Mad Men: sempre relembrado

Mad Men é o tipo de série que, após seu término, nos deixa certamente refletindo sobre as consequências de uma época que reverbera na atualidade. A fidelidade dos personagens ao estereótipo de grandeza e todos, absolutamente todos os objetos da época minuciosamente relatados, faz de Mad Men verdadeira obra de arte e documentário sobre os costumes que marcaram o auge e decadência da libertinagem quase premeditada, tão pensada quanto o primeiro acender do cigarro na mesa dos negócios.

Inicialmente confundida como uma série conservadora, cujos personagens refletiam os limites da prudência e a sobrevalorização da família, Mad Men não deixou por muito tempo espaço para que seus personagens se tornassem agentes políticos com discursos enraizados em preferências inerentes à política, tão ordinário aos dramas medianos. Era, de fato, a série cuja retratação seguiu a prioridade de mostrar ao telespectador os sentimentos que plainavam a sociedade da época.

O tabagismo de Draper – mediante “denúncia” de que Mad Men se sustentava através da indústria do tabaco – encontrava limite tão só na proeminência da bebida, servida em todos os casos, presente no ambiente de trabalho e companheira de toda e qualquer reunião. O sentimento era de que a convivência se mantinha estável e ordeira, não obstante a conturbação da época vivida. A série se encerra no fim dos anos 1960 tão bem nos mostrando que a loucura aparentemente superada perdura sobre os dias de hoje: Mad Men retrata a antiguidade de velhos panfletos e de lutas já senis, mas que nunca morrem. A religião sequer apareceu, como apostavam os críticos. Ignorada, não nos foi dado espaço para especulações sobre como agia aquela sociedade americana que hoje permanece no imaginário enquanto ápice da firmeza religiosa. O roteiro não fugiu ao que importava, mantendo-se incólume a condução de Don Draper à sua ascensão e decadência.

Não pretendo aqui fazer resenha alguma. Mad Men é de longe uma das séries mais bem escritas e caracterizadas já feitas; um exemplo sobre a maneira como cada detalhe pode ser elencado em cada cenário, mergulhando o telespectador na trama que não deseja abandonar. É o que se pode chamar do drama eficazmente relatado, imanente ao gênero literário convertido às telas. Se literatura, Mad Men de certo não escaparia à grandiosidade em demonstrar ao telespectador as minúcias de cada ambiente e acontecimento. A saudade que me deixa a série é a mesma do livro que, de tão bem escrito, já antecipa uma segunda leitura. Ou a saudade em tomar conhecimento de discursos por mim não vivenciados, mas ainda hoje sempre proferidos.

Estes episódios finais serão como uma grande despedida, com o mesmo entusiasmo da apresentação do primeiro episódio. Sinto-me no mesmo espírito das últimas páginas de Crime e Castigo, quando Raskolnikov, já condenado, ainda não sabia de sua sentença. Mad Men já entrou para a história televisiva e fecha nestes episódios verdadeira aula de roteiro e cenário. Don Draper já faz parte do rol de personagens característicos aos clássicos televisivos. Peggy Olson, a mulher que outrora inerte descobre-se apta a assumir o papel de líder em meio aos acomodados.

É série para não ser esquecida.