Literatura e escrita

Tenho para mim que a literatura instiga o escritor atual a abandonar a escrita. Quanto mais se lê grandes romances, mais se percebe a fraqueza da perspicácia intelectual que um dia imaginávamos ter controle. A literatura que instiga a mente e o espírito é aquela que também coloca no seu devido lugar o escritor que escreve não por ofício, mas por prazer. Nesse instante percebemos que a audácia do bom enredo acompanha o sofrimento do escritor em desenvolver seus personagens; opostamente, aquele que escreve por prazer o faz por uma tentativa simplista de fazer da literatura um passa-tempo, um hobby irresponsável. Vejo hoje que o escritor que alega odiar escrever não mente. Na verdade, percorre o caminho natural da literatura que perdura sobre obras eternas e apenas eternas porquanto construídas com responsabilidade, dedicação, cansaço, disciplina, paixão.

Ensaio um romance, mas não posso escrevê-lo sem entender que o tempo que me será tomado é insubstituível. Não se trata de escrever nas horas de lazer, mas de escrever incessantemente como quem medita sobre palavras, expressões, cenários e discursos. Não creio na literatura que se diz filha do tédio diário ou de um tratamento psicológico patético. Não vejo a literatura como remédio de cura, mas como a causa do enlouquecimento. Não consigo observar o literato um sujeito que faz da escrita uma exteriorização de dons ininteligíveis; aliás, é o dom da escrita o maior inimigo da escrita: o comodismo da facilidade em lidar com as palavras inibe inevitavelmente a construção magistral de uma obra oriunda da dedicação e técnica. Almejar a literatura me faz pensar se não almejo algo impossível de se alcançar sem uma reflexão prévia, tão perigosa que poderia ser o início do abandono de qualquer projeto de escrita. A dedicação lúdica da escrita é antagônica à literatura… os romances tão bem construídos, estes sim tão bem abraçados com o isolamento completo do escritor… Aliás, imagino se a escrita e a ascese monasterial sempre foram corroboradas pela ansiedade da produtividade que acompanha o esforço. Pobre de nós. Temos a literatura contemporânea como ápice, enquanto que representa de fato a deflagração de um desleixo oriundo do “dom”, da “escrita que flui naturalmente”, da “mensagem por trás do todo”, dentre outras asnices.

Espero entender em que ovos estou pisando.

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