Introdução a “Marxismo e Religião”, de Heraldo Barbuy

O estudo da abrangência do marxismo na atualidade é geralmente focado em duas vertentes distintas: primeiro, o pensamento de Karl Marx vinculado às ciências econômicas (ou seja, a tentativa de demonstração da viabilidade econômica das proposições de Marx e Engels); segundo, a ideologia marxista na influência sociológica e política das culturas e estados, mediante a expansão “ad infinitum” do materialismo dialético a todo e qualquer fenômeno social. A terceira, não obstante esclarecida por Heraldo Barbuy, é ignorada como quem esquece a novidade insuportável do “materialismo” que se faz religioso em todas as suas estruturas de pensamento. Em Marxismo e Religião, Barbuy explica de maneira sistêmica e quase didática os motivos pelos quais o marxismo não deve ser observado como teoria comum inserta no mundo, sequer a mera utopia que, se desmentida, seria imediatamente esquecida por sua inviabilidade. Com a apresentação de tópicos explicativos complementares, Religião e Marxismo tem sua profundidade atestada nos fatos, ficando a sensação de que nos deparamos com uma novidade sem precedentes – apesar de já explorada por Hannah Arendt e Leszek Kołakowski.

A relutância do tratamento metafísico e supramaterial do marxismo talvez esteja relacionada à relutância na assunção do intelectual nas afirmações eminentemente religiosas. De fato, se o marxismo corrobora a utopia no retorno indefinido de justificativas, causas, efeitos e culpados, em mesma sorte é que qualquer prostração intelectual utilize das técnicas religiosa e filosófica para a convalidação da tese que, a princípio, não possui qualquer fundamento. Aliás, o fundamento mesmo da tese marxista, reexplorada indefinidamente, adulterada ou reinventada, parte da pressuposição da eternidade material e da imputação sintomática das revoluções aos critérios de classe. Por isso, comum a análise do marxista contemporâneo que abrange da dominação indígena à sociedade de consumo, forma pela qual a tese se adapta a qualquer fenômeno que tenha por azo a diletância da culpa e o conforto da vítima. O “sentimento marxista”, portanto, é termo que utilizo recorrentemente, à luz do que Heraldo Barbuy considera ser uma visão profética dos escritos de Marx. A relutância marxista para com a religião segue por justa causa sua característica religiosa; o antagonismo que se completa porquanto o marxismo se alimenta do sentimento religioso. É, assim, a extensão do existentecialismo kierkegaardiano ao materialismo levado aos últimos patamares.

“Marxismo” e Marx não devem ser confundidos. Na magnífica obra Main Currents of Marxism, especificamente em The Breakdown, Kołakowski nos orienta a observar o marxismo como teoria que se distanciou de seu mestre, ao ponto de toda e qualquer nova teoria marxista ser mera reutilização teórica de uma deturpação já superada. O caráter profético de Marx em seus escritos merece a observação isolada se queremos chegar à trilha teórica do marxismo no Século XX. Não obstante essa contradição entre teoria e autor, é certo que o fenômeno não foi ignorado pelos marxistas. Isso porque uma das justificativas basilares de qualquer deturpação teórica marxista é coadunar a deturpação a um erro teórico, irrelevante ou inexistente na obra de Marx, não obstante popular entre acadêmicos. Barbuy conclui que a contradição teórica marxista é ela mesma um fenômeno direto dos escritos de Marx.

Marxismo e Religião é dividida em três partes complementares, sendo elas “Profecia e Dialética”, “Marxismo e Religião” e “Marxismo e Desespero”. Assimilar certas estratégias discursivas de Marx depende da correlação entre sua obra e a profetismo característico das obras utópicas da época. Já na apresentação temos o escopo máximo de Marxismo e Religião: a obra, dizendo sobre Marx, veio para afugentar ou esclarecer os cristãos tendentes a entabular no marxismo os pressupostos cristãos que, apesar de inconciliáveis, tornaram-se de utilidade máxima a quem sobrevive das alegações humanistas. De maneira que Marxismo e Religião, mais ainda que obra de mero esclarecimento teórico, é também a orientação devida ao cristão que anda no caminho dúbio do secularismo.

A. Crippa, intitulado amigo de Barbuy, diz a que veio a obra:

“Ao apresentar este ensaio do caro amigo H. Barbuy, não poderia deixar de lembrar a sua importância para os cristãos. Infelizmente, muitos são aqueles que procuram no marxismo justificações para a ação temporal do cristianismo, sem perceberem o absurdo inerente  a uma tal tentativa. Primeiro, porque o que procuram no marxismo é o que Marx tirou do cristianismo. Segundo, marxismo falsifica todas as posições a partir do momento em que põe o materialismo como suporte do sistema. Seu humanismo é falso, como falsos seus ideais sociais. A ordem econômica e política que propõe, mesmo contendo afirmações válidas, é globalmente falsa e anti-humana. Examinando-se o marxismo como um todo, como o faz o prof. Barbuy, pode-se perceber não só sua falsidade, mas o logro em que caíram, por ingenuidade ou burrice, muitos cristãos.”

Heraldo Barbuy, “ao leitor”, adverte:

“Estas considerações, que demonstram o caráter religioso do marxismo, foram sugeridas antes de mais nada pela firme atitude anti-religiosa dos marxistas. Julgando-se emancipados de toda religião – que consideram como sobrevivência histórica – os portadores do socialismo “científico” querem uma ordem social que supere todas as alienações, e extinga os últimos resquícios da vida religiosa. Procurarei dizer que o cristão não pode ser marxista sem ser herética; e que, por outro lado, a apresentação do marxismo e do cristianismo como dois pólos opostos, só tem razão de ser quando ambos são considerando como produtos da mesma temática – uma temática essencialmente cristã – e oriundos da mesma fonte histórica. Porque o marxismo se revela, desde o primeiro exame, como heresia típica do cristianismo. É, no seu conjunto, a versão herética mais recente dos dogmas básicos do cristianismo, a partir do dogma cristão da existência da Humanidade e da concepção cristão do Homem. O marxismo é um Humanismo. Mas a concepção marxista do Homem não é outra coisa senão a degenerescência da concepção cristã do Homem”.

A religião secular, a culto ao personagem e ao Estado, segue prioritariamente o transcendência da tese marxista, a contraposição do materialismo e imaterialismo, os critérios de justificativa marxista que acompanham o mesmo discurso de fé. Barbuy tentou unificar sua percepção do fenômeno, e o fez com total competência. Muito se tem de interessante a relação íntima entre o secularismo religioso, marxismo, cientificismo e Iluminismo. Apesar de ser assunto de conhecimento pleno há décadas, é sempre satisfatório analisar o caminho pelo qual percorre aquele que deseja anular a religião, contudo submetido ao “espírito religioso”. Após os comentários sobre A Inquisição, de J. e G. Testas, Marxismo e Religião será melhor explorada.