O fariseu

A mera associação automática dos movimentos evangelistas liberais com a periferia e pobreza, assim submetidos às ações sociais das mais diversas, conscientizadores contumazes e amantes da simplicidade compulsória, já é motivo para desconfiança. A crescente exposição de seus motivos de piedade tem gerado um desconforto que pareciam desconhecer. É, sim, o desconforto da evangelização que não sobrevive sem o descalabro da autoridade social, das palavras de esclarecimento político e da doutrinação de classe. O evangelho é consequência, parte do “programa”, um dos tópicos da “missão”. Por isso é que o evangelismo em periferias contorna o evangelho para se tornar ativismo social, sem contudo sofrer a represália devida a todo e qualquer movimento que se escora na evangelização para disseminar quaisquer outras pautas. A necessidade de definição da ação social enquanto de sentimento puramente secular é premente e urgente. A urgência que perpassa a histeria dos jovens em sua labuta de adolescência, subindo morros não para evangelizar, mas para distribuir conscientização política. Nem digo comida, porque comida é mais rara em outros locais. O missionário que automaticamente vincula o evangelismo à ação social é ele próprio o agente da deturpação que gerou, também, a descaracterização da doutrina. “Que se ensine qualquer besteira, mas com pão e política”, é o sentimento que se observa. Consideraria ainda mais virtuoso se afirmassem que a ação social, bem como a “conscientização”, foi forjada como estratégia evangelística, mas o tempo agora é outro: o missionário crê que não há Evangelho sem caridade, aquela mesma postulada no livro de Tiago, contudo esquecido da proeminência das palavras de Cristo contra aquele que demonstra o que deveria ser anônimo e intransferível. O evangelizador que se proclama grande por praticar ações sociais é ele próprio a versão moderna do fariseu bíblico, justificado na popularidade da medida.