Sobre o personagem literário como espelho do autor

O crítico que imputa ao personagem da obra literária a “inconsciência psicológica do autor” mergulha no limbo do senso comum facilmente encontrado em qualquer resenha mediana. A caracterização psicológica do personagem em face do autor é o primeiro dos erros que permeiam a desconstrução deletéria da literatura. É assumir que o autor, uma vez gênio e incomparavelmente perspicaz, reduz sua obra à transferência inevitável de suas frustrações, ansiedades e desejos mais obscuros. A comparação é falaciosa, mas não desproposital: a “psicologia de boteco”, como se diz, hoje é a principal arma para quem deseja denegrir a imagem de determinado autor. Não só denegrir, mas também reduzir seu esforço literário e bajular a inevitabilidade do inconsciente. Se faço do eu-lírico um perverso viciado em tabaco, eis que teria na minha sentença “a vontade de transferir ao personagem sentimentos intrinsecamente meus”. Se faço do protagonista um amoroso senhor que, não obstante sua civilidade, promove a dissenção familiar e o ódio dos filhos, julgam-me “pelo escritor que vê no bom homem um espelho de sua vida pessoal e o ódio dos filhos, ‘um fato’ a ser investigado e registrado na biografia”. Mais vale o silêncio. Uma obra introduzida por esses desvarios incontornáveis, com aparência de inteligência, induz o leitor a sempre vincular o autor à fraqueza dos personagens. Sequer digo virtudes, porque o papel do “crítico de boteco” não faz por menos em constantemente elencar erros, fracassos e eventuais loucuras do gênio. Entretanto, é isto: o gênio contemporâneo só pode ser louco, perverso, destituído de qualquer espírito cristão, sexualizado, moralmente relativista e detrator das coisas espirituais. Não obstante elogiado nas resenhas sem fim, a genialidade contemporânea deve ser esquecida a fim de alcançarmos a classe e sobriedade dos antigos. A literatura atual sofre de uma tendência à juventude e seus méritos mais básicos: inconsistência, malícia, ironia inepta e vitimismo não assumido, características então acompanhas pelos críticos.

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Notas sobre a literatura

O exercício intelectual típico da literatura está muito além da tecnicidade enfadonha dos livros didáticos, os quais instruem sem trazer ao leitor a compulsão por algo além do próprio conhecimento. A reflexão literária, ao contrário da assimilação metodológica, permeia os sentidos do homem, o qual é impelido a reconhecer sua perversidade intrínseca, inegável e só a ele concernente.  Em suma, é a reflexão que não permite maquiagem retórica e tergiversação discursiva. A apreensão da leitura de Tolstói por muitos cristãos parte justamente dessa reflexão, reconhecidamente influente do espírito e das tendências religiosas. O martelo que desce em Ana Karênina é muito mais violento que o martelete das epístolas de Tolstói, quando alegava sua deficiência de fé sem qualquer constrangimento de público. Por isso que Victor Hugo, conquanto seus romances tiveram grande repercussão na Europa cristã, foi refreado pelos órgãos de censura genuinamente instituídos, proclamados e apoiados pelo cidadão médio, receoso de que a pretensão do autor trouxesse forte desconforto das tradições. Outros tempos, outras preocupações.

A crise da censura medieval, somente tida por interessante nos idos do Século XIX, não pode ser vista pelos olhos do mundo moderno, acostumado com a intromissão de toda sorte de ideias, ainda que deletérias. Percebida em suas obras com reticências no lugar de nomes ou lugares, sequer a censura czarista dos textos de Dostoiévski merece tamanha apreensão. A rigidez do governante estava mais atenta à literatura, despropositadamente enredada por personagens sem fim. A preocupação com a escrita meramente didática, então registrada em livros, era tão ineficaz ou rara que sequer teve espaço para as análises dos críticos contemporâneos. A literatura, também na forma do teatro, hoje considerada mero passatempo lúdico e destituída de grandes ensejos, era no passado a chave de entrada para as concepções que movimentavam multidões e que maculavam a tolerância de reis e nobres.

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O equívoco do menosprezo à literatura antecipa a deficiência sobre como se formam as convicções. Pelo conhecimento sistematizado? Não, mas pelas paixões individuais quase sempre vinculadas à reflexão do ambiente literário. Mais nos convence O Grande Inquisidor que o compêndio didático da inquisição. A ironia da literatura nos indica a perspicácia não só do escritor, contudo também do leitor. Mergulhar na ambientação do enredo e simular os diálogos permeiam inevitavelmente o processo de convencimento a que nos remete o temor dos antigos para com histórias que hoje consideramos dispensáveis, um detalhe na formação cultural.

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A ingenuidade do escritor atual é achar que sua obra, uma vez publicada, seja literatura de relevo. Do contrário, a má publicação, como textos de autoajuda ou romances pessimamente escritos, serve para justificar a incapacidade do autor em administrar seus anseios por uma obra distribuída no mercado. Se um dia quiser ser reconhecido, terá em seu histórico a displicência de obras que não deveriam ser publicadas. Aliás, imagino que maior mérito tem o escritor que, atentado para suas limitações, deixa de lançar aos ventos algo que pode vir a lhe trazer grandes transtornos quando tiver, em fim, algo de respeito a ser publicado.

Não sou um entusiasta; ou “conservadorismo juvenil”

Escrito em 19 de setembro de 2011.

Já afirmei diversas vezes, e quem me conhece sabe que de fato prezo por esta máxima, que se você deseja a seriedade em qualquer movimento, ainda que seja a reunião de tudo o que há de pior e melhor no mundo político, vá para longe do Brasil. Do liberalismo econômico ao conservadorismo político, a apresentação de novas figuras (dotadas de uma facilidade de acomodação das próprias redes sociais) implica na apresentação de novos problemas, tal como na constatação de novos desafios.

Nelson Rodrigues há décadas já afirmava que aquele que confia no jovem é um louco. Roberto Campos, na década de 80, afirmava que o problema do liberalismo brasileiro é sua inexperiência política (pois que defendida por jovens). O ortodoxo Dostoievski afirmava que os jovens têm a paixão das crianças, e também sua imaturidade. E se há algo que abarrota os meios conservadores atuais são jovens que, se imaturos ou de fato já esquecidos de que conservadorismo significa o estudo filosófico, conseguem antes eliminar de vez qualquer chance de prorrogação daquilo que se observa como um levante conservador, tendente à organização política. Não sou e provavelmente não serei um entusiasta desse ressurgimento. A volúpia das redes sociais, sua facilidade em deturpações e a inexistência de centro de estudos específicos me fazem pensar se a criação dos mesmos seria a criação de clubinhos juvenis, abarrotados de sonhadores que, muitas vezes, possuem o mesmo ímpeto e técnica revolucionários.

“Não gosto de Pedro Sette-Câmara, menos ainda de Leonardo Bruno, estes acomodados”, foi a frase de um jovem que no ativismo tentou explicar sua natureza inquieta. Para o tal – e tenho em mente que outros milhares pensam da mesma forma – a reflexão meramente teórica, justamente a mesma reflexão que descambou na consolidação do conservadorismo americano, faz parte de uma praxis subjetiva, porém essencialmente coletivista. Significa dizer, caros, que as novas bolhas conservadoras recentemente formadas contêm em si a mesma e igual perspectiva dos movimentos de esquerda, tão somente alterada a causa e suas implicações no mundo partidário, mas mantidas as consequências finais no anseio do poder.

Todos os grandes centros conservadores formados a partir da era Reagan foram por duas décadas avessos à politização e partidarização da intelectualidade conservadora. Em outros termos, relata-se que a teorização conservadora, sua concretização filosófica, antecede a uma formação conservadora partidária, que tão somente se alimenta de estruturas teóricas identificáveis e amparadas em estudos previamente analisados, discutidos, relevados, que se de fato incompatíveis com a tese conservadora são, portanto, descartados à luz de posições maturadas. A independência – ou, no máximo, a politização em partidos simbólicos – ressalta a natureza teórica do conservadorismo.

O conservadorismo é teorizador, e escapar desse pressuposto é decretar já de antemão o confinamento de qualquer movimento conservativista à sua diminuição tal qual um movimento de cunho estritamente ideológico, que não observa nada além da própria ambição politizadora. A ideologização do conservadorismo, seu amestramento a uma etapa diminuta e dissimulada da política, exige ao menos a consideração partidária em mesmo norte dos movimentos conservadores ingleses, hoje irrelevantes, hoje engolidos pelos discursos somente aqui e ali válidos na conjuntura política europeia. O afastamento da teorização é a destruição de qualquer pretexto conservador, e Voegelin já na década de 40 nos mostrava que política e intelectualidade somente se demonstram amigáveis se acompanhados de uma maturidade filosófica, escorada antes na maturidade individual.