Pequena nota sobre Raskolnikov: “ele então se convence”

Quando o jovem e impetuoso Raskolnikov inicia o seu trajeto ao homicídio; quando vincula a sua paixão imatura à ansiedade de justiça e corrobora o erro pela vingança, é ali que temos a descrição exata da senilidade aparentemente sensata da juventude. A crítica literária há tempos vem trazendo ao personagem Porfiri a conotação da corrupção burocrática. Proponho, talvez sem novidade alguma, seja Raskolnikov o símbolo da ansiedade da juventude em se diferenciar pela degradação de alma e dissimulação moral. Sempre que posso evito trazer a determinado personagem o coletivo que melhor lhe representa, mas não pude resistir à caracterização com a qual Raskolnikov foi posto no enredo. Sem dúvidas, Crime e Castigo deve ser analisado enquanto relato da revolta revolucionária. A redenção de Raskolnikov, após a confissão desastrosa à prostituta [e amante] Sónia, pode ser percebida como um declive de acontecimentos que parte primeiramente do desespero das investigações de Porfiri e descamba no reconhecimento da culpa. A ambição assassina de Raskolnikov não estava ao relento de seu caráter, mas sim amparada pela teoria ainda não concretizada, um germe intelectualizado de comodidade para com o ato grotesco. O jovem é então questionado por Porfiri, o delegado: “do que se trata a sua tese?”. Trata-se da distinção entre duas categorias de indivíduo, a um dada a vida ordinária e comum; ao outro, os atos de revolta e subversão. Raskolnikov está inserido na segunda categoria. Ainda que não assumidamente, o jovem permeia os acontecimentos anteriores ao homicídio num apanhado de burburinhos ao redor da usurária. Ora, o que melhor abraça a subversão se as adjetivações de terceiros, aparentemente despropositais e honestas? Eis então que Raskolnikov escuta atribuições à usurária que eventualmente fazem da mesquinhez um erro a ser combatido. O jovem, imbuído de sua subversão, talvez naquele momento tenha se convencido de que o assassinato consumado não seria o pior dos pecados: pior seria manter a usurária atuando desenfreadamente na destruição perniciosa de seus clientes. Nada mais comum: a velha viúva, aparentemente rica, explorando terceiros que lhe pedem empréstimos com garantidas de penhor. O jovem está convencido! Roubá-la é secundário, mas o assassinato é justiça. A culpa depois se apodera do que lhe pertence e retira do jovem a paciência na solução do impasse… Deveria ele se declarar culpado? Ora, porém a culpa não persiste diante da justiça. É da injustiça a culpa proveniente de atos no passado considerados de grande maestria e maturidade, maduros porquanto imersos nas loucuras sempre plausíveis da juventude. Justiça e culpa se excluem; a perversão contudo é facilmente mensurável. Svidrigailov entra em cena, no enredo permitindo a contraposição das consequências que fazem da culpa um contorno sutil que leva ora à redenção, ora à desgraça última da existência: o suicídio. Svidrigailov, indisposto a qualquer reconhecimento dos males que preenchem seus atos, invariavelmente pecador e decadente, suicida-se. Abre-se a Raskolnikov o leque de oportunidade e da inevitabilidade da redenção ou orgulho destruidor; a culpa antecipa os sentimentos que o levariam à confissão e o destrói lentamente ao ponto da insanidade. Reconhece-se homicida e cumpre sua redenção no cárcere, mas liberto.