O cientificista que não é cientista

O cientificista que não é cientista, geralmente aquele que sempre estudou “ciências humanas”, não escapa à emoção de defender o que não conhece e de divulgar, como um profeta, as benesses de uma ciência que não entende. No máximo, como curioso contumaz,  um jovem imbuído da missão de revelar ao mundo a finalidade da ciência, percorre a estrada sempre duvidosa do amadorismo caracteristicamente juvenil. Essa personificação inapropriada do conhecimento da ciência tem seu motivo primordial na ansiedade do amador em se colocar enquanto responsável pela Verdade, antes um papel eminentemente filosófico. O trajeto à verdade se confunde com o apelo dos questionamentos mais básicos da filosofia, portanto não sendo novidade alguma aos que já se encontram avisados sobre a artimanha do discurso ativista travestido de tese. O cientificista, tornando-se ele próprio a imagem do sujeito compromissado com a causa, eleva os métodos científicos a um patamar raramente encontrado entre os cientistas de facto. Não só um discurso, essa elevação transforma a ciência na representação substitutiva do sentimento religioso, coadunando a máscara racionalista cientificista com o dogma das tradições de fé. Com uma diferença: o alicerce do cientificista existe no ativismo e na retórica politizada da “descoberta da verdade”, por isso sempre mutável ao gosto do tempo. A distância gradual entre o cientista e o cientificista traz ao ativista a artimanha de opor sua ineficiência técnica – ou seja, realmente científica – ante o inimigo imaginário mais distante, o espantalho inerte da plantação: o religioso. Ao que tudo importa, a saga do cientificista que não é cientista, geralmente aquele que sempre estudou “ciências humanas”, termina na negação de uma divindade qualquer para, depois, reafirmar a necessidade do Estado em regular tanto a ciência quanto a religião, porquanto não haveria como trazer ao homem médio a imposição de um discurso ativista senão por meio da coerção estatal. Não que isso seja um espanto: o ativismo não sobrevive sem o Estado moderno, cauteloso em favor das causas menos nobres, e não seria diferente com a ciência. Ao apontar o dedo da mudança, aponta segurando a mão do Grande Irmão. Não é coincidência que esse mesmo amador peça encarecidamente que as escolas religiosas deixem de ser religiosas, e que a reza da instituição católica seja convertida em cantorias cívicas.