Literatura e complexidade

A aparente complexidade da escrita jurídica esconde equívocos básicos da linguagem formal: a escrita em verdade não é complexa, mas maculada pela valorização da forma em detrimento do conteúdo. A complexidade é aparente, um simulacro de erudição. O conteúdo, relegado a segundo plano doutrinário, se submete à pomposidade unilateralmente exigida pelo jurista e passivamente aceita pelo leitor, o qual não ousa admoestar o jurista que não sabe escrever. A complexidade, no jornalismo, é invertida pelo simplismo metódico, sem antes abandonar a profundidade cognitiva necessária para o esclarecimento ideal. Na boa literatura, ambos os problemas são resolvidos. Encontramos nela a complexidade não da forma, mas do conteúdo; o rigor do método linguístico que determina também a simplicidade do enredo. “Boa” porque há má literatura, esta que prioriza o malabarismo linguístico e o estupro retórico enquanto que a boa literatura intensifica o discurso inteligível, cuja forma se dobra à necessidade de transferir ao leitor o mundo descrito e os detalhes sensíveis à imaginação. A complexidade da boa literatura não se submete à [dis]simulação discursiva, mas ao emaranhado inteligível do discurso e da forma, maneira pela qual o leitor se vê obrigado a aceitar que os defeitos da construção imaginária do enredo é de sua total responsabilidade. Em regra, culpados são os floreios linguísticos que, na literatura, iniciam uma caminhada de retradução daquilo que o autor quis dizer. A complexidade se torna um dos personagens. Então, diz-se que aquele que se recusa a aceitar o malabarismo discursivo também se recusa a desvendar as intenções do autor. Justamente esse o fundamento da falsa erudição jurídica, porquanto subentendida na distinção entre leigo e especialista. Aquele que acusa a inintelegibilidade discursiva é de pronto sentenciado enquanto leigo, despreparado a assimilar referida erudição. Na má literatura vemos que o imbróglio envolve a fraqueza da trama e a fragilidade dos personagens. Não mais é literatura, mas mero discurso. Contudo, no ambiente jurídico o imbróglio é ele mesmo o elogio esperado na manufatura; é a complexidade ela mesma a beleza que circunda os erros de inteligência.

Assumo que já me deliciei com a complexidade errônea, aquela que se simplificada não traria qualquer informação relevante. A complexidade discursiva jurídica é bela, porque direcionada a especialistas. Em outras palavras, a busca pelo esclarecimento perpassa os erros formais e a dubiedade estrutural do escriba, por fim considerado doutrinariamente também pelos conceitos estritos os quais dependem de um entendimento dos institutos jurídicos. Ou seja, a explicação, o esclarecimento, a elucidação procede da falsa erudição, a qual resulta em desperdício textual proposital. A complexidade, porém, é bem-vinda quando acompanhada da erudição linguística fundamental. Não a rejeito. O complexo enredo de Os Irmãos Karamazov, de Doistoiévski, está intimamente abraçado à clareza fenomenal da trama e à simplicidade sem precedentes dos discursos. Não só complexa, a obra do russo demonstra a tenacidade da narrativa erudita, realmente erudita, cuja nobreza discursiva não está acompanhada da frivolidade do emaranhado de palavras desconexas, jogadas ao vento, para que o receptor tenha o trabalho de decifrá-las. Não nego que existe um entendimento posterior à falsa erudição jurídica; ele é inevitável, após algumas centenas de palavras desperdiças. Mas disso resulta o mesmo critério literário, o qual não admite tempo perdido se se quer uma obra magistral. Talvez por isso que juristas, na maioria esmagadora dos casos, dê péssimos romancistas.