O jovem Pedro

“Não posso parar, não agora”. O jovem Pedro ainda rememorava a cena de poucos minutos. O homicídio estava consumado e as mãos sujas da terra vermelha não disfarçavam o vermelho do sangue daquele que era seu amigo, mas único amigo. Se havia distrações no caminho, Pedro não as percebia: perambulava com as mãos trêmulas, com pé ao barro, sem notar que na pequena igreja da vila, onde o Padre Anselmo sempre atendia, já de longe apontavam-no como um doente à beira da morte. Encharcado de suor e sangue, contentara-se em apenas vestir a bermuda de sempre; a vista turva não lhe permitia discernir se aqueles que apontavam também desconfiavam do crime. “Inútil esconder, estou arruinado”, pensou Pedro. Logo após, com a vista ainda debilitada pelo cansaço, tropeçou na antiga cruz que, se agora ao chão perante a capela, antes era o símbolo da pequena cidade. Era a cruz que se via de longe e fora derrubada por ordem de Padre Anselmo, sob justificativa de que os ordenamentos atuais dispensavam os símbolos de outrora. Lentamente corroída pelo tempo, evitaram que fosse descartada e por isso continuava ali, deitada e esquecida no chão de terra. Contudo Pedro não se importava, estava decidido: Padre Anselmo iria escutá-lo. A mão no corrimão não evitou o primeiro tropeço. Poucos dos que ali estavam tentaram decifrar o que havia se passado. Pedro não travou qualquer olhar, apenas seguia em frente em busca do padre, apesar dos cochichos intermináveis que ressoavam em seus ouvidos como a mosca sobre a carne podre.

Eis ele, sentado defronte ao altar, às costas de Pedro, com a respiração levemente ofegante. “Sei o que fez. Não há mais volta”, disse calmamente Padre Anselmo. Pedro não se importou. As pernas trêmulas pela raiva evitavam que corresse esbaforido pela capela. As mãos, esbarrando nos velhos bancos, marcou também o chão quando caiu estrangulado pelo ódio, as veias saltadas quando enfim observou Padre Anselmo como queria. Não disse, não tinha nada em mente. A cena do assassinato se repetia, interminável… “Se tenho febre, é a febre da culpa, corrosiva e destrutiva”. Pedro, quase na convulsão, e apesar de fisicamente debilitado, permitia certa empatia em seu rosto. Rastejando de forma patética, chegou aos pés do padre com as veias saltadas, pelo que não escondia nos olhos a dor do remorso. Chorava compulsivamente e escarrava no chão o catarro contaminado da terra. Trêmulo e envergonhado, esfregou sem propósito o rosto aos pés de Anselmo, o qual não se dignou a olhá-lo. Olhava, sim, para o altar já enfeitado às festividades.

A ruína de Pedro fez de seu ato um exemplo do fato heroico transformado no conto do ridículo. Acumulavam as gentes interessadas no desfecho da confissão. “Estaria Pedro tentando se confessar?”, perguntou inocentemente a pequena menina enquanto segurava a mão da avó. Sabia Padre Anselmo que Pedro confessaria o assassinato, mas não o pecado. Aliás, qual o pecado era que Anselmo não saberia dizer. Não saberia sequer discernir se Pedro encenava outro teatro, quando há meses tentara se passar por embriagado a fim de disseminar certos boatos. Porém ali estava o jovem Pedro, ao menos aparentemente arrependido. Não levantou a cabeça. Continuava murmurando em meio aos prantos que nunca ninguém presenciara. Certo é que a desconfiança do ato grotesco de Pedro fez de Anselmo também condescendente à miséria do jovem. Como o pai que corrige o filho pela omissão, nem se deu ao trabalho de lhe dirigir outra palavra. Estava ali Pedro, prostrado, sem reação digna de seu orgulho, humilhado perante o padre que sempre odiara. O fato é que Pedro não tinha forças para almejar qualquer esforço, muito menos para expressar a Anselmo qualquer repulsa. Não ao menos naquele momento, naquele singelo instante em que pela primeira vez toda a comunidade assistia a decadência completa do jovem sempre genioso, porém não menos dissimulado e de índole duvidosa.

Eis que a face do jovem se descolou dos pés do padre, deixando-os enlameados. Ainda trêmulo e com vertigens de toda sorte, Pedro tentou apontar o dedo à face de Anselmo. O dedo calejado pela roça, agora ferido talvez pela forma como segurara o martelo do homicídio, apontava diretamente aos olhos do velho padre. Anselmo continuava quieto, sem expressão corporal aparente, porém visivelmente irritado em seu semblante. O pranto de Pedro não cessava… perguntavam-se os demais ali presentes se o jovem não estava tendo apenas mais um de seus ataques histéricos, cuja característica básica era o desastre do ambiente ao redor. Não, não. Desta vez, nesta única vez, Pedro se encontrava consternado pela lástima e com a alma degolada pela culpa. A culpa que talvez nunca sentira, sem jamais tê-la cogitada. O homicídio que lhe parecia um detalhe agora se transformou no abismo da alma, o fosso interminável da tristeza. Era isso, Pedro estava finalmente triste, culposo, lastreado pelo remorso, sem perspectiva de inventar uma nova desculpa. Como jovem, lutava contra a cena óbvia e inegável da circunstância que lhe retirou toda paz. Ao menos perante os pés de Anselmo, ainda que sob o ódio irredutível, Pedro encontrava o conforto que necessitava. Não conseguiu palavra alguma com o padre e nem teria forças para isso. Limitou-se àquela cena, presenciada por algumas dezenas de curiosos, sem entretanto notar que sua família não estava ali presente. Era o seu bálsamo daquele final de tarde, pouco antes de seu suicídio, logo atrás da capela, na árvore que brincava desde criança.

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