Sobre o personagem literário como espelho do autor

O crítico que imputa ao personagem da obra literária a “inconsciência psicológica do autor” mergulha no limbo do senso comum facilmente encontrado em qualquer resenha mediana. A caracterização psicológica do personagem em face do autor é o primeiro dos erros que permeiam a desconstrução deletéria da literatura. É assumir que o autor, uma vez gênio e incomparavelmente perspicaz, reduz sua obra à transferência inevitável de suas frustrações, ansiedades e desejos mais obscuros. A comparação é falaciosa, mas não desproposital: a “psicologia de boteco”, como se diz, hoje é a principal arma para quem deseja denegrir a imagem de determinado autor. Não só denegrir, mas também reduzir seu esforço literário e bajular a inevitabilidade do inconsciente. Se faço do eu-lírico um perverso viciado em tabaco, eis que teria na minha sentença “a vontade de transferir ao personagem sentimentos intrinsecamente meus”. Se faço do protagonista um amoroso senhor que, não obstante sua civilidade, promove a dissenção familiar e o ódio dos filhos, julgam-me “pelo escritor que vê no bom homem um espelho de sua vida pessoal e o ódio dos filhos, ‘um fato’ a ser investigado e registrado na biografia”. Mais vale o silêncio. Uma obra introduzida por esses desvarios incontornáveis, com aparência de inteligência, induz o leitor a sempre vincular o autor à fraqueza dos personagens. Sequer digo virtudes, porque o papel do “crítico de boteco” não faz por menos em constantemente elencar erros, fracassos e eventuais loucuras do gênio. Entretanto, é isto: o gênio contemporâneo só pode ser louco, perverso, destituído de qualquer espírito cristão, sexualizado, moralmente relativista e detrator das coisas espirituais. Não obstante elogiado nas resenhas sem fim, a genialidade contemporânea deve ser esquecida a fim de alcançarmos a classe e sobriedade dos antigos. A literatura atual sofre de uma tendência à juventude e seus méritos mais básicos: inconsistência, malícia, ironia inepta e vitimismo não assumido, características então acompanhas pelos críticos.