bem maior discutido, mesmo que o equívoco seja antidoutrinário, antijurídico e premeditadamente uma besteira amparada no senso comum.