Ateísmo, fé e ocidente: algumas perguntas

Segundo René Girard, em “Aquele por quem o escândalo vem”, o ocidente tem a originalidade de revisar suas características fundamentais e imputar os erros sociais a desvios básicos do ocidentalismo, os quais merecem incessante revisão. Assim, a “crítica do ocidente pelo ocidental” é nada além que uma das características do próprio ocidentalismo, ao ponto de fazê-lo um elemento indissociável do mundo moderno ocidental. Estaríamos portanto diante do dilema da verve espiritualista, pretensamente religiosa, cujo revisionismo tem ganhado força a cada dia mediante a desfiguração dos ritos religiosos e da importância das tradições. Por isso explica Girard que o ateísmo enquanto tal é nada além que um dos frutos do cristianismo (senão o fruto mais podre), em verdade uma “invenção cristã”, cuja definição não subsistiria em outras culturas que não experimentaram dos reinados e governos cristãos. Implicitamente temos que o ateísmo é um fenômeno essencialmente moderno, ávido na filosofia pela desconstrução e, na política, pela laicidade que sobrepõe o ideal ateísta sobre a cultura religiosa majoritária. O ateísmo seria a modernidade que descambou nos acontecimentos do Século XX. Não é de se espantar que o ateísmo ganhe então força entre os ex-religiosos, muitos dos quais sob influência direta do cristianismo que gera e sempre irá gerar profeticamente os anticristos, até o fim dos tempos.

Mas se o ateísmo é cria do cristianismo, por qual motivo vemos a crescente espiritualização irresponsável das tradições religiosas pelos cristãos ainda assim declarados? Certamente que pelo mesmo sentimento de eliminação pormenorizada das tradições, as quais consubstanciam os ritos religiosos. Dentre os evangélicos tal sentimento é uníssono ao ponto de termos a substituição do mandamento pela consciência íntima, subjetiva e relativa, que justificaria todo e qualquer discurso pretensamente cristão, com roupagem meramente libertadora das amarras dos ritos (ou, como dizem, “da religião”). Por isso é que o cristão espiritualista toma facilmente o caminho do agnosticismo, sem antes passar pela negação da sistematização teológica e da observação das doutrinas – a doutrina costuma espantar aquele que titubeia na cruz, por afastar a conscientização, não dando espaço aos cacarejos dos intimistas.

Ainda sob a observação inicial de René Girard, conclui-se que a revisão ocidental de seus próprios costumes tem contaminado o cristianismo, porque tenta revisar a validade da “nação sob a vontade de Deus”. Ou, melhor dizendo, seria o cristianismo o causador do revisionismo e da decadência, como alegam os discípulos de Nietzsche? Certo de que a crise da cristandade é muito mais uma crise do próprio ocidente, como unir o cristão a esse fenômeno da desconstrução de tudo que é ocidental, inclusive a fé cristã? Estaríamos mesmo ante o renascimento da nova cristandade, vigorosa na  evangelização, agora no oriente? Creio que René Girard irá me apresentar a resposta, mais à frente.